2024. Adeus, minhocão... até nunca mais

Elevado no centro da capital tem de ser demolido, concordam arquitetos

O Estado de S. Paulo

24 Janeiro 2014 | 23h50

Há anos se fala do fim Minhocão, cicatriz urbana que faz a ligação leste-oeste da cidade e em cujos 3,4 km passam 70 mil carros por dia. Desde que foi inaugurado, em 1971, o Elevado Costa e Silva se tornou responsável pela degradação dos 140 prédios em seu entorno - além de sufocar toda a via que passa por baixo dele, criando um ambiente lúgubre e desvalorizado.

"Em dez anos, será demolido", sentencia o arquiteto Lourenço Gimenes, do escritório FGMF. "Demolido mesmo, sem essa de transformá-lo em parque como o High Line de Nova York (parque linear criado em uma estrutura desativada de trem elevado). Mantê-lo significa continuar criando uma sombra permanente, com espaços pouco acolhedores abaixo dele e uma relação ruim com os prédios ao lado", diz. "Derrubar o Minhocão vai ser a grande obra de São Paulo. O prefeito que fizer isso direito vai ficar com o nome marcado na cidade para sempre", afirma o arquiteto Lucio Gomes Machado, da Gomes Machado Arquitetos Associados.

Propostas de remoção já são feitas há tempos. O FGMF, aliás, foi um dos participantes do concurso realizado pela Prefeitura em 2006, pedindo alternativas para a via expressa. "Nossa ideia era fazer com que o Minhocão fosse um elemento de qualificação do espaço que ele mesmo degradou. Ou seja: destacamos pontos em que a gente manteria a bandeja, um pedaço do Elevado, tirando outros trechos. Nesses pedaços remanescentes, haveria equipamentos como biblioteca e posto de saúde", diz Gimenes. Eles perderam o concurso, mas mesmo a proposta vencedora acabou arquivada.

Não há um estudo oficial de quanto se gastaria para demoli-lo. Como seria um trabalho minucioso, de modo a não danificar as estruturas construídas no entorno, alguns especialistas especulam algo em torno de R$ 80 milhões - são mil vigas de concreto, com 30 a 40 metros cada uma. Os defensores do Elevado ainda lembram que o seu fim significaria 4 mil carros a mais por hora na Avenida São João e em outras ruas do centro.

Ou não. Pois os arquitetos apostam em uma outra solução para o trânsito. "Precisamos de uma ligação leste-oeste mais eficiente", argumenta Rodrigo Ferraz, também do FGMF. Para isso, a ideia seria enterrar o trecho da linha de trem entre o Brás e a Barra Funda e, por cima dela, criar uma avenida de superfície integrada com a paisagem da cidade. "Teria capacidade de carga maior do que a Marginal do Tietê e seria muito mais ágil", completa Ferraz.

Mas o ideal, então, não seria primeiro construir essa alternativa para só depois demolir o Minhocão? "O bom senso diria que sim, mas eu acredito que não", diz Gimenes. "Nesses casos, defendo a ‘guerrilha’ à ‘cultura rodoviarista’, precisamos estrangular para depois resolver."

Não é novidade a ideia de retirar vias elevadas como parte da renovação urbana. A cidade de Boston, nos Estados Unidos, construiu um túnel que cruza a cidade das margens à baía, para absorver o trânsito de um "minhocão" construído nos anos 1940 - o projeto americano custou R$ 30 bilhões.

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