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Sentando no divã com os linchadores

Bruno Paes Manso

07 Março 2014 | 13h27

Comecei o blog um mês atrás e por isso acho que cai bem um texto de balanço. Vou sentar no meu próprio divã, seguindo o espírito desse espaço. Já começo, aliás, concluindo que o nome SP no Divã foi uma boa escolha. Tive sérias dúvidas no início até ver como os assuntos tratados provocaram desabafos e comentários tresloucados de uma grande quantidade de pessoas aparentemente em crise. Crise com a cidade, lidando mal com os próprios medos, numa busca estranha por bodes expiatórios. A sensação, às vezes, é de estar no pronto socorro de um hospital psiquiátrico, sendo eu também um paciente, claro.

Eu sabia que falar sobre segurança e direitos humanos iria estimular debates acalorados. Em alguns grandes portais da internet, esses temas são simplesmente fechados à participação do leitor. Outras pessoas fazem mediações restritivas para evitar os descalabros. Eu decidi abrir o chat para ouvir de tudo, ser verbalmente agredido, mas também estimulado, sabendo que fazia parte do jogo. E não me arrependo. Não vejo essas agressões como algo pessoal, mas encaro como informações importantes sobre a tensão na cidade. O objetivo era mesmo olhar para dentro de nossos conflitos.

Mas devo confessar que os excessos de raiva foram maiores do que eu esperava. Não porque eu ache estranho ficar revoltado com ladrões que colocam a arma na nossa cara. Bizarro seria não se indignar.

Só acredito que esse sentimento se transforma em um problema quando a raiva passa a cegar, tornando as pessoas devotas de seu próprio ódio. Como resultado, não conseguem enxergar além de suas próprias emoções e não percebem que as ações passionais e irrefletidas que defendem irão voltar contra si próprios. Todas as evidências do mundo mostram que a justiça privada é um atalho para o caos. Há mais de 40 anos se mata suspeito extraoficialmente. Aonde chegamos? Adianta argumentar?

Em todo o caso, segue abaixo o link para minha tese de doutorado sobre o assunto em que tento demonstrar os ciclos de violência formados em SP ao longo da história. Para quem se interessar, basta baixar o PDF.

Mas talvez eu esteja equivocado e a nossa crise não está tão aguda quanto aparenta. As mensagens rasteiras e mal educadas que defendem a justiça privada são apenas a verborragia de narcisistas barulhentos, que gostam de exibir sua prepotência. Talvez o silêncio dos que defendem a democracia, o estado de direito e reformas políticas para lidar com a situação se explique porque essas pessoas preferem se manifestar em outros fóruns (é o que eu faria). Só que aí eu vejo o levantamento feito pelo Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cibercultura sobre os sites de segurança e tomo um susto com os 300 mil seguidores no Face Book dos Admiradores da Rota (a página está no pé do post). O Faca na Caveira é seguido por mais de 500 mil. Para não falar dos outros sites (ver link abaixo). Não que eu tenha necessariamente algo contra a Rota ou contra o Bope. Mas tenho tudo contra o que essas corporações parecem representar nesses fóruns.

De um lado, há os bandidos, vistos como os grandes bodes-expiatórios da sociedade brasileira. De outros, os policiais são os super-heróis, os justiceiros capazes de extirpar o mal e tornar a sociedade mais segura. O mais grave é que muitos policiais também parecem acreditar nessa ilusão. Nesse caso, acho que vale citar as sábias palavras do coronel da PM, Nilson Giraldi, quando ministra seu treinamento de tiro defensivo em SP. Ele tenta falar diretamente aos policiais que pensam em matar:

“Policial, cuidado! 70% dos integrantes da sociedade não acreditam mais no Estado e na Justiça. Querem que você mate; 60% querem que você pratique tortura contra pessoas suspeitas, desde que não sejam parentes seus. Não se deixe contaminar. Na hora do seu julgamento, você estará sozinho no banco dos réus. E quem o estimulou estará em casa tranquilo. Nem testemunha sua aceitará ser.”

Para finalizar, acredito que o papel do jornalismo é mesmo mergulhar nas nossas vísceras e tentar descrever os conflitos vigentes. Para assim racionalizar sobre eles e superá-los. Tentarei evitar dar minhas opiniões, o que não significa que não irei interpretar os fatos. O objetivo continua sendo juntar as peças do quebra cabeça para que possamos nos conhecer melhor, com todos os nossos podres. Se eu fosse hippie, chamaria isso de jornalismo holístico.

Link para a minha tese

http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8131/tde-12122012-105928/pt-br.php

 

Link para o estudo do Labic

http://www.labic.net/grafo/rede-de-interacoes-de-paginas-policiais-no-facebook/