São Paulo a pé

São Paulo a pé

Angélica Arbex

23 de outubro de 2020 | 19h33

Hoje faz 7 meses que as áreas comuns dos condomínios foram efetivamente fechadas para convivência. A alegria de brincar lá embaixo, os encontros na piscina, a malhação na academia, as festas de aniversário deram lugar a um vazio e um silêncio ocioso e cuidado nas áreas comuns. Uma disciplina longa e importante para a manutenção do isolamento social.

Aos poucos muitas coisas nos condomínios foram retomando o seu ritmo. Protocolos de segurança apareceram e com cuidado  e muita responsabilidade os síndicos estão desenhando as novas rotinas. O novo jeito de conviver nos parquinhos, quadras e afins.  E os desafios que virão a seguir, a liberação de salões de festa, churrasqueiras, sequenciais pequenas aglomerações que em algum tempo voltarão a povoar as áreas comuns. Esse movimento de ficar em casa, que fez com que a casa ganhasse múltiplos significados, mudou  de forma definitiva a maneira como convivemos dentro dos condomínios. Minha tese é que a restrição extrema na possibilidade de convivência, despertou um desejo adormecido de formação de novos tecidos comunitários.

Quem aqui, nestes 7 meses, que mora em condomínio,  não fez pelo menos uma compra de um novo fornecedor local que conheceu no grupo do prédio? E foi assim, mudando o seus próprios hábitos de consumo. Eu passei a comprar pão de queijo no balde, frutas e legumes orgânicos e contratei um serviço de feira em domicílio. Uma maravilha, tudo na porta de casa e sem taxa de entrega.  Ainda de quebra conheci uma costureira incrível para reformar roupas a 2 quadras da minha casa. A relação estabelecida com o consumo local e vizinhança é tão forte e potente que gigantes como o facebook estão prototipando iniciativas comunitárias a partir da vizinhança.

Simplificar a vida conhecendo quem mora perto e aumentando uma rede colaborativa de bem viver é um legado dos tempos de isolamento? Pode ser que sim! Trabalhar mais em casa, esta parece ser uma onda corporativa definitiva, abre mais espaço para viver melhor a casa, a rua , o bairro. Caminhadas pela manhã podem substituir o tempo de deslocamento no transporte para o trabalho. Saber que há uma boleira, um professor de francês, uma costureira, um dog walker que você não imaginava que existiam e que podem resolver muito bem a sua vida a pé, deve ser o novo jeito de viver e se relacionar com o seu bairro.

Viver em São Paulo é  abstrato, gigante, indefinido, frio. Dentro de São Paulo existem milhares de microcidades prontas para serem descobertas com pão de queijo quentinho, legumes frescos e uma aula incrível de francês ou pilates. Certamente tem uma São Paulo dessa pra ser descoberta muito perto de você.

 

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