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Por que os roubos crescem em SP? O homicídio praticado pela PM em março ajuda a entender

Bruno Paes Manso

26 Março 2014 | 17h17

Era quinta-feira, dia 6 de março, quando Luan, de 16 anos, acordou na casa da avó, em São Mateus, na zona leste de São Paulo. Já era quase hora do almoço e ele foi direto para o bar, sem dar muita satisfação. Sentou-se na calçada e recebeu uma ligação no celular. Era um amigo, que o chamava para juntos realizarem um roubo de carga com outros dois colegas.

Os quatro seguiram dentro de um Corsa verde e atacaram um caminhão Mercedes, vindo de Pernambuco. Armados, dois renderam o motorista, ordenando que ele puxasse o freio de mão. Piloto e copiloto foram levados para dentro do Corsa, onde ficariam em companhia dos outros dois assaltantes. Seriam liberados depois que o caminhão estivesse fora do alcance do rastreador.

Enquanto Luan e o amigo dirigiam o caminhão em direção ao Rodoanel, contudo, foram vistos por policiais militares, que perseguiram os ladrões. Percebendo que não conseguiriam escapar, Luan e o amigo pararam o caminhão antes de serem alcançados e saíram correndo a pé. Luan foi para o mercadinho do pai, na Aevnida Somos Todos Iguais. Uma testemunha deu a dica para o policial, que correu com mais cinco colegas para pegarem o garoto no mercadinho.

Até aqui, tudo corria bem e poderia se encerrar como um caso bem sucedido de ação policial. Mas não. Estamos falando das forças de segurança pública de São Paulo. Nesse  momento é bom abrir um parêntese. Não devemos nunca subestimar a capacidade desses agentes de tomarem decisões erradas.

No mundo ideal, a prisão do ladrão de caminhão seria estratégica para as investigações. Depois que fosse preso, ele poderia ser interrogado para apontar parceiros, receptadores, financiadores e até mesmo dar o nome de policiais que fizessem parte da quadrilha. Escutas telefônicas poderiam ser pedidas na Justiça. Novos nomes apareceriam, assim como conexões inesperadas. Os cruzamentos seriam feitos. Em questão de meses, a rede de distribuição e receptação de mercadorias roubadas, que demanda milhares de assaltos nas ruas, poderia ser desmontada.

Trabalhando assim, com pessoal articulado, agindo de forma inteligente, a polícia reduziria as taxas de roubo. É assim que funciona. Assistam seriados criminais norte-americanos*. Vejam que não estou inventando. O extermínio do suspeito, pelo contrário, algo tão brasileiro, serviria apenas para saciar o desejo de sangue de policiais e cidadãos com nostalgia dos tempos selvagens da pré-história. Mas ok. Podem me xingar. Escrevam seus comentários. Digam que eu defendo bandidos e blá, blá, blá. Enquanto isso, com a violência policial que vocês aplaudem, os roubos não param de crescer. Em fevereiro, na capital, o crescimento das taxas de roubo foi de 47%. Pelo nono mês seguido. Fecha parêntese e voltemos à perseguição.

O pai de Luan, dono do mercado, e uma funcionária estavam na cena do crime. São eles que narraram o fato descrito em documento da Ouvidoria de Polícia. Dentro do mercado, Luan levantou a camisa e gritou “estou desarmado”, correndo para o fundo. Os policiais deram um tiro em sua direção. Em seguida, pai e funcionária foram expulsos do mercado e as portas de ferro foram abaixadas. Mais dois tiros. Segundo testemunhas, os policiais ainda esperaram 40 minutos antes de socorrerem, eles próprios, o jovem para o Pronto Socorro.  Luan morreu com três tiros.

No Boletim de Ocorrência, os policiais afirmaram que revidaram a um disparo dado por Luan. Um revólver 38, com numeração raspada, foi apresentado na delegacia.

A população se revoltou no dia 8 de março. Bloquearam uma grande Avenida da zona leste, colocaram fogo em pneus, imagens que apareceram à noite na televisão. Pelas notícias, foi impossível saber de todos os capítulos daquela novela real. Que não vai parar de se repetir até que encaremos de vez a necessidade de repensarmos o modelo policial que prova a cada dia que está esgotado e que demanda reformas urgentes.

* Ok. Fui massacrado pela frase sobre os seriados criminais norte-americanos e por isso não vou tirá-la. Algumas críticas foram bem-humoradas. Mas acreditem. Filmes como Law & Order, CSI e Breaking Bad, por exemplo, para quem não acompanha a polícia no dia a dia, são didáticos e ajudam a explicar como funciona uma investigação policial. Ah, claro, e depois assistam Polícia 24 horas, na TV brasileira, o fino da bossa, programa que deve ser o preferido de muitos comentaristas.