O piloto, o mar e o condomínio

O piloto, o mar e o condomínio

Angélica Arbex

17 Junho 2015 | 09h31

Quando o piloto interrompe o silêncio e avisa “pouso autorizado” respiro fundo. Um pouco pelo alívio de chegar em casa, um tanto pelo medo que sinto do avião. Vejo São Paulo chegando perto de mim.

Quem já pousou em Congonhas sabe, é impressionante. De dia, uma aflição, uma sensação que vamos acabar trombando com uma ou outra antena em cima das torres que passam tão perto que parece, podemos tocar. De noite, um encantamento. O nosso mar aqui não é azul cristalino. O mar de São Paulo é feito de luzes, de janelas, milhares de janelas acesas. Uma em cima da outra, nessa nossa vida vertical.

Os condomínios são a nossa identidade, nosso jeito de viver, “nossa mais perfeita tradução”. E quanta vida em cada janela. Tanta gente, gente que trabalha, que visita, que vive vertical.

Hoje, um em cada três paulistanos mora em condomínio. Se colocarmos na conta as pessoas que passam pelo menos metade do seu dia numa dessas torres, a proporção aumenta. Metade dos paulistanos usa o elevador todos os dias: 6 milhões de pessoas. É muita gente.

E gente diferente, que divide espaço, compartilha interesses e regras. Um caldo com todos os ingredientes pra azedar e cheio de assunto e história pra contar. Tudo isso passa pela minha cabeça nos minutos que antecedem o nosso pouso em Congonhas.

Talvez eu veja cidade desse jeito porque há quase 20 anos vivo vertical. Minha vida é acompanhar a cidade que cresce pra cima, em ritmo acelerado, são 400 novas torres ganhando vida todos os anos. E trabalhar para ajudar a organizar esse jeito de viver.

O piloto avisa, “portas em manual”, chegamos. E como num clique, com a imagem do oceano vertical da nossa cidade fresca ainda na cabeça, penso na minha agenda do dia seguinte.

Crianças que fazem muito barulho e perturbam o casal de aposentados do primeiro andar do condomínio aqui pertinho em Moema; o motoqueiro do 61 que sempre estaciona a moto em cima da faixa e atrapalha a vizinha de vaga que precisa sair apressada para o plantão no Tatuapé; o cachorro fofo que mora na cobertura nos Jardins, e que não gosta de passar o dia sozinho e por isso late o tempo todo atrapalhando o dia de quem gosta e de quem não gosta de cachorro no condomínio; a discussão sobre eficiência hídrica com os engenheiros e síndicos da Zona Norte da cidade…

Pego a mala, entro naquela fila de gente ansiosa pra chegar e penso em como o cotidiano do morar pode ser rico, interessante e diverso. É a vida que não para e que nos pauta o tempo todo. É disso que vamos falar por aqui, do melhor jeito de viver a vida vertical.