Abraços apertados

Abraços apertados

Angélica Arbex

20 de maio de 2020 | 13h44

 

Não tem como olhar para o copo meio cheio. Tá difícil, desmandos e desentendimentos entre os entes federativos, disputa entre poderes, mortes, infectados e mais mortes. O Brasil chegou ao pico da pandemia? O brasileiro chegou ao pico da tolerância?

O que vem depois, qual o futuro da vida nas grandes cidades. Esta semana meu filho de 8 anos ficou indignado quando me perguntou (e como peguntam nessa idade!) quando ele ia voltar pra escola, e eu disse – eu não sei. Isso me fez refletir quanto a vida da gente, mesmo estando saudáveis e seguros em nossas casas e apartamentos, mesmo assim, quanto a vida da gente mudou. Mas do que a mudança, a marca dessa pandemia é a marca da incerteza. Mais de 270 mil casos no Brasil e 17.971 mortes às 9:25 de 20/05/2020.

Essa incerteza misturada com o medo, a dor e a saudade deixarão marcas profundas no jeito de conviver e viver nos grandes centros urbanos. Nos condomínios tenho me deparado com muitas e variadas questões… Qual o novo protocolo de segurança nos prédios residenciais e nos comerciais? Compras higienizadas na garagem, nova regra para elevadores, para os calçados, muito álcool gel, novas regras para delivery, para receber as visitas, para reformar sua casa; Nos grandes complexos comerciais como identificar visitantes, substituir a biometria, o que exigir de fornecedores de manutenção de ar condicionado, novo método para limpeza e  para o estacionamento e tantas outras preocupações individuais e coletivas.

Trabalhar com a vida vertical neste momento é mergulhar profundamente nestas questões, ouvir infectologistas, fazer pesquisas de melhores práticas e orientar síndicos que estão cada vez mais confusos e perdidos em meio a demandas particulares de condôminos e o pânico coletivo do contágio. Nós todos deste mercado estamos fazendo isso sem parar… Pesquisa, análise, comparação e orientação. Mas cuidar da vida comum tem também um outro lado.

Sou uma grande defensora da queda dos muros simbólicos que separam os condomínios da cidade. Já falei sobre isso aqui e aqui. E agora não consigo deixar pra lá esse conceito. A ideia de que o lado de fora é perigoso e sombrio e passando o portão todos estão seguros e felizes? Essa equação para mim não fecha. Viver na cidade não é e não pode ser assim. Claro que, neste momento, não há possibilidade de discutir essa integração. Todos que podem têm o dever de ficar em casa, fazer o isolamento é respeitar a vida, não há qualquer discussão sobre isso só pra deixar claro.

Mas o que eu quero discutir sim é o depois. A cidade terá um grande desafio, manter-se segura para que a vida em comum possa voltar a acontecer. A única certeza que eu tenho é que quando passar, os encontros reais, os sábados nos parques, os grandes festivais, os almoços de domingo demorados e os abraços apertados vão nos fazer lembrar o sentido real de tudo. Cidades virtuais, videoconferências, delivery de qualquer coisa, protocolos rígidos de biossegurança, fundamentais para evitar uma catástrofe ainda maior, serão aprendizados e lembrança.

A gente vai precisar descobrir juntos como fazer isso. Esse é o nosso único futuro possível para mim. Descobrir o novo jeito de viver e fazer isso juntos, como tem que ser.

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