15 mortes em 5 dias fazem Estado enviar Rota por tempo indeterminado à Baixada

Dois PMs e 13 civis foram assassinados neste período e delegado não descarta a ação de 'justiceiros'; secretário da Segurança foi à região

WILLIAM CARDOSO, BRUNO PAES MANSO, ZULEIDE BARROS, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

09 Outubro 2012 | 03h05

Dois pelotões das Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota) foram enviados para a Baixada Santista e devem permanecer por tempo indeterminado na região, após as mortes de dois policiais militares e outras 13 pessoas em cinco dias em Santos, São Vicente e no Guarujá. A Polícia Civil ainda investiga se há relação entre os casos.

No domingo, após a morte de sete pessoas em aproximadamente cinco horas, o secretário da Segurança Pública, Antonio Ferreira Pinto, e o comandante da PM, Roberval França, estiveram no litoral para conversar com integrantes dos batalhões da região. Membros da Corregedoria da PM também foram deslocados para Santos. "Foram duas mortes covardes cometidas contra policiais que devemos apurar, assim como as demais mortes de civis ocorridas depois", disse Ferreira Pinto.

Os assassinatos começaram na quarta-feira, quando o PM Fábio Passos de Sá foi morto em São Vicente. Um dia depois, sete pessoas foram assassinadas em um período de 20 horas no distrito de Vicente de Carvalho, no Guarujá. As próximas vítimas, no domingo, foram o sargento da Força Tática do 6.º Batalhão da PM Marcelo Fukuhara, de 45 anos, e um homem que tentou ajudar o policial. No mesmo dia, mais cinco pessoas foram mortas na Vila Mathias e no bairro Areia Branca.

Motivação. Delegado seccional em exercício em Santos, Luiz Henrique Ribeiro Artacho diz que ainda não tem pistas e que é prematuro apontar qualquer motivação para a sequência de crimes ou mesmo estabelecer relação entre eles. "Primeiro, precisamos descobrir quem são os autores", disse. Ele não descarta a atuação de "justiceiros" interessados em vingar a morte de PMs.

O promotor Cassio Conserino, do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), afirmou que ainda não recebeu informações a respeito da atual onda de violência, mas disse que esses ataques são cíclicos. "Isso tem acontecido de forma sistemática na Baixada Santista desde 2006, após os ataques do PCC (Primeiro Comando da Capital)."

O PM Fukuhara era o responsável pelo policiamento dos Morros do São Bento, Nova Cintra e Monte Serrat. O sargento foi morto com tiros de fuzil na frente do bufê de propriedade da sua mulher na Avenida Alberto I, na Ponta da Praia. Ele passeava com seu cachorro por volta da meia-noite quando os assassinos chegaram de carro, disparando. Um funcionário do bufê, que tentou ajudar o sargento, também morreu. A ação foi gravada por câmeras de segurança.

No enterro do policial, no fim da tarde de domingo, alguns companheiros de farda do sargento afirmaram que ele vinha recebendo ameaças de morte. "Quando um juiz ou outra autoridade é ameaçada, nós somos escalados para fazer a segurança na frente da casa dele, pelo menos durante um mês", disse um dos policiais. "Agora, quando somos ameaçados, a corporação nos abandona."

Operação. O sargento Fukuhara participou, no dia 2 de setembro, de uma operação no Morro de Santa Maria, na zona leste de Santos, que terminou com a morte de três jovens e a apreensão de 57 quilos de maconha.

Nas ruas do morro, depois da morte dos rapazes, houve protesto dos moradores. A manifestação foi contida por policiais militares com o uso de balas de borracha. Moradores também fizeram pichações contra a Polícia Militar e, especificamente, contra Fukuhara, que era conhecido na comunidade como "Ninja" ou "Japonês".

O Morro de Santa Maria foi um dos lugares para onde foram deslocadas pelo menos seis viaturas da Rota no domingo. Segundo os moradores, os policiais chegaram logo após o encerramento das eleições e ordenaram que as pichações de protesto pela morte dos rapazes fossem apagadas.

Moradores dizem também que houve truculência nas abordagens. Uma comerciante, de 46 anos, acusa os policiais de terem invadido sua casa e seu bar. "Estava na casa da minha irmã e, quando cheguei, encontrei só os pedaços das cadeiras e contaram que os policiais militares fizeram aquilo. Quebraram tudo", diz.

Os moradores afirmam também que ficaram com medo de sair para a rua durante a noite.

Segundo a Secretaria da Segurança Pública (SSP), os policiais militares contaram que, na operação de 2 de setembro, suspeitos reagiram e resistiram às prisões e que, por isso, eles foram mortos. Segundo a secretaria, o motorista da viatura que participou da ação foi baleado no colete e no braço de raspão. A SSP diz que, se houver denúncias de abusos, elas serão investigadas.

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