O meu dinheiro, o seu dinheiro, o nosso dinheiro

Angélica Arbex

06 Abril 2016 | 11h46

Algumas coisas da vida vertical são muito difíceis de entender. Certamente o maior mistério para mim  é por que os condôminos em geral ligam tão pouco ou quase nada para a prestação de contas de seus condomínios. Note, em geral. Claro que existe gente interessada e participativa, mas definitivamente esta não é a regra. Façamos uma conta: o valor médio do condomínio na cidade de São Paulo é de R$ 698,00. Pelo número aproximado de apartamentos da cidade, estamos falando em R$ 935 milhões/mês ou R$ 11 bilhões em um ano. Isso significa mais que o dobro do orçamento de cidades grandes como Campinas ou Fortaleza, esta, a capital do Nordeste com o maior orçamento.

É muito dinheiro, 160 mil empregos diretos, mais que o dobro entre fornecedores contratados e empregos indiretos e mais importante que tudo isso, o valor do condomínio é uma despesa que representa de 3% a 5% do orçamento familiar. Em alguns casos pode representar mais. O condomínio é uma despesa fixa e recorrente, a contrapartida são serviços de limpeza, segurança, lazer e valorização de patrimônio como nós já falamos por aqui. Então, por que não estamos acostumados a acompanhar como este dinheiro é empregado, olhar detalhadamente para onde ele vai e participar ativamente das decisões sobre as contas e o orçamento?

Parte do valor pago pelo  condomínio é, se empregado corretamente, um investimento. Um investimento para a valorização do m² dos apartamentos do empreendimento. É quase uma conta assim: um condomínio novo com 50 apartamentos, cada um deles com preço médio de venda de R$ 800 mil entrega para ser administrado um patrimônio de R$ 40 milhões. Quanto este patrimônio estará valendo daqui a 5, 10, 50 anos? Vai depender das decisões tomadas e de como os recursos foram empregados. Há aqueles que vão valorizar, e muito, especialmente com a escassez crescente dos terrenos na cidade de São Paulo, e aqueles que não vão valer nada. Quem quer morar em um condomínio com elevadores defasados, que quebram a toda hora, em um prédio com a fachada descascada, a piscina com mobiliário quebrado? A diferença entre um e outro está no planejamento, na execução, na gestão.

Mas eu tenho um palpite! A gente não liga muito pra isso, porque a forma como acompanhamos a prestação de contas do condomínio é coisa do século passado. Letras miúdas, quase ilegíveis, que chegam junto com o boleto, com nomenclatura difícil,  e informações já muito antigas: o boleto de um mês, chega com a prestação de contas de 2 meses atrás. Em tempos de whatsapp, 2 meses pra ver como o orçamento foi empregado? Não dá pra entender….  É assim, porque sempre foi assim.

A gente acabou se acostumando com resolver toda a vida na palma da mão, de pagar uma conta até ver a imagem da última ressonância que fizemos. Com o condomínio também pode ser assim, a transformação começa quando o nível de exigência da gente cresce. Estamos vivendo um tempo novo, onde as palavras transparência, ética, respeito com o dinheiro ganharam outra dimensão e contaminaram positivamente todo mundo. Difícil encontrar alguém alheio ao que acontece no Brasil. Que tal empregar esse olhar dentro da nossa casa, acompanhando o orçamento, as decisões, o planejamento futuro. Toda mudança pode começar aí. Claro que não é só exigir, a contrapartida é participar, doar tempo e esforço para ajudar a construir um novo jeito de olhar para isso. Não, não é só papel do Síndico, ele foi eleito, é nosso representante, presta contas disso e, faz parte de sua função, tomar decisões que muitas vezes mudam a nossa vida e até o nosso patrimônio.

Você pode escolher, continuar reclamando das letras miúdas ou respirar fundo, mergulhar de cabeça e ajudar a criar um novo tempo em seu condomínio.