JB Neto/AE
JB Neto/AE

1/3 das vítimas de latrocínio é morta no carro

Estado registrou 69 roubos seguidos de morte no último trimestre; sensação de segurança e sentimento de posse levam motoristas a reagir

Josmar Jozino, Felipe Oda JORNAL DA TARDE, O Estado de S.Paulo

08 de novembro de 2010 | 00h00

O operador de máquinas João dos Santos Braga, de 41 anos, estava em seu Astra com a mulher e o filho de 11 anos, no Itaim Paulista, zona leste da capital, às 18h30 de 15 de agosto de 2010, quando foi abordado por ladrões. Ele ficou assustado e demorou para sair do veículo. Foi baleado três vezes no peito e morreu. Outras 22 pessoas, entre as 69 vítimas de latrocínio (roubo seguido de morte) no Estado, entre julho e setembro, foram assassinadas dentro de seus carros.

Dos 46 casos restantes, 13 pessoas morreram em roubos a residências, 10 em estabelecimentos comerciais, 10 em assaltos nas ruas, uma durante roubo de carga e 12 em outros casos. A reportagem fez a separação dos tipos de latrocínio com base nas estatísticas criminais divulgadas no dia 31 de outubro pela Secretaria da Segurança Pública.

Sensação de segurança e sentimento de posse são alguns dos fatores que levam motoristas a demorar para obedecer ao sinal dos assaltantes ou a reagir impulsivamente, como acelerar.

"O interior do veículo é um ambiente particular. Isso dá uma falsa sensação de privacidade e segurança ao motorista", diz o psiquiatra Daniel de Barros, do Núcleo Forense do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas. "Mas reações também podem surgir pela questão da posse e do instinto de proteção."

Reações altamente condenadas pelas autoridades policiais do Estado. Tanto o coronel Álvaro Batista Camilo, comandante-geral da Polícia Militar, quanto o delegado-geral da Polícia Civil, Domingos Paulo Neto, afirmam que as vítimas de roubos jamais devem reagir nem contrariar os assaltantes. Ambos garantem que a prioridade das duas polícias é combater com rigor tanto os latrocínios como os crimes contra o patrimônio.

Casos. Mas as histórias das vítimas se repetem. Eram 16 horas do dia 5 de setembro, quando ladrões se aproximaram do carro do comerciante Edson Tamura, que aguardava a abertura do semáforo na Avenida Carlos Caldeira Filho, Vila Andrade, zona oeste. Tamura se assustou ao perceber a aproximação do bando e acelerou o veículo na tentativa de fugir dos criminosos. Foi baleado na cabeça e morreu.

O comerciante Maurício Dini Kliukas, de 40 anos, teve mais sorte. Durante tentativa de assalto, ele levou três tiros ao tentar se livrar de assaltantes na zona norte, no dia 25 de agosto. Na fuga, capotou o carro e viu sua filha, à época com 22 dias de vida, ser arremessada do automóvel. "Não reagi nem fugi. Mas posso ter deixado o carro andar quando tirei o pé do freio", justificou Kliukas.

Segundo psiquiatras, há ainda outro fator para explicar o número de assaltos e assassinatos envolvendo carros - a visualização favorável aos criminosos do interior do veículo. "Há um confinamento do motorista e um alvo mais focado para a ação do assaltante", diz o psiquiatra Adriano Resende Lima, do Programa de Atendimento e Pesquisa em Violência, da Escola Paulista de Medicina (Unifesp). "Ele (criminoso) tem uma boa visualização das ações da vítima."

Dessa forma, os especialistas recomendam que motoristas e passageiros vítimas de assalto controlem suas reações. "Quanto mais calma e bem organizada a ação da vítima, menor a possibilidade de reações impulsivas", explica Lima. "Ao agir assim, a vítima reduz reações do agressor, que também está em estado de tensão."

Não reagir, manter as mãos em local visível e avisar o criminoso sobre movimentos são algumas medidas para evitar um desfecho trágico num assalto. "Mas as reações de cada indivíduo são variadas. Depende da história de vida de cada um", diz Lima.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.