269 quilos de cocaína apreendida viram 10

2 anos após mega-apreensão, teste aponta só 3% de droga em pó guardado no Denarc

Bruno Paes Manso,

25 de agosto de 2011 | 01h33

Três colombianos e dois brasileiros acusados de traficar 269,5 quilos de cocaína, a maior apreensão feita pela polícia paulista em 2009, foram colocados ontem em liberdade. O desenlace foi inusitado. Para o relaxamento da prisão na Justiça, pesou o resultado do laudo feito neste ano pelo Instituto de Criminalística (IC) que constatou que os sacos de pó branco que haviam sido guardados nos cofres do Departamento de Narcóticos (Denarc) eram uma maçaroca com só 3,7% de cocaína.

A prisão dos cinco havia ocorrido no dia 27 de novembro de 2009 e foi anunciada com alarde pela Polícia Civil. Os 273 tijolos da suposta cocaína foram colocados sobre a mesa para uma coletiva de imprensa em que investigadores anunciaram o sucesso da operação que prendeu a quadrilha no km 62 da Rodovia Castelo Branco, em Itu, no interior de São Paulo. No inquérito, policiais disseram que a operação demandou três meses de serviços da inteligência do Denarc.

O delegado Maurício Del Trono Grosche, titular da 1.ª Delegacia de Apoio ao Interior do Denarc, responsável pelo flagrante e pela investigação, explicou que os traficantes traziam a droga da Colômbia em pequenas quantidades. A operação de inteligência foi chefiada pelo investigador Ismar José da Cruz, que se passou por comprador da mercadoria, levando os colombianos e brasileiros ao local do flagrante.

"Vira". Um ano antes, Cruz havia sido preso com outros quatro policiais civis sob suspeita de desviar drogas em outra ocorrência - de 2003. Na época, Cruz e os outros policiais foram acusados de substituir parte dos 327 quilos de cocaína apreendidos por outras substâncias, prática conhecida na polícia como "fazer o vira". A droga desviada teria sido revendida. Ele e os demais acusados acabaram inocentados no processo por falta de provas.

Na apreensão de 2009, o exame feito pelo IC, além de mostrar a impureza do material guardado pelos policiais, apontou que os tijolos de cocaína, mostrados nas fotografias tiradas logo depois da apreensão, haviam se transformado. "A droga veio para cá em forma de pó, não sob a forma de tijolos (prensada)", escreveram os peritos.

A informação de que a droga era, na realidade, um volume gigantesco de talco e mármore surpreendeu envolvidos no processo. São raros os casos em que a Justiça pede teste de pureza da droga. Normalmente, o material apreendido é incinerado ainda no início do processo. "Em 26 anos de profissão, é a primeira vez que vejo teste de qualidade de droga em caso no qual trabalho", diz o advogado Francisco Assis Henrique Neto Rocha, que defende os dois brasileiros acusados de integrar a quadrilha.

Pelo resultado, no entanto, é difícil constatar se houve desvio do material apreendido, pois o grau de pureza da droga não foi verificado no momento da apreensão. O advogado de dois dos colombianos, Luiz Carlos Puleio, autor do pedido do exame de pureza da droga, defende a decisão da Justiça. "Além de autoria, todo crime precisa de materialidade. E parece que, neste caso, em vez de cocaína, eles traficavam talco. Meus clientes são acusados sobre o quê?"

Fórum. Com o relaxamento da prisão e a decretação da liberdade provisória, os cinco acusados de tráfico tiveram os passaportes apreendidos e terão de comparecer de dois em dois meses ao Fórum de Itu se quiserem permanecer livres. Eles ficaram presos por um ano e nove meses.

O promotor do caso, Luiz Carlos Ormeleze, disse que não pode pronunciar-se, porque o caso corre em segredo de Justiça. O juiz da 2.ª Vara Criminal Hélio Villaça Furukawa também não quis falar a respeito. O Estado pediu para conversar com o investigador Ismar José da Cruz, que continua a trabalhar no Denarc, mas não obteve retorno.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.