2 mil usuários de droga frequentam a cracolândia

Estimativa é do Denarc, que mantém agentes disfarçados na área, e considera os dependentes que compram crack e vão embora

Gio Mendes, O Estado de S.Paulo

23 Julho 2011 | 00h00

Dois mil consumidores de drogas frequentam a cracolândia, na Luz, região central de São Paulo. A estimativa é de policiais civis do Departamento de Investigações sobre Narcóticos (Denarc), que desde o começo do ano fazem operações diárias para prender traficantes na área.

Segundo o diretor do Denarc, delegado Wagner Giudice, esses usuários de drogas integram uma população flutuante. "Muitos não ficam lá. Eles compram a droga e vão embora ou ficam rodando pela região. Outros só voltam depois de uma semana", afirma. O número supera a população de 20 cidades paulistas, entre elas Turmalina (1.978), Aspásia (1.809 moradores), Nova Castilho (1.125) e Borá (805).

O diretor do Denarc apresentou a estimativa na semana passada, em encontro com a Frente Parlamentar de Enfrentamento ao Crack da Assembleia Legislativa. Segundo ele, investigadores disfarçados têm circulado entre os usuários para identificar os fornecedores. Até junho, foram presos 110 traficantes e apreendidos 110 kg de crack.

A maior parte dos usuários de crack se aglomera na esquina da Rua dos Gusmões com a Avenida Rio Branco, mas eles também estão presentes em outras vias da região, como as Ruas dos Andradas, Vitória, Guaianases e Conselheiro Nébias.

"Abro minha janela e vejo essa cena todos os dias. Além dos moradores de rua, dá para ver gente de terno e gravata, crianças e idosos comprando droga na cracolândia. Tem um público itinerante mesmo", diz Paula Ribas, presidente da Associação dos Moradores e Amigos da Santa Ifigênia e da Luz (Amoaluz) e moradora da região há 36 anos. "A situação só piorou com o passar dos anos. Quando a Prefeitura vai oferecer ajuda para essas pessoas? Elas precisam de tratamento de saúde", questiona.

O psicólogo Thiago Calil, do Centro de Convivência É de Lei, que desenvolve uma política de redução de danos para usuários de drogas, diz que houve um crescimento da população flutuante da cracolândia. "É comum ver rostos diferentes quando vamos distribuir piteiras de silicone e protetores labiais para os usuários de crack", afirma.

Segundo o psicólogo, no ano passado foram distribuídas 3.630 piteiras. O objetivo é que os usuários de drogas não compartilhem o mesmo cachimbo e contraiam doenças como hepatite, tuberculose e até aids. Também foram entregues 3.753 protetores labiais, para ajudar na cicatrização de feridas na boca.

Para a urbanista Lucila Lacreta, do Movimento Defenda São Paulo, a cracolândia cresceu porque o poder público virou as costas para a região. "As ruas de lá continuam sujas. A gente nota que aquela área foi deliberadamente abandonada, não só sob o ponto de vista urbanístico, mas do ponto de vista social também", disse Lucila.

Nova Luz. O projeto preliminar da Prefeitura para reurbanização de 45 quarteirões dos bairros da Luz e Santa Ifigênia não propõe soluções para o problema dos usuários de drogas e moradores de rua da região.

Chamado de Nova Luz, o projeto foi apresentado em novembro e ainda está sendo desenvolvido pelo consórcio formado por Concremat Engenharia, Cia. City, o escritório internacional Aecom e a Fundação Getúlio Vargas (FGV). Em entrevista no ano passado, Jason Prior, vice-presidente da Aecom, disse que os equipamentos culturais e de ensino que serão instalados na região seriam capazes de absorver os usuários de droga.

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