1932, oitenta e cinco anos depois

Democracia, meritocracia, competência, superação, respeito à lei, ao próximo e a valores maiores que fazem e viabilizam uma nação

Antonio Penteado Mendonça *, O Estado de S.Paulo

09 Julho 2017 | 03h00

A Revolução de 1932 não acabou. A afirmação pode soar um pouco estranha, na medida em que a maior parte dos brasileiros, em 2017, não sabe o que foi o movimento nem as razões que levaram o Estado de São Paulo a se levantar em armas, numa luta desigual com o restante do Brasil. 

Esse esquecimento não é culpa de 1932. É culpa do Brasil que apaga da sua história os movimentos e personagens que dignificam a nação, dão estrutura para a sociedade e servem de exemplo para as novas gerações.

1932 não é exceção à regra. Ao contrário, dadas suas principais características, o movimento paulista, tão logo explodiu, foi distorcido e chamado de separatista pela ditadura no intuito de desmoralizar São Paulo diante dos demais Estados, como ferramenta para isolá-lo do restante do País e permitir sua subjugação rápida pela ação integrada do Exército e das polícias estaduais.

Além disso, terminada a guerra, três meses após a marcha inicial dos paulistas em direção ao Rio de Janeiro para tentar derrubar a ditadura de Getúlio Vargas, o governo federal e os movimentos de esquerda, notadamente os comunistas, começaram a solapar os fatos e apagar a história, porque, antes de tudo, a Revolução de 1932 foi um movimento nascido no seio da burguesia, que recebeu imediatamente o apoio de toda a população do Estado para se implantar os valores democráticos, prometidos e rapidamente destruídos pela Revolução de 1930, que traiu os ideais de boa parte de seus idealizadores e empossou Getúlio Vargas como ditador.

Da mesma forma que não acabou, a Revolução de 1932 não nasceu no dia 9 de julho daquele ano. O início da história retroage à segunda metade do século 19, quando a imigração europeia arejou a visão político-social do Estado e a força criadora dos paulistas encontrou parâmetros, objetivos e sonhos novos para direcioná-la – e a sua capacidade de gerar riquezas – a um padrão socioeconômico inédito no Brasil.

Enquanto o País seguia na sua toada de senhor de escravo, já sem escravo, São Paulo enveredava pela trilha da modernidade e do empreendedorismo, com os vastos recursos do café sendo investidos em atividades novas, em empresas com tecnologias e produtos desconhecidos até então, trazidas pelos imigrantes, boa parte deles com habilidades intelectuais e profissionais desconhecidas no Brasil.

Assim, o parque industrial paulista começa a tomar forma, inicialmente com base na indústria têxtil, indispensável para a confecção da sacaria para o café, e, depois, rapidamente se expandindo para outras áreas, de alimento a maquinário pesado.

O salto tecnológico traz o salto social. A cidade de São Paulo entra na sua corrida desenfreada para se transformar na “Cidade que Mais Cresce no Mundo”. As escolas se aprimoram, novos cursos são abertos, o ensino público é da melhor qualidade, o atendimento à saúde vê surgir as majestosas instalações da Santa Casa, o interior é beneficiado pelo progresso, com as principais cidades oferecendo condições de vida equivalentes às da capital, e o Porto de Santos se torna o mais importante e moderno do País.

A Revolução de 1930 leva à ruptura da ordem política, coloca Getúlio Vargas como ditador e, por erro de visão, entrega São Paulo aos chamados “tenentes”, que não tinham a menor noção do que acontecia no Estado, mas não queriam São Paulo na condição de liderança em que estava fazia mais de 50 anos.

1932 começa a tomar forma neste momento. Os paulistas se sentem ameaçados pela postura dos “tenentes” e reagem como podem. Sem serem ouvidos, começam a se manifestar nas ruas, nas agremiações, nos jornais, etc. O movimento toma vulto, empurrado por ações equivocadas adotadas em relação à administração do Estado.

Ao se sentir realmente desprezada, a população, puxada pela burguesia, acelera os protestos, até a situação atingir um patamar insustentável, que deságua no movimento armado de 9 de julho de 1932. Em outubro, São Paulo foi derrotado no campo de batalha. Parte importante de suas lideranças foi exilada. O Estado foi militarmente ocupado. 

Mas Getúlio Vargas era um homem inteligente, com um projeto de industrialização para o Brasil. A única forma de realizá-lo era por meio dos paulistas. Em 1933, nomeia Armando de Salles Oliveira Interventor no Estado, anistia os exilados e se aproxima, com Roberto Simonsen, dos industriais paulistas.

Em 1934, São Paulo dá ao Brasil a Universidade de São Paulo. Muito mais importante do que a Constituição votada naquele ano ou mesmo do que todas as demais constituições que vigoraram no Brasil, a USP começa a formar líderes políticos e empresariais com cultura, preparo e capacidade profissional muito acima do que se via até então.

De lá até os dias de hoje, os ideais da Revolução de 1932 imprimiram cada vez com mais força sua marca na vida nacional. Foi e continua sendo uma trajetória acidentada e difícil, mas o estado democrático de Direito que o País vive desde meados dos anos 1980 mostra sua vitalidade, inclusive neste momento dramático da vida nacional, quando os valores do Brasil arcaico ameaçam retardar o progresso social da nação.

1932 quer dizer democracia, meritocracia, competência, capacidade de ação e de superação, entrega, respeito à lei, ao próximo e aos valores maiores que fazem e viabilizam uma nação. Por isso, a Revolução de 1932 está mais viva do que nunca no peito de todos os brasileiros indignados com o que fizeram com o País.

* É PROVEDOR DA SANTA CASA DE MISERICÓRDIA DE SÃO PAULO E SECRETÁRIO-GERAL DA ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS (APL).

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