E quando eles envelhecem?

E quando eles envelhecem?

Angélica Arbex

30 Junho 2015 | 12h37

Convido você para fazer um passeio a pé pelos bairros de Higienópolis, Perdizes, Jardim Paulista, Cerqueira César ou qualquer região que tenha se verticalizado há mais de 3 décadas. Em poucos passos, olhando pra cima, percebemos a ação do tempo nas construções. E quando eles envelhecem? Estou falando do maior investimento que a grande maioria das pessoas faz, juntando recursos de toda uma vida: a compra de um apartamento pra morar, pra investir, pra garantir renda certa no futuro.

E quando ele envelhecer, o que vai acontecer? Você já reparou como os condomínios e as pessoas são parecidos?  Tem a pele, a fachada que enruga, descasca, mancha, envelhece; tem o recheio, lá os problemas são meio que invisíveis e quando aparecem muitas vezes já se tornaram maiores do que deviam ser: obstruções, entupimentos, sobrecargas.

O jeito como os condomínios envelhecem tem muito a ver com a forma como eles foram cuidados durante toda a sua vida. Assim como as pessoas.  Um olhar atento pelos bairros que primeiro se verticalizaram em São Paulo já dá pistas do efeito do tempo sobre os prédios. Tenho o costume de caminhar muito a pé por aí e nas minhas andanças descubro muito sobre os bairros, sobre a cara da cidade.

Higienópolis e Campo Belo por exemplo, bairros totalmente verticalizados e absolutamente diferentes. Jardins e Vila Leopoldina e tantos outros contrastes que estão aí para serem descobertos por um bom e confortável par de sapatos. Os apartamentos mais antigos que já estão chegando na terceira idade tem um grupo muito grande de admiradores: -“Você viu o tamanho da sala? Não existem mais apartamentos com esse pé direito e os quartos? Tenho a sensação de estar em uma casa”; -“Esse apartamento com uma reforma vai ficar incrível.”

Aqueles com cheiro de tinta fresca também tem seus ferrenhos defensores. Quem resiste ao charme de um almoço bem preparado em uma varanda gourmet e as mais de 50 opções de lazer na área comum? Dá pra viver sem medo da porta pra dentro, tem de tudo lá.

Todos, estes e aqueles sofrem a ação do tempo.  E como fazer para manter valorizado, bem cuidado e atualizado os apartamentos das décadas de 60, 80, dos anos 2000 e dos próximos anos?

Uma saída é fazer com os prédios o que fazemos com as pessoas: atuar na prevenção. Isso mesmo, criar o hábito de fazer o check-up condominial.

Cuidar dos condomínios idosos da cidade é conseguir tomar as medidas necessárias para fazer a atualização elétrica, hidráulica, arquitetônica, de mobiliário e de equipamentos. Isso requer investimento, foco, disciplina e, principalmente, planejamento. Obras planejadas são muito mais baratas que as emergenciais. Reformas faseadas com um plano de ação claro e com etapas predefinidas fazem maravilhas.

Os  espigões mais experientes construídos nas dédacas de 60, 70, 80 tem uma lição importante para ensinar para os grandes condomínios clubes, mistos e compactos que chegaram agora e para os que vem por aí. O dia de começar a previdência e plantar a maturidade é hoje. Todos os condomínios irão envelhecer, o que a gente pode mudar, é a forma como isso vai acontecer.

Veja os cuidados básicos que todo condomínio deve ter:

Saúde financeira: uma poupança permanente para obras preventivas e corretivas;

Fachada: a pintura ou manutenção de revestimento das fachadas deve ser realizada a cada dois anos. A primeira impressão é a que fica, mesmo. E a fachada é o cartão de visita dos condomínios.

Pintura: as áreas comuns, a exemplo da fachada, devem ser pintadas a cada 2 anos.

Mobiliário: o mobiliário deve ser atualizado a cada cinco anos. Áreas comuns, equipamentos de piscina, halls. É necessário ter o cuidado da porta para fora, igual ao que temos dentro de casa. Uma boa ideia é ter uma comissão permanente de decoração e conservação no condomínio. Ela tem a função de olhar atentamente os prejuízos do tempo, alertar quando for a hora de atualizar e trazer alternativas adequadas.

Elevadores: da troca de botoeiras até a modernização completa, este item deve fazer parte da pauta. Há muita tecnologia nova nos elevadores que ajudam a manter o edifício atualizado e também a trazer economia no consumo de energia e na troca de peças.

Retrofit: os condomínios que completam duas décadas ou mais devem trabalhar a ideia do retrofit. Este assunto é tão importante e abrangente que merece um post só pra ele, mas não podemos deixar de falar disso aqui. Retrofit é olhar o edifício por dentro e providenciar todas as adaptações tecnológicas na hidráulica, elétrica, sistemas de ar condicionado, de comunicação e banda larga para o que há de mais moderno e atual. Os benefícios são inúmeros, mas é uma obra longa e cara. Precisa de planejamento.