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Erro de PM vira meme e recebe apoio de 75% dos comentaristas

Bruno Paes Manso

17 Fevereiro 2014 | 11h18

O meme é um conceito que vem do darwinismo e que serve para descrever uma informação que vence a competição entre as demais ao se disseminar na população. No ambiente altamente competitivo das notícias, as características que fazem o meme sobreviver e se propagar podem revelar aspectos interessantes da sociedade onde o fenômeno ocorre. O caso de José Guilherme da Silva, que morreu dentro da viatura acusado por PMs de dar um tiro na cabeça mesmo tendo as mãos algemadas nas costas, noticiado por este blog na sexta feira, se espalhou com a velocidade de um vírus numa epidemia. Passados três dias, mais de 31 mil pessoas haviam compartilhado a notícia em rede social, gerando um debate intenso, quase sempre de péssimo nível, com mais de 1.500 posts.

O assunto de fato mexe com algo mal resolvido entre nós e certamente por isso se tornou um meme altamente debatido. Sim, apesar de eu estar ciente de que pode fazer mal para minha úlcera, achei que era minha obrigação ler os comentários. Não são falas anônimas, mas de pessoas que colocaram suas fotos e perfis para pedir entre outras coisas a truculência policial e para celebrar a morte do suspeito. Claro que existem fanfarrões e narcisistas de toda espécie, mas as falas revelam alguns sintomas evidentes de uma doença social que precisamos diagnosticar. A impressão é de que estamos regredindo e essa falam escancaram nossos conflitos mal resolvidos.

Belas meninas, vaidosas, com suas fotos caprichadas, bradando o “assassinato de bandidos”. Homens que parecem reivindicar o direito de serem predadores na selva de pedra para não virarem a presa. Eles são grosseiros com quem discorda deles e defendem que a polícia pratique crimes, como se assim pudessem acabar com os criminosos – evidente contrassenso. Há até citações de salmos bíblicos para sustentar a justiça privada, trechos descontextualizados em que a morte de ladrões são justificadas nas escrituras.

Isso, aliás, me lembrou o período em que entrevistei matadores contumazes em SP, no fim dos anos 1990. Eles também justificavam a tolerância divina para justificar seus crimes: “se Deus não quiser que ele morra, desvia a bala, faz algo pro sujeito não morrer. Eu não mato ninguém. Quem mata é Deus. Eu só atiro”, um dos matadores me disse. São argumentos que parecem se espalhar conforme aumenta o descontrole do contexto, ajudando assim a justificar a desordem e os desvios de conduta generalizados.

Em uma contabilidade na ponta do lápis, contando os comentários do blog, eu identifiquei que só 15% dos comentaristas condenaram a ação desastrada (para não dizer criminosa) da PM. Enquanto 75% apoiaram a intervenção. O clichê “bandido bom é bandido morto” ou “está com pena, leva para casa” se repete com uma frequência nauseante. A defesa da legitimidade da justiça privada como forma de lidar com a sensação de medo e de desordem é a reivindicação principal. Os que se manifestam parecem acreditar que o “extermínio de bandidos” deixará o mundo mais seguro.

Uma comentarista, espertamente, leva a lógica desse raciocínio ao limite e dá um xeque-mate: “sim, vamos matar bandidos. Você que sonega imposto, você que é nerd e que baixa filmes sem pagar. Vamos matar. Você policial que mata. Merece morrer. Advogado que paga propina para delegado”. De certa forma, ela revela o cerne da discussão: sem instituições confiáveis, sem o resgate do monopólio da força por um Estado legítimo, estamos na selva. É a guerra de todos contra todos. Iremos clamar pela justiça privada que vai nos empurrar para o abismo do autoextermínio.

São sintomas de um descontrole que não vêm de hoje. Persistem há mais de 50 anos. Já respaldaram o esquadrão da morte, nos anos 1960, os justiceiros nos anos 1980, os grupos de extermínio da PM, ao longo de décadas, e hoje legitima também os tribunais do PCC. Nossa incapacidade em criar um sistema de Justiça eficaz, que crie a sensação de paz e ordem, parece ser o ponto mais vulnerável de nossa nascente democracia. Foi péssima a sensação que eu tive ao mergulhar nessa catarse coletiva que invadiu meu blog. Um sentimento sinistro de entrar em contato com o lado negro da alma violenta de nossa sociedade.

JORNALISMO

 

http://www.youtube.com/watch?v=x3CQVT6Z54s

 

Aproveito para colocar o link da conversa que tive na sexta-feira com Thaís Naldoni para o programa Imprensa na TV.  Discutir jornalismo é sempre bom.