Jantar ou votar?

Jantar ou votar?

Angélica Arbex

06 de setembro de 2019 | 17h38

Os últimos cinco anos mudaram tudo no nosso jeito de viver. A forma de pedir comida, de se locomover, de trabalhar, de consumir, de dirigir, de falar com a professora da escola dos filhos, de receber exames de laboratório, a gente tem feito tudo de um jeito novo.  A inovação, seja tecnológica ou não, vai mudando a nossa vida sem que a gente se dê muito conta disso e quando olha pra trás, pronto, os velhos hábitos ficaram velhos mesmo.

Os tais 6 d’s das tecnologias exponenciais: digitalização; decepção; disrupção; desmonetização; desmaterialização; e democratização são uma receita maravilhosa pra gente pegar tudo que ainda não mudou e repensar o jeito de fazer. Esse link aqui ajuda a entender melhor.

E o jeito de morar, ou pelo menos, de morar em condomínio ainda não mudou, não em escala fora dos laboratórios de inovação ou das iniciativas (muito boas) das condotechs. Você ouve barulho depois das 22:00 e o que faz? Liga para o porteiro ou para o síndico; Tem um vazamento no teto do seu banheiro, síndico de novo. Acha que dá pra transformar o espaço zen em qualquer outra coisa que deixe o espaço mais vivo e ocupado, mais gente no condomínio pensa igual a você? Não importa,  é quase impossível. Pela lei essa  mudança de destinação de área comum precisa de unanimidade dos condôminos e nem 20% deles comparecem nas assembleias.

É  tudo muito difícil, muito antigo e não dá pra ser mais assim. Você já reparou em como acontecem as assembleias dos condomínios? Primeiro você recebe um edital em casa, com dia e hora que foram marcadas sem a sua participação, e uma lista de temas a serem definidos. Geralmente de noite competindo com o cansaço, o dever de casa com os filhos, o futebol e o jantar. Nesse dia, pessoas que não se conhecem ou não se escolheram se reúnem para votar e decidir por coisas às vezes mais, às vezes menos importantes. Mas de toda forma, são essas coisas que vão construindo o jeito de conviver. Claro que as assembleias são campeãs de cadeiras vazias e as decisões tomadas ali não refletem de verdade,  a vontade real daquela comunidade.

Tem que haver um novo jeito de fazer assembleias. Uma forma que digitaliza, democratiza, desmaterializa, desmonetiza a assembleia de condomínio. E haverá: a Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) aprovou o Projeto de Lei (PL) 548/2019, que permite o uso do voto eletrônico nas assembleias de condomínios que agora passará pelo Senado e depois pela Câmara dos Deputados. O projeto é o pontapé inicial para redesenhar a forma como as decisões nos condomínios são conduzidas. Ele prevê o voto eletrônico como complementar ao presencial toda vez que um número mínimo de condôminos for exigido para uma decisão.

Mas já abre espaço para a regulamentação de um modelo contemporâneo onde o condômino, com todas as informações necessárias para escolher, possa opinar e decidir, em qualquer lugar onde esteja, os assuntos de seu condomínio. Não precisa ser de noite, não precisa ser no salão de festas ou na garagem, não são necessários embates e conflitos, tem um jeito novo de fazer e todo mundo que vive e trabalha com a vida vertical tem a obrigação de entender, testar e criar as condições para que, também no condomínio, as decisões sejam mais democráticas, seja para escolher a cor da pintura da fachada ou para decidir o que fazer com aquele espaço zen que a maioria não sabe nem onde fica. Quem é a favor, levanta a mão.

 

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