1 em cada 5 vítimas de acidente de moto usa droga ou álcool

Pesquisa. Dados de levantamento feito pelo Hospital das Clínicas em 326 casos ocorridos entre fevereiro e maio deste ano mostram também que 44% dos acidentados sofreram lesões graves e politraumatismos, e 23% não tinham habilitação para dirigir

Fernanda Bassette, O Estado de S.Paulo

15 de agosto de 2013 | 02h49

Dados de uma pesquisa realizada pelo Instituto de Ortopedia e Traumatologia do Hospital das Clínicas de São Paulo apontam que 1 em cada 5 vítimas de acidente de moto na cidade de São Paulo havia consumido algum tipo de droga ou álcool antes do acidente: 7,1% consumiram álcool e 14,2% usaram alguma droga ilícita - cocaína e maconha são as mais comuns.

Os dados mostram ainda que entre os 7,1% que consumiram álcool antes de dirigir, apenas 1 estava com a dosagem considerada segura de álcool no sangue: menos de 0,6g/l. Todos os outros condutores estavam com doses acima de 0,6g/l - o que é considerado um fator de risco altíssimo para acidentes.

Ao todo, a pesquisa coletou dados de 326 vítimas de acidentes de moto que aconteceram entre os meses de fevereiro e maio deste ano. Os dados se referem a acidentes na zona oeste da cidade - região que engloba as duas Marginais (do Pinheiros e do Tietê), parte do Corredor Norte-Sul, Avenida Rebouças e outras vias de movimento. Sete morreram no hospital e 10 no local do acidente. É justamente nessa região que fica o complexo do HC, referência no atendimento de politraumatizados no trânsito.

Esta foi a primeira vez que os pesquisadores coletaram amostras de saliva dos acidentados e as enviaram para análise em um laboratório nos Estados Unidos, que avaliou a presença de álcool e de mais de 30 tipos de drogas no organismo deles. Também foi a primeira vez que a pesquisa realizou uma perícia técnica no local do acidente (referente a 141 vítimas), para analisar a dinâmica do caso.

"É assustadora a quantidade de álcool entre as vítimas. Também chama a atenção o uso de cocaína como agente estimulante. Isso ajuda a explicar a epidemia de acidentes com motos na cidade", diz a fisiatra Júlia Greve, professora da Faculdade de Medicina da USP e responsável pela pesquisa. "Os condutores confirmavam o uso de álcool ou droga, o que demonstra que eles não veem isso como um fator de risco para acidentes."

Sem habilitação. Ainda segundo a pesquisa, 44% dos acidentados de moto na cidade sofreram lesões graves e politraumatismos, e 23% deles não tinham habilitação para dirigir moto. E, apesar de 90% deles estarem usando capacete, só 17,8% usavam o trio capacete, jaqueta e bota como segurança.

"O fato de 21,3% não terem habilitação é um problema gravíssimo, especialmente considerando o tamanho da frota de motos da cidade. O alto consumo de álcool e drogas também surpreende, pois isso interfere diretamente no sistema nervoso central do condutor, comprometendo as funções cognitivas de atenção e concentração", diz Dirceu Rodrigues Alves Junior, chefe do Departamento de Medicina de Tráfego Ocupacional da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet).

Creso de Franco Peixoto, professor da Fundação Educacional Inaciana (FEI), diz que, em geral, o motociclista dirige mais com prazer do que com segurança, o que o expõe mais ao risco de acidentes. "Eles não acreditam no risco de beber e dirigir e também não têm medo de serem flagrados, já que a fiscalização é precária. O dado sobre uso de drogas é assustador."

Dados da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) mostram que a frota de motos na cidade praticamente dobrou nos últimos sete anos: foi de 490.754, em 2005, para 962.239 em 2012. No mesmo período, o número de acidentes com motos cresceu 35% e a quantidade de motociclistas mortos aumentou 27%. "A moto é um veículo de transporte rápido e barato. O problema é que nem a cidade nem os condutores estão preparados", diz Júlia. /COLABOROU LUCIANO BOTTINI

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