Casa, o Lugar dos Afetos

Angélica Arbex

21 de setembro de 2020 | 11h38

2020 parece que zerou o contador de tudo que a gente já conhecia sobre a vida contemporânea. A tragédia da pandemia pelo mundo, enquanto escrevo esse texto chegamos a marca de 954.417 mortos, não tem precedentes no nosso tempo. Mas também foi o Covid-19 que está nos ensinando a reinventar nosso jeito de viver, e de conviver.

A gente precisou reaprender a trabalhar, a consumir, a educar nossas crianças, a transformar a casa na nossa célula central de sobrevivência. Eu estudo há muitos anos os movimentos sobre como vivemos nas cidades e em como formamos comunidades, como serão nossas cidades daqui a 5 ou 10 anos. Já descobri que para este, como para muitos outros temas, não há uma resposta específica. Mas temos muitas pistas.

Somos pessoas diferentes durante a nossa vida e, portanto, queremos coisas muito diferentes em cada fase dela. E nós que vivemos nessa época de abundância queremos sempre mais. E mais não quer dizer necessariamente uma casa maior, mais cara, melhor localizada…  O que queremos agora é poder viver mais alinhados com nossos valores e propósitos na vida.

Só que casa é um alto investimento. Comprar casa é muito caro, uma decisão que amarra e impacta praticamente toda a nossa vida produtiva. Fui assim que a gente aprendeu. Meus pais nasceram logo depois do final da segunda guerra mundial e guerras (assim como pandemias) têm o poder de transformar todo o mindset da geração atual e das gerações seguintes. Os meus pais aprenderam com os pais deles e eu aprendi com eles que o mais importante na vida era ter um teto pra chamar de meu. Aconteça o que acontecer você tem a sua casa, desabrigada não fica. Mesmo que isso signifique um casamento de 20 anos ou mais com um carnê.

Mas o mundo foi se reconstruindo e vivemos uma era de grande abundância, assim como aconteceu há dois séculos com a revolução industrial, muitos empregos, muitos recursos, prosperidade uma grande camada de trabalhadores emergindo para o mundo do consumo com melhores salários, mais direitos. A fartura de agora é digital, quando a internet chegou e mudou absolutamente tudo, assim como com a revolução industrial ou as guerras, a vida ganhou um novo e amplo sentido.

Inteligência artificial, algoritmos e todo ecossistema digital desempregam milhares de pessoas ao redor do mundo, mas ao invés de isso anunciar uma crise, o trabalhador do nosso tempo ganhou imensas possibilidades de substituir o trabalho repetitivo, industrial e maçante que o robô aprende e faz com perfeição. Agora a gente pode viver com propósito, realizar sonhos, há um leque enorme de possibilidades para viver. Uma boa conexão com internet e a gente pode tudo, em qualquer lugar do mundo. A gente pode, inclusive, reconstruir o jeito de morar.

Ter a casa própria não é a única maneira de morar com felicidade e segurança. A internet e agora a pandemia aceleraram duas tendências muito fortes sobre como será a história da moradia no século XXI. Já vou falar delas, mas antes quero compartilhar com vocês um aprendizado de muitos anos investigando qual é o significado da casa na vida das pessoas. O mais bonito e real que encontrei foi: a casa é o lugar onde construímos os nossos afetos.

Conviver, compartilhar, formar uma comunidade com a qual se possa contar é um dos principais fatores para se ter uma vida plena e feliz. O meu estudo preferido sobre o tema vem da universidade de Havard que acompanhou por 75 anos (isso mesmo!) 700 pessoas divididas em dois grupos. Aqueles que criaram laços de amizade, formaram comunidades e alimentaram estas amizades durante toda a vida viveram melhor e mais felizes. Para saber mais você pode procurar pelo estudo no Google (havard + felicidade+ comunidade).

E isso diz muito sobre as novas tendências de morar, a gente não nasceu pra ser sozinho, né? O coliving por exemplo é uma tendência já mais consolidada em países europeus e que começa a crescer no Brasil. Mais que uma república de estudantes, o coliving é uma forma de viver e socializar acreditando na economia colaborativa, criando espaços privados (os quartos) e construindo espaços muito legais para compartilhar e conviver.

Prédios inteiros no Brasil estão sendo adaptados para coliving. E ajudando a resolver um outro problema clássico de cidades verticalizadas há mais de 70 anos como São Paulo. O retrofit e o valor do condomínio. Transformando o jeito de usar um apartamento com área privativa grande, é possível construir novos espaços: quartos privados, muita área de compartilhamento com serviços voltados para a socialização e a qualidade de viver. Uma conta impossível de pagar por uma pessoa, fica viável se dividida por 4. E além de tudo aumenta a sensação de felicidade de viver em grandes centros urbanos, com pessoas com as quais você pode contar. Segundo a consultoria internacional Bonard, são 3 mil pessoas em coliving no Brasil e há um potencial para 90 mil.

A gente descobriu que dá pra trabalhar de qualquer lugar, aliás todas as pesquisas que eu leio e todos os amigos que converso confirmam que estão trabalhando muito mais em casa. Ficamos mais produtivos, atentos e desde que haja uma boa conexão e em alguns casos uma boa câmera, não importa se estamos a alguns metros ou milhares de quilômetros do escritório. Os nômades digitais descobriram isso antes do vírus tomar conta do nosso mundo e já viviam assim.

Para eles, casa é a mochila nas costas: redatores, fotógrafos, programadores, produtores de conteúdo e tantos outros. Muitos profissionais que descobriram a alegria de viver pelo mundo e não ter um endereço fixo para trabalhar. Um pouco do que estamos muitos de nós estamos fazendo agora, mas por opção. Muitas cidades no mundo com excelente conexão com internet, custo de vida relativamente baixo e muita história pra contar são destinos certos para eles.  Sem amarras, construindo laços afetivos com vários e diferentes cantos do mundo. Engana-se quem pensa que só os jovens até os 30 ou 35 anos vive em casas menos convencionais.

Há uma vila holandesa pela qual eu sou totalmente apaixonada. Você já ouviu falar de Hogeweyk? Lá vivem pessoas da terceira idade com algum tipo de demência como o Alzheimer. A diferença desse lugar para outros no mundo é que a vila foi construída para que os velhinhos tivessem a sensação de autonomia e vivessem juntos em comunidade. Há supermercado, teatro, praças, jardins. E os enfermeiros que supervisionam a vila são todos os funcionários desses lugares. Eles não usam uniformes brancos, nem nada disso, estão lá para ajudar com que os residentes vivam o mais perto possível de uma vida normal, mas com cuidado e supervisão. Os estudos mostram que eles vivem mais ativos e felizes e precisam de menos remédios do que aqueles que vivem em asilos mais tradicionais. Fora que a vila é muito linda. Dá vontade de viver lá e o coração fica aquecido de ver iniciativas assim.

Não existe um único jeito de morar, porque não existe um único jeito de viver. Mas cabe a gente, desta indústria, entender o espírito do nosso tempo e construir os caminhos que permitam que os mais diferentes tipos de pessoas, consigam fazer da sua casa, do seu jeito de morar, o seu lugar dos afetos.

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