1932 - A vitória da derrota

O que fez a diferença e em 2 anos transformou derrota no campo de batalha em vitória socioeconômica foi a mobilização popular

ANTONIO PENTEADO MENDONÇA, O Estado de S. Paulo

09 Julho 2015 | 03h00

A análise da Revolução de 1932, feita 83 anos depois, mostra um quadro complexo, no qual o insucesso inicial poucos anos depois se transforma em importante vitória, que molda o desenvolvimento do Estado de São Paulo e abre as portas para o acelerado processo socioeconômico que em 80 anos consolida as mudanças que vinham acontecendo desde a segunda metade do século 19.

A experiência das trincheiras, das dificuldades e dos horrores da guerra vivida pelos soldados aproxima as pessoas e derruba os preconceitos, permitindo a integração plena da população do Estado, interagindo por meio de uma sociedade flexível e aberta, em que mérito e esforço valem mais que nomes e posições de famílias.

Com a criação da Universidade de São Paulo (USP), em 1934, a população passa a ter acesso a tecnologias, ciências e conhecimentos modernos e isso forma um quadro diferenciado de cientistas, pesquisadores, homens públicos, empreendedores, empresários e profissionais liberais. São eles que comandam a industrialização e a modernização econômica de São Paulo, processo que se acelera e ganha corpo com a derrota no campo de batalha, na guerra de 1932.

Politicamente, o movimento de 1932 foi um fracasso. Pouco antes da eclosão da luta armada, o Estado de São Paulo ficou isolado, comido vivo pela habilidade política, conchavos e promessas de Getúlio Vargas, que levaram o Rio Grande do Sul e Minas Gerais a abandonar os paulistas à própria sorte. Quando a guerra eclodiu, São Paulo viu-se praticamente só, acompanhado apenas por Mato Grosso, de onde deveriam vir tropas que nunca chegaram.

Diplomaticamente, o movimento foi um fracasso. São Paulo não conseguiu convencer a comunidade internacional a reconhecer o “Estado de Beligerância” no Brasil, o que era fundamental para os paulistas. Ao perceber que o quadro político de São Paulo começava a se deteriorar, Getúlio Vargas rapidamente removeu do Estado o armamento moderno.

Quando a revolução começou, São Paulo estava mal armado e suas tropas, mal treinadas. Apenas o acesso ao mercado internacional de armas poderia reverter a situação favorável ao governo federal. Todavia, a diplomacia federal foi mais eficiente e conseguiu impedir o reconhecimento do “Estado de Beligerância” pelas demais nações, especialmente as fabricantes de armamentos.

Estrategicamente, o movimento foi um fracasso. Quando a Revolução estourou, no dia 9 de julho de 1932, a única possibilidade concreta de vitória era por meio da marcha acelerada para o Rio. Se os paulistas ameaçassem a capital federal, era praticamente certo que as tropas do Primeiro Exército se levantariam e deporiam Getúlio Vargas.

Os paulistas partiram em direção ao Rio, mas, pouco antes da divisa, o coronel Euclides Figueiredo ordenou a suspensão da marcha até a chegada dos generais Isidoro Dias Lopes e Bertoldo Klinger, ambos mal escolhidos pelos líderes revolucionários para comandar as operações de guerra. Como nenhum deles estava em São Paulo, o comandante em exercício decidiu, em vez de seguir em frente e invadir o Rio, fazer alto e aguardar a chegada e as decisões dos dois generais.

Essa pausa foi o tempo necessário para Getúlio Vargas cooptar os militares aquartelados no Rio e mobilizar o País contra os paulistas. Daí em diante, São Paulo não ameaçou mais a capital federal, e rapidamente passou apenas a se defender das tropas federais, melhor treinadas e equipadas, vindas diariamente de praticamente todos os Estados brasileiros.

Na luta, o movimento foi um fracasso. As tropas paulistas eram compostas por voluntários sem experiência militar, soldados e oficiais do Exército e soldados e oficiais da Força Pública, estes, em teoria, os mais bem preparados. Todavia, o que se viu em várias frentes foi o comportamento vergonhoso de parte dos encarregados de comandar as tropas. É verdade, há exemplos de bravura e competência, como a coluna Romão Gomes, o Trem Blindado e o Túnel, mas eles foram insuficientes para fazer a sorte pender para as cores paulistas.

O que fez a diferença na Revolução de 1932 - e em dois anos transformou a derrota no campo de batalha em vitória socioeconômica - foi a mobilização popular. Já logo depois da Revolução de 1930, a população do Estado, independentemente de classe social e origem, se levantou em defesa de seus ideais e de seu modo de vida. São Paulo não aceitou o interventor João Alberto nem as ideias e experiências dos “tenentes” que tentaram impor o seu modo de ver o Brasil, completamente diverso das aspirações dos paulistas.

