11 novas obras por dia atrapalham o trânsito e tiram o sono do paulistano

A cem metros de distância, o barulho já incomoda. De perto, o som de uma britadeira atrapalha a conversa, a leitura, o trabalho e, claro, tira o sono. No dia 26 de outubro, uma quarta-feira, até quem passava de carro com os vidros fechados pelo Largo de Santa Ifigênia, no centro da capital paulista, sofria para falar ao telefone. Eram 22h e mais uma obra começava nas ruas de São Paulo. Na média, são 11 novas intervenções por dia.

ADRIANA FERRAZ, O Estado de S.Paulo

06 Novembro 2011 | 03h02

Só nos nove primeiros meses deste ano, a Prefeitura já autorizou mais de 3 mil obras. A lista soma serviços de ampliação ou modernização das redes de água, esgoto, gás, luz e telefonia e é reflexo, segundo as concessionárias, do aquecimento da economia e do avanço do mercado imobiliário. Se o ritmo for mantido, outras mil intervenções serão realizadas até dezembro, superando em 20% o total de 2009.

O Departamento de Controle de Uso de Vias Públicas (Convias) é o órgão municipal responsável pela emissão dos alvarás dos serviços com data marcada - os reparos emergenciais não precisam de licença e, por isso, não entram na conta. Mas é a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) quem determina o horário e enfrenta o dilema de atrapalhar o trânsito ou perturbar o sono dos moradores.

Para quem tem de conviver com a rotina de obra na frente de casa, a decisão é sempre prejudicial. De manhã, tapumes prejudicam a visão dos motoristas, reduzem o número de vagas de estacionamento e ainda podem esvaziar lojas e restaurantes. "Tem cliente que não para mais nem para tomar café", diz o balconista Reinaldo Oliveira, de 50 anos, que trabalha em uma lanchonete em Moema, bairro da zona sul com intervenções da Sabesp.

Calmantes. À noite, mesmo quando não usam maquinários barulhentos, operários carregam equipamentos, transportam material em caminhões pesados e, não raramente, gritam, perturbando o sono dos vizinhos. "A gente sabe que as obras são importantes porque levam esses serviços todos às casas das pessoas, mas incomodam", diz Luzia Honória da Silva, de 82 anos, moradora da Barra Funda, na zona oeste. Nas duas semanas em que funcionários da Comgás executaram serviços de manutenção em sua calçada, a aposentada abusou dos calmantes para poder dormir.

Na busca por uma noite tranquila, moradores ainda lutam contra o barulho de caminhões pesados - que sofrem restrições para rodar durante o dia e são responsáveis por outro serviço que tira o sono: a retirada de caçambas das ruas. O conjunto de intervenções ainda assusta quem vem de fora. Na recepção do hotel na frente da obra do Largo de Santa Ifigênia, o telefone começa a tocar às 22h. "Hóspedes querem dormir e pedem para eu parar a obra. Mas, infelizmente, não dá", diz Cleber Marcelino, de 28 anos.

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