E se nada der certo?

Angélica Arbex

08 de junho de 2017 | 12h30

O casal entra no elevador no meio de um assunto… Lá já estávamos eu e mais uma outra “ouvinte vizinha”. Não, não houve nem o habitual bom dia, tudo bem? Nadinha. Eles continuaram conversando. Enquanto ela arrumava a gravata dele para mais um dia de trabalho, dizia o encorajando:

– “É super normal atrasar o condomínio, é assim mesmo?! Você viu? O pai do Zezinho atrasou também! A gente deixa de pagar um, dois, três meses e depois vê como é que fica. Não vai acontecer nada, super normal.”

O marido meio constrangido, até pela nossa presença, resmungou alguma coisa que não deu bem pra entender. E aí, chegamos na garagem, a porta abriu e eu fiquei sem saber a que conclusão eles chegaram. Quando cheguei no portão, foi impossível não reparar nos carrões (dois) que o casal dirigia (quem nunca?). Ele, um sedã de luxo, ela uma caminhonete do mesmo padrão.

Fiquei o dia todo encafifada com aquele pensamento. Será mesmo que alguém pode achar normal? Pode achar que é assim mesmo? E o pior pode encorajar o outro, a pensar igual? Além de pensar, compartilhar esse pensamento peculiar no elevador. Porque sim, se eles não pagarem, eu, a outra moça, os outros vizinhos, alguém tem que pagar aquela conta. E, tudo bem?

A gente já falou por aqui sobre a inadimplência, como ela preocupa e como acaba com a qualidade e conservação dos condomínios. Mas a questão aqui ficou ainda maior. Será que esse diálogo, real, numa manhã qualquer de maio, levou em conta que o condomínio que ela não paga pode prejudicar a manutenção do elevador que ela usa, os salários dos funcionários que cuidam da segurança e da limpeza do prédio dela, do garagista que abre o portão pra ela todas as manhãs, enfim, de todo funcionamento do dia a dia daquela comunidade? E lá não se tratava de uma dificuldade financeira, aqueles momentos da vida que as pessoas precisam escolher: faço mercado ou pago condomínio? Não, não era nada disso. Era só: “Ah! Normal não pagar, depois a gente vê como é que fica!”

O condomínio é o ambiente social onde primeiro a gente exerce a cidadania. O respeito às regras e ao direito do outro, o exercício difícil da convivência. Quando um pensamento assim torna-se tão normal a ponto de poder ser compartilhado no elevador fica mais fácil entender que está tudo errado mesmo. Entender como essas mesmas  famílias, de classe média, criam jovens que se vestem de gari  ou de porteiro na festa do “se nada der certo”. Como pode fazer sentido sonegar impostos mas comprar carrões, viajar três vezes por ano ao exterior mas não registrar a empregada doméstica. Normal, todo mundo faz…

E se nada der certo depois?  Ah! Aí a gente vê como fica!