Durante dois anos, as manifestações de rua contra a ditadura e as tentativas de modificação do cenário político-social se sucedem rapidamente, ganham visibilidade e tamanho, deteriorando a cadeia de comando e desmoralizando o interventor. O momento culminante é o 23 de maio de 1932, quando Martins, Miragaia, Dráuzio, Camargo e Alvarenga morrem metralhados pelos correligionários de João Alberto.

Durante a luta armada, o retrato mais forte da revolta do povo, de todas as classes sociais, são os batalhões de voluntários, formados por cidadãos das mais diferentes origens. As fotografias das filas nos locais de alistamento, das tropas sendo preparadas, marchando pela cidade e embarcando nos trens que as levariam para os diferentes setores da guerra contrastam com o comportamento triste de parte de seus comandantes no campo de batalha.

Mas a mobilização popular foi muito além. A indústria paulista, então um vago esboço do que viria a se tornar, mostrou criatividade e pujança, transformando-se, em poucas semanas, de fabricante de tecidos, alimentos e objetos pouco sofisticados numa eficiente indústria bélica, capaz de produzir parte das armas e munições necessárias para a manutenção da luta - morteiros, granadas, trens blindados e carros de combate.

A transformação da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo em hospital de sangue permitiu o atendimento médico-hospitalar das vítimas da guerra. E a participação ativa das mulheres paulistas como enfermeiras, nos escritórios, nas fábricas e na linha de frente teve peso fundamental para que o Estado pudesse combater, se defendendo por três longos meses do ataque maciço das tropas federais.

Conhecendo o Brasil de 1932, não é de se imaginar que a ideia da luta por uma Constituição fosse a mola mestra do movimento. Era uma bandeira, mas algo pouco claro para grande parte dos paulistas. É preciso se ter claro que, à época, a maioria da população vivia na zona rural e era analfabeta.

A força motriz que empolgou as massas e fez de cada paulista um soldado foi a mesma energia que, num processo iniciado na segunda metade do século 19, transformou São Paulo no Estado mais rico e desenvolvido do Brasil. A população, composta pela miscigenação de antigos brasileiros e imigrantes recém-chegados, tinha como marca registrada, que a diferenciava do restante do Brasil, a independência, a coragem, o conhecimento, a tecnologia e a vontade de progredir, de gerar riquezas, de abrir novos rumos, descobrir novos Eldorados, criar impérios e expandir seu campo de atuação. Era a velha garra do bandeirante e do tropeiro, somada à vontade de vencer do imigrante, derrubando barreiras sociais e preconceitos, criando uma sociedade moderna, com educação de qualidade, saúde pública eficiente e a possibilidade quase ilimitada de melhorar o padrão de vida das famílias.

As trincheiras de 1932 aprofundaram os valores democráticos do povo paulista. Nelas, homens de todas as origens e condições sociais se encontraram, se protegeram mutuamente, se conheceram e se identificaram na dificuldade, na sujeira das trincheiras, no medo dos tiros, na brutalidade das marchas e dos combates. Fazendeiros e operários, banqueiros e trabalhadores rurais, filhos de homens ricos e filhos de homens pobres viveram a mesma realidade, unidos pela necessidade de sobreviver em meio a uma guerra. Foi isso que fez São Paulo lutar durante três meses uma luta perdida logo depois do seu começo. E a consequência direta foi a vitória dos sonhos, das aspirações, do modo de vida e da visão de mundo paulista, não no campo de batalha, mas no campo socioeconômico. 

O movimento mais visível foi a fundação da USP, em 1934. Graças às lideranças e profissionais formados em seus bancos, São Paulo acelera seu desenvolvimento, com a industrialização, o comércio e os serviços ganhando corpo e se apresentando como alternativas viáveis para o café. Rapidamente a economia se diversifica. No campo, a cana de açúcar, o algodão, os grãos e a pecuária criam novas fontes de riqueza. As cidades se transformam em ímãs e a população migra para as áreas urbanas, onde novos empreendimentos e suas cadeias de suporte criam chances de sucesso rápido e concreto.

Se a Revolução de 1932 foi um desastre político e militar, suas consequências foram altamente positivas para São Paulo e, no longo prazo, para o Brasil. Graças à reação dos paulistas ao fracasso no campo de batalha, o Brasil, em 50 anos, deixou de ser um país pobre, dependente do café e da cana de açúcar, para se transformar numa das maiores economias do mundo.

ANTONIO PENTEADO MENDONÇA É PRESIDENTE DA ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS, SÓCIO DA PENTEADO MENDONÇA ADVOCACIA E COMENTARISTA DA RÁDIO ESTADÃO

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