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Qual o futuro dos Black Blocs no ano da Copa?

Bruno Paes Manso

11 Fevereiro 2014 | 12h53

Antes de falar sobre os Black Blocs é preciso respirar e contar até dez. Há muita emoção envolvida, a tristeza da família do jornalista morto no protesto, pessoas desabafando de maneira confusa e virulenta, trazendo antigos estereótipos e estigmas para a discussão. Mas quando comecei este blog eu ajoelhei. E agora só me resta rezar. S’ imbora.

Quando fomos atingidos em junho por aquela onda gigante de novidades, quase morremos afogados. Era muita novidade e de antemão se falou muita bobagem. A sociedade, como de costume, reagiu de forma bipolar, vociferando emotivamente conforme a notícia do dia. Hora batia, hora afagava, em comportamentos de manada, como ocorre agora. O que me parece natural.

Abaixada a poeira, contudo, acabamos aprendendo muito sobre manifestações de rua com o Movimento Passe Livre (MPL). Durante as passeatas, aqueles grupos de jovens iconoclastas foram meus professores. Eu, como a absoluta maioria da população, quebrei a cara ao imaginá-los equivocadamente como rebeldes sem causa em busca de adrenalina. E fiquei muito satisfeito em, mais uma vez, ser obrigado a abaixar a cabeça para os fatos e poder testemunhar aquele processo político que levou à redução da tarifa. Fiquei altamente agradecido àquela molecada por poder aprender tanto em tão pouco tempo.

A chamada tática Black Bloc, vale recordar, e esse é o ponto, desde o começo dos protestos, concordemos com o método ou não, teve papel chave no rastro que viria incendiar o Brasil nos dias que viriam. Eu ainda me lembro da surpresa ao cobrir a terceira manifestação das Jornadas de Junho quando vi um grupo de manifestantes subindo a Avenida Brigadeiro Luís Antônio para quebrar deliberadamente as vidraças dos bancos. Antes, alguns mascarados já haviam destruído as janelas de ônibus no Parque D. Pedro II. Achei que eram arruaceiros. Tive o impulso de agarrar o braço de um deles e de dar uma bronca, como se falasse com o filho mal criado.

Nos dias seguintes, comecei a entrevistar alguns manifestantes para tentar compreender aquele comportamento destruidor. Segundo alguns me explicaram, o objetivo era mesmo deixar policiais e autoridades atordoados. Quando a Polícia atacasse, a ordem era reagir. A tática surgia no decorrer da manifestação, de acordo com o clima das ruas. O ataque deveria ser centrado nos patrimônios de grandes corporações, nunca atingir indivíduos.

Foi essa postura desafiadora que levou a Polícia Militar a reagir na quarta passeata. A bater indiscriminadamente em manifestantes e jornalistas diante das câmeras. A repetição dessas imagens em horário nobre acabou sendo decisiva para levar as multidões para as ruas. Em suma, sem entrar no mérito da tática Black Block em si, o fato é que a estratégia foi fundamental para as Jornadas de Junho terem sido o que foram.

Em um segundo momento, no entanto, com a chegada de julho e com os protestos das Copas das Confederações, um segunda geração de Black Blocs começou a encher as passeatas. Até por causa do sucesso das táticas de depredação do patrimônio alcançado no mês anterior. Eram jovens insatisfeitos, sem uma causa específica e concreta, como a redução dos R$ 20 centavos, embalados com as transformações que haviam sido sujeitos e testemunhado.

Os encontros e protestos passaram a ser mais dispersos, organizados pela rede, sem lideranças. A depredação parecia ter virado acima de tudo um desabafo, uma catarse, a manifestação de uma raiva acumulada. O movimento deixava de ter uma demanda clara. A tática Black Bloc era usada para aloprar eventos esportivos, protestos em defesa de índios, contra uso de animais em experimentos químicos, greve de professores etc.

Conforme as ações se repetiam, a tática foi se desgastando e as cenas de vandalismo saturaram a população. Perdeu o charme e o sentido. Não parecia mais fazer surtir qualquer efeito, a não ser a própria violência. A morte trágica do jornalista da Bandeirantes talvez tenha sido a gota d’água. Diante disso, qual deve ser o futuro dos Black Blocs? Creio que todas as partes devem repensar suas ações a partir desse trágico divisor de águas.

Claro que eu não prevejo o futuro. Jornalista que prevê o futuro é cascateiro. Mas pode-se discutir perspectivas políticas a partir dos fatos passados. Em cima do que ocorreu, creio que duas coisas devem estar na pauta dos debates:

1) Os protestos contra a Copa são altamente provocadores. Não me lembro de uma pauta tão ousada e criativa. Acusam os políticos de todos os partidos, assim como contestam o caminho seguido pela democracia brasileira. Talvez as manifestações contra a Copa continuem justamente por simbolizarem a insatisfação dessa geração. Sinalizam um basta ao circo dos políticos – veja o caso do senador canalha que quer surfar com a morte do cinegrafista ao aprovar uma lei antiterrorismo. Um manifestante me disse no ano passado que os protestos contra a Copa buscam mudar a imagem do Brasil no consciente e no inconsciente coletivo mundial. O “Não vai ter Copa”, portanto, não parece ser o cerne do problema.

2) Mas sim a estratégia para levar esse debate para as ruas. A tática Black Bloc visivelmente se desgastou. Até mesmo entre os próprios manifestantes. A violência, como era de se esperar, fugiu ao controle. Passa a mensagem de indisposição para o diálogo, autoritarismo, que acaba jogando contra os próprios ideais daqueles que estão nas ruas. A tática da depredação não funciona mais como antes. Parece evidente que é preciso repensá-las. Existem táticas pacifistas (as chamadas White Blocs), as mais bem sucedidas no passado, como nas lutas pelos direitos civis no Estados Unidos. As manifestações festivas como a Marcha da Maconha e a Parada Gay ou Pink Blocs (com seus protestos mais lúdicos) também conseguem passar o recado. As ruas parecem que perderam o frescor de junho. Talvez seja o momento de inovar. De novo.

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