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Quando PMs arrastaram uma mãe morta pela rua, tiraram o chão que ainda nos mantém em pé

Bruno Paes Manso

20 Março 2014 | 08h50

Acompanhado apenas da mãe, a cena do enterro solitário do jovem Sandro Barbosa do Nascimento, morto aos 22 anos em junho do ano 2000 no Rio de Janeiro, sempre foi uma das que mais me emocionou no documentário Ônibus 174 de José Padilha. A cena puxa na memória as inúmeras histórias de mulheres pobres que cansei de encontrar como jornalista. Nos mais de dez anos de reportagens, formei a convicção de que as mães formam uma instituição política sagrada em São Paulo e no Brasil. Se não fosse por elas, creio que tudo já teria degringolado.

Dona Maria eu conheci em um cemitério do Embu em 2003. Ela trabalhava como cozinheira e me foi apresentada por Marcelinho, ex-traficante de drogas que havia se tornado evangélico depois de sobreviver a doze tiros. Quando a conheci, Dona Maria tinha acabado de perder um filho assassinado. Ela retirou a identidade do garoto de dentro do bolso, que passou a carregar diariamente, como se o documento a mantivesse mais perto dele. Perdi meu filho, mas o Marcelinho me ajudou a evitar que meu outro filho também fosse morto, ela me contou.

Quando o caçula de dona Maria foi morto, seu filho mais velho testemunhou a cena e jurou vingança. Iria assassinar o autor do crime, que morava no mesmo bairro. Em sua sabedoria de mãe, dona Maria sabia que a vingança provocaria novas mortes. Seu filho mais velho, inevitavelmente, acabaria morto também. Foi então que lançou mão de seus argumentos. Prometeu ao filho que Deus converteria o assassino, assim como havia convertido Marcelinho. Deu certo e assim ela evitou novas mortes.

Conheci outras mães como ela, que nunca desistem e nunca esquecem. A mãe de Caíque, sumido há dois anos depois de entrar em uma viatura em Guarulhos, mudou-se para o interior de São Paulo depois que passou a ser ameaçada. Antes, circulou por vários pontos de desovas a procura do corpo do filho. Mas não encontrou. Pensa até hoje em suicídio.

Débora Silva, depois de perder o filho em maio de 2006 em Santos, assassinado por policiais, lutou para provar que os PMs mataram um trabalhador inocente, junto com outras mães que fundaram o Mães de Maio em defesa da memória dos garotos mortos. Tornou-se uma das organizações mais combativas contra a violência policial. Também me lembro do impacto que senti ao ouvir a voz firme da mãe e professora que testemunhou uma execução dentro de um cemitério em Ferraz de Vasconcelos e ligou para o 190 da Polícia. A gravação chegou em minhas mãos em sigilo. Ouvi aquela mulher e desabei.

O policial autor do crime veio na direção dela para pressiona-la a desistir de denunciar ao 190. Mas aquela senhora não se intimidou, convicta de que estava fazendo a coisa certa. Meses depois, no júri popular, o homicida foi inocentado.

Conversei com uma mãe que gastava R$ 300 por mês para enviar comidas, material de limpeza, papel higiênico ao filho preso, já que o fornecido pelo Estado não era suficiente. Lamentavam os erros de seu rebento, que havia cansado de avisar. Mas não o abandonava e não queria que ele tivesse que se submeter a favores do Partido. Por isso tinha que trabalhar dobrado. Outra mãe me contou que viu o filho ser assassinado e depois foi esbofeteada pelo policial. Devia “aprender a não por vagabundo no mundo”. Sim, eu já ouvi isso. Outra mãe levou seu bebê de quatro meses para denunciar abusos policiais em uma audiência pública e depois ouviu de um soldado: “você já viu como é o caixão de um bebê?”

São essas mães que lotam os ônibus e enchem a fila dos presídios, programadas geneticamente para nunca abandonar. A mãe que não desiste de procurar o filho desaparecido inspirou Chico Buarque a compor uma das mais tristes canções brasileiras, em homenagem à eterna busca de Zuzu Angel por seu filho assassinado e jogado na escuridão do fundo do mar durante a Ditadura Militar. Já disse a alguns garotos do hip hop que essa música poderia ser regravada, com outro ritmo e base, porque a tragédia dos desaparecidos continuam a se repetir aos montes na democracia.

Esse amor a toda prova serve também para dissuadir os filhos de entrarem para o crime.  “Não quero fazer a minha mãe sofrer”, foi uma frase que cansei de ouvir de jovens que se negaram a optar pela carreira criminal. Ao mesmo tempo, quando essas mulheres são presas, normalmente para ajudar o filho ou marido no tráfico de drogas, acabam abandonadas à própria sorte. Padecem sozinhas. A frequência das visitas em presídios femininos é mínima. Sozinhas na cela, tenho certeza que pensam em suas famílias. Prontas para perdoar.

Foram as mães que criaram associações para acompanhar o abuso no tratamento dado a menores infratores. Organizaram movimentos contra a carestia nos anos 1980, os clubes das Mães. Participam ativamente de conselhos comunitários, se articulam nas discussões políticas dos bairros, lotam as salas de espera dos hospitais acompanhando parentes. São as empregadas que cuidam de nossos filhos. As mulheres de uniforme que limpam o banheiro da empresa em que trabalhamos. As senhoras que vendem bolo desde a madrugada na porta dos metrôs. Eu as vejo passar aos montes pelas ruas de São Paulo, com seus cabelos arrumados, suas roupas baratas mas delicadas, com as unhas pintadas, brincos para enfeitar, cheirosas. Peço em silêncio que Deus as proteja. Mas não apenas por elas, mas também por mim, por toda a sociedade.

As mães são a rocha onde nos fincamos, nossa terra, nossa mátria, a mais sólida de todas as instituições, que se legitima pelo amor que pode nos oferecer. É sempre imensa e a chance de uma delas ter vivido uma história de coragem que poderia inspirar livros. Claro que eu escrevo tudo isso por um motivo.

Claudia, arrastada no porta mala depois de morrer com um tiro, era mãe de quatro filhos. Ajudava a cuidar de outros quatro sobrinhos. Os policiais que a carregaram talvez não saibam. Creio que não. Mas eles mexeram com um assunto sagrado. Devem ser condenados  e talvez depois aguardem o recurso em liberdade, como é comum acontecer. Mas não pode ser só isso. Se existe Justiça Divina, que eles carreguem nos ombros por toda a eternidade o peso das toneladas e toneladas de sofrimento que causaram.

Abaixo, a mais poderosa de todas as canções do Rappa. Fundo musical para pensarmos sobre o mundo em que vivemos.

 

 

Para aqueles que pediram, segue a música Angélica, de Chico Buarque, em homenagem a Zuzu Angel