1/4 dos ciclistas morre em vias calmas

Levantamento com base em dados da CET indica que 41 de 159 mortes aconteceram em locais com velocidade máxima de 30 km/h

CAIO DO VALLE / JORNAL DA TARDE, O Estado de S.Paulo

07 Outubro 2012 | 03h06

Quase três em cada dez ciclistas paulistanos mortos no trânsito perderam a vida em ruas tranquilas, com pouco movimento de veículos. É o que mostra levantamento feito pela reportagem com base em estatísticas recolhidas pela Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) entre 2009 e o ano passado. Das 159 mortes de quem andava de bike no período na cidade, 41 aconteceram em vias calmas, onde a velocidade máxima autorizada muitas vezes é de 30 km/h.

Relativamente alto, esse patamar indica que, apesar de o senso comum dizer o contrário, guiar bikes em ruas por onde circulam poucos automóveis e motos pode não ser tão mais seguro. Isso porque as próprias características das vias menores favorecem infrações.

É o que explica o consultor Horácio Augusto Figueira, mestre em Transportes pela Universidade de São Paulo (USP). "Nos cruzamentos das ruas de bairro onde existe a placa de 'Pare', os motoristas quase não dão seta para virar ou passam reto mesmo, sem respeitá-la." Dessa forma, os ciclistas se tornam mais vulneráveis a choques. A inexistência de semáforos nesses locais, diz ele, contribui para a sensação de que os veículos não precisam brecar para respeitar a preferencial.

Fiscalização. Essa situação é agravada pela ausência de fiscalização intensiva da CET nas vias menos saturadas, segundo Figueira. "As ruas mais tranquilas naturalmente deixam ciclistas e motoristas mais relaxados, menos atentos ao trânsito. O único que não pode relaxar é o órgão público." Ele defende um rodízio de marronzinhos na cidade, com o intuito de despertar a atenção nas ruas menores.

A visão de que é necessário intensificar a fiscalização é compartilhada pelo professor de Engenharia de Tráfego Creso de Franco Peixoto, da Fundação Educacional Inaciana (FEI). "É normal que, se não tiver controle de velocidade, os carros vão correr mais nas ruas calmas, que geralmente são mais livres. Coloque um radar em uma rua onde a máxima é 30 por hora e você vai ver. A porcentagem dos que respeitarão o limite é muito baixa."

O perigo, continua o docente, aumenta depois do anoitecer, quando a visibilidade dos ciclistas cai de maneira drástica. Em particular, as ruas de pouco trânsito nas áreas periféricas são as mais comprometidas. É justo lá que a iluminação pública tende a ser pior. Junte-se a isso a baixa adesão, por razões econômicas, dos ciclistas desses lugares ao uso de equipamentos de segurança, como faixas refletivas na bike e capacetes, e o risco sobe.

Esses fatores podem ajudar a explicar o motivo de a maioria das mortes acontecer em áreas pobres das zonas leste, norte e sul. As três somadas responderam por 133 dos 159 ciclistas mortos em acidentes de 2009 a 2011 na cidade. Só o Jardim Helena, na zona leste, registrou sete casos, cinco deles em ruas residenciais tranquilas (veja abaixo).

Diretor do Instituto CicloBR, Felipe Aragonez, que pedala diariamente por São Paulo, defende que a CET atue nessas vias. "É preciso colocar obstáculos para os motoristas não correrem e proibir o estacionamento de carros de um lado, onde poderia ser criada ciclofaixa." Ele diz que, apesar das recentes iniciativas de proteção aos ciclistas e pedestres, a CET ainda não privilegia as pessoas como deveria.

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