Exôdo Pandêmico e Bate Estaca

Exôdo Pandêmico e Bate Estaca

Angélica Arbex

07 de maio de 2021 | 17h54

Esse final de semana, a Vejinha (Veja São Paulo) traz na capa uma matéria sobre a migração dos Paulistanos mais abastados para o campo ou para a praia na pandemia.  Essa matéria vai ao encontro de uma pesquisa, sobre o comportamento da moradia no isolamento, feita pela Lello. Mas, o êxodo pandêmico não aconteceu apenas nas camadas mais altas da população, gente como a gente, a classe média paulistana com a mudança no ritmo de vida,  home office + homeschooling, mudou o jeito de morar.

Sem a rotina do escritório e da escola as crianças e com a obrigação de cumprir isolamento em casa, quem pode escolher a casa ideal para viver na pandemia, escolheu!  Escolheu sair de São Paulo, ir para a praia, para o campo criar novas conexões com a natureza e com a família. Para quem pode, uma válvula de escape para aguentar tempos tão sombrios. Segundo os dados apurados pela Lello, 40% dos síndicos da capital entrevistados afirmaram que o seu condomínio diminuiu consideravelmente o número de moradores na pandemia. E, do outro lado, 53% síndicos do litoral e presidentes das associações de moradores do interior responderam que o número de moradores aumentou muito neste período. Condomínios do litoral, dobraram o número de moradores, mesmo com restrições nas áreas de lazer.

Esse êxodo pandêmico mostra que, numa situação de completa restrição,  a gente vai buscar novas alternativas para viver com mais felicidade e prazer. Quem não pôde mudar de casa, resolveu mudar a casa!

Outro corte da pesquisa mostra um dado que quem vive em condomínio nem precisava de pesquisa pra saber: todo mundo está reformando. Dos 297  síndicos entrevistados,  70%, isso mesmo, 70% afirmaram que há apartamentos em obras em seus condomínios. Elas, as obras, foram também o maior desafio e motivo de conflito entre moradores durante a pandemia até agora. Claro,  a casa virou escritório, escola etc e a casa de cima resolveu trocar o piso, mexer nas paredes, mudar a marcenaria. Não tem como dar certo, né? Barulho, muito barulho! Um bate estaca sem fim e sem muita solução.

Mas mesmo sem fazer a pesquisa é fácil fazer o retrato do jeito de morar na pandemia. É só ter um olhar atento para as reveladoras reuniões digitais que fazemos todos os dias. Sempre vai ter um, ou mais de um com aquele  fundo com piscina e palmeiras iluminadas que não é papel de parede do zoom. Barulho de bicho ou do mar e lá vamos nós gastar uns minutinhos para saber mais da história de quem resolveu sair da cidade com a família e agora não quer mais largar essa vida. Nessa mesma reunião, também vai ter gente se desculpando, fechando o microfone por causa do barulho da obra no andar de cima, ou no de baixo, ou três andares pra cima. Em uma mesma tela, uma invejinha da vista e a cumplicidade de quem também passou ou está passando pelo condomínio em obras. Pode reparar, é infalível!

Sem olhar para todos os resultados horrorosos e para o desastre arrasador  da governança do Brasil no enfrentamento ao Covid-19 fico me perguntando se algum dia a gente vai ter a vida, como ela era antes, de volta…  Por enquanto sigo vendo piscinas e jardins incríveis do outro lado da tela e me irritando muito com a obra do 271 que parece que nunca mais vai acabar!

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