25 anos depois, empresário refaz tour por SP

Japonês que criou a moto CG Honda e autor de vídeo no YouTube, que mostra passeio em 1988, gravou o mesmo roteiro a pedido do 'Estado'

Edison Veiga, , O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2013 | 02h06

Vinte cinco anos atrás, a cidade tinha outdoors por todo canto e carros de apenas quatro marcas nas ruas. "E muito mais Fusca do que hoje", comenta o empresário Kazuhiko Kobayashi. Vinte e cinco anos atrás, em um domingo, ele saiu para um passeio com seu Escort vermelho munido de uma câmera filmadora - enorme, para os padrões de hoje - e documentou São Paulo de um jeito raro. A convite do Estado, ele repetiu o mesmo trajeto no último domingo, mais ou menos no mesmo horário.

Gastou 9 minutos a mais. Saiu dos Jardins - do prédio onde ele morava em 1988, na Alameda Casa Branca, nos Jardins -, pegou a Nove de Julho com sentido à zona norte. Contornou a Praça 14 Bis e retornou pela 23 de Maio até a Liberdade. Cruzou algumas ruas e, de volta à 23 de Maio, foi até o Aeroporto de Congonhas, perto do qual encerrou o trajeto.

"Minha ideia, há 25 anos, era mostrar São Paulo a meus pais, que viviam em Tóquio. Eu enviava as fitas pelo correio, como se fossem cartas faladas", conta Kobayashi, hoje com 61 anos. Nas narrações, sempre em japonês, ele comenta sobre a cidade - "Jânio Quadros: ele já foi presidente e hoje é prefeito de São Paulo. Tem uma ideia na cabeça e já cria uma nova legislação", afirma ele, em trecho do antigo vídeo.

A ligação da família dele com o Brasil vinha de muito antes. No fim dos anos 1950, Shigueo Kobayashi, seu pai, veio para Santos, para trabalhar na indústria pesqueira. Era uma missão com prazo de validade: seis anos. Trouxe mulher e filhos. E o pequeno Kazuhiko foi alfabetizado em português e encantou-se com o Brasil.

   

Morar no Brasil."Então, desde que voltamos ao Japão, em 1962, tinha a ideia fixa: um dia tornaria a viver no Brasil", conta. Foi o que disse, por exemplo, à sua mulher, Kanako, antes do casamento. "Para que ela não reclamasse depois", enfatiza. E foi assim que, formado engenheiro mecânico, decidiu procurar emprego, nos anos 1970, em empresas que mantivessem bons negócios com o País. "Quem sabe, assim, teria a chance de ser transferido", explica.

Foi parar na Honda. E na fabricante japonesa integrou a equipe responsável por desenvolver uma motocicleta barata e de fácil manutenção, com o objetivo de atender aos países em desenvolvimento. Em 1976, nascia a CG Honda, que pegou de verdade no Brasil - sem ela, talvez nem existissem os motoboys, essa instituição paulistana.

Kobayashi continuou mexendo os hashis para concretizar o sonho de voltar a viver deste lado do planeta. A proposta surgiu em 1987. Viria cuidar da área de assistência técnica em São Paulo. Não pensou duas vezes - mudou-se com a mulher e os dois filhos (o terceiro nasceria já brasileiro). "O Brasil é melhor, né? No Japão tudo é muito certinho. Eu sou mais brasileiro."

Em 1988, resolveu mandar cartas faladas aos pais. Mostrar para eles as mudanças da cidade que eles haviam conhecido três décadas atrás.

Kobayashi saiu da Honda, inventou um sistema de consertos rápidos para funilaria e, com o serviço, passou a ganhar a vida nos anos 1990. Mudou-se dos Jardins para a Vila Mariana. Teve uma oficina própria, em Moema, nos anos 1990.

Oito anos atrás, voltou a morar no Japão - estabeleceu-se como vendedor de bicicletas elétricas. Na casa da família, em Tóquio, encontrou as tais fitas. E decidiu colocar tudo no YouTube, junto com alguns vídeos explicativos do seu serviço de funilaria express - veja em www.youtube.com/user/cycleseek.

"O YouTube é um sucesso. Passei a ser procurado por conta da funilaria. Tanto que, em agosto, voltei ao Brasil para trabalhar com isso." Desde então divide-se entre Tóquio - onde a mulher optou por ficar - e São Paulo - cidade que ele tanto gosta, e onde vivem seus três filhos. Há um mês, foi convidado para administrar a funilaria de uma concessionária Toyota em São Caetano.

As filmagens seguem como um hobby. Mais garimpando vídeos antigos de sua lavra, digitalizando-os e colocando no YouTube, do que produzindo vídeos novos - a refilmagem do passeio por São Paulo só foi feita graças à provocação do Estado, que o animou a comparar o trajeto 25 anos depois. Entre os vídeos da seção 'túnel do tempo', há uma pérola: em 1960, seu avô Hikehiko veio visitar o Brasil e registrou tudo com uma filmadora. No caso dos Kobayashi, filmar é algo que está no DNA.

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