1ª sessão de cinema do Brasil completa hoje 115 anos

Apesar de historiadores divergirem sobre o endereço exato da exibição, Rio vai instalar placa comemorativa na Rua do Ouvidor

Roberta Pennafort e Felipe Werneck / RIO, O Estado de S.Paulo

08 Julho 2011 | 00h00

Em uma sala alugada do Jornal do Commercio, na Rua do Ouvidor, centro do Rio, ocorreu há exatos 115 anos a primeira sessão de cinema do Brasil. Para marcar a data, a RioFilme anunciou que vai colocar uma placa indicando o local.

"Foi uma iniciativa do belga Henri Paillie, um exibidor itinerante", lembra o pesquisador Hernani Heffner, especialista em restauro de filmes. Paillie mostrou aos cariocas oito filmetes de cerca de um minuto, com interrupções entre eles. Provavelmente haviam sido comprados na França e vistos pela Europa, alguns retratando apenas cenas pitorescas do cotidiano.

As exibições duraram duas semanas, contou ontem Heffner, e ficaram restritas aos cariocas mais abastados. "Paillie cobrava ingresso e não era barato. O cinema era para a elite, não para o povão, uma atividade de luxo. Ele era um personagem obscuro. O que se sabe é o que saiu na imprensa à época."

Segundo o livro Palácios e Poeiras: 100 anos de Cinemas no Rio de Janeiro, de Alice Gonzaga, a sessão ocorreu no número 57 da Rua da Ouvidor. A numeração mudou nesses 115 anos - não é possível saber ao certo em qual das lojas foi.

Hoje popular, a Rua do Ouvidor era sofisticada, a mais importante da então capital do País. Reunia lojas de todos os gêneros, redações de jornais, livrarias e pedestres em suas melhores roupas. Foi a primeira a receber iluminação a gás, em 1860.

O pioneirismo continuou ao abrigar não só a primeira exibição de filme projetado em tela diante de uma plateia - antes só era possível a experiência individual, pelo cinematógrafo inventado por Thomas Edison, em 1888 -, mas também a primeira sala fixa e regular de cinema: o Salão de Novidades Paris, inaugurado em 1897 por Pascoal Segreto, no ano seguinte à sessão celebrada pela placa.

Este empresário italiano radicado no Rio trouxe da França a inovação dos irmãos Lumière um ano após sua projeção inaugural. Antes do Salão, a cidade só tinha acesso às chamadas "vistas" (filmetes) por meio de exibidores ambulantes, como Paillie, que usavam equipamentos de projeção franceses para mostrar a novidade em diferentes espaços, como teatros e cafés - daí a dificuldade de se precisar o endereço da primeira sessão.

Controvérsia. O tempo deixou esmaecidos esses registros. "Tem uma história que as primeiras imagens do Rio foram filmadas pelo irmão do Paschoal, Afonso Segreto, que chegava da Europa. Seria uma tomada da entrada da Baía de Guanabara. Essas imagens não existem mais", diz o professor de Cinema da Universidade Federal Fluminense José Marinho de Oliveira.

"Homenagem faz quem quer, do jeito que quer, mas não há nenhuma confirmação da primeira sessão", diz José Inácio de Melo Souza, autor do livro Imagens do Passado, que fala dos primórdios do cinema no Rio e em São Paulo. "Essa primeira sessão seria a do filme do Segreto, mas nunca se soube ao certo. Eles deveriam colocar a placa falando da abertura do Salão de Novidades, seria mais correto."

A placa está sendo confeccionada e será colocada pela RioFilme e pela Subsecretaria de Patrimônio da Secretaria de Cultura. O presidente da RioFilme, Sérgio Sá Leitão, disse que está a par da controvérsia. "Mas consideramos que há elementos suficientes para assegurar que neste dia, na Rua do Ouvidor, foi exibido um filme. E muito provavelmente foi a primeira vez na cidade e no País. A ideia é assinalar o pioneirismo do Rio e sua vocação precoce para o cinema."

CURIOSIDADES

Primeira sala

Paschoal Segreto criou no Rio, em 1897, o Salão de Novidades Paris.

Primeiro sucesso

Com 800 exibições, foi o média metragem Os Estranguladores (1906). Filmes sobre crimes davam maior audiência.

Dublagem ao vivo

Na virada da década de 1910, as películas eram "cantadas", isto é, com atores dublando-se ao vivo, por trás da tela, com base em imagens já gravadas.

A chegada dos americanos

Em 1911, eles abriram no Rio o Cinema Avenida para exibir exclusivamente filmes da Vitagraph. Com a 1ª Guerra Mundial, a produção europeia se enfraquece e os EUA passam a dominar o mercado mundial.

O primeiro filme sonoro brasileiro

Foi a comédia Acabaram-se os otários (1929), de Luiz de Barros.

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