Pelo fim da pena de morte aos adolescentes. O caso Rio Pequeno
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Pelo fim da pena de morte aos adolescentes. O caso Rio Pequeno

Bruno Paes Manso

17 de outubro de 2014 | 11h08

Os bons policiais da Rota deveriam se enojar de seus supostos admiradores. Afinal, só me resta crer que a maioria da corporação militar repudia as indecências que saem publicadas no blog Admiradores da Rota + 18. Há algo de doentio numa página em que os editores alertam a seu público, como zelosos samaritanos, para que as fotos de corpos com perfurações de tiros são impróprias para menores de 18 anos. Detalhe perverso: muitos dos executados e mortos são adolescentes de São Paulo.

Eu preferia não ter que dar espaço a esse tipo de publicação que faz apologia ao crime. Mas um caso estarrecedor ocorreu no dia 6 de setembro, nos arredores da Favela São Remo, no Rio Pequeno, perto da USP. A Defensoria Pública assumiu a ocorrência para que não caia no esquecimento e na impunidade. É necessário publicá-la. Naquela noite, quatro pessoas morreram. Três delas tinham menos de 18 anos. Os adolescentes estavam num automóvel. Luan e Paulo, no banco dianteiro.

No boletim de ocorrência, os cinco policiais que participaram da perseguição disseram que os quatro garotos dispararam contra eles. Os jovens estavam em um corsa preto roubado. Seria mais um caso mal investigado de suposta resistência seguida de morte, se não fossem os desdobramentos do episódio.

Logo depois da chacina, as fotos dos corpos dos adolescentes foram enviadas por WhatsApp para parentes e amigos deles. Irmãos e mães das vítimas mortas souberam do massacre pelas redes sociais, testemunhando a imagens de seus corpos. As fotos também foram publicadas no blog Admiradores da Rota, página com mais de 150 mil visualizações, seguidas de um texto cruel: “Força Tática do 16º BPM em acompanhamento de um veículo produto de roubo troca tiro com três marginais que o ocupavam. O resultado está na foto. Os três vermes agora a pouco deitaram no mármore gelado do IML. Vagabundos perigosos. Parabéns aos policiais envolvidos na ocorrência”.

Se a corrida presidencial trouxe para a ordem do dia o debate sobre a redução da maioridade penal, pouco se tem falado sobre a exposição dos jovens à violência e sobre as execuções praticadas contra adolescentes em São Paulo e no Brasil. O “mito do adolescente violento” transforma o jovem, negro e morador de periferia em uma espécie de bode expiatório da sociedade. Poucos estigmas no mundo são tão mortais.

A Defensoria Pública assumiu o caso. Familiares contaram que policiais continuam rondando a vizinhança fazendo ameaças aos moradores. “Quatro já morreram e vão morrer muito mais”, eles dizem.

As fotos enviadas no WhatsApp causaram indignação entre os familiares das vítimas, que duvidaram da versão dos policiais. Um dos mortos, por exemplo, recebeu um “colar de tiros” sob o pescoço e teve os dentes quebrados. “Como os garotos ficariam feridos desse jeito em uma troca de tiros?”, questionou aos defensores um dos familiares. Nenhum policial envolvido na suposta perseguição ficou ferido.

Além disso, as fotos divulgadas nas redes sociais foram tiradas instantes depois da ocorrência. Os jovens ainda estavam dentro do carro, baleados. Naquele momento, afinal, quem mais teria acesso ao local do crime além dos policiais militares, que guardavam a cena para a chegada do socorro? Não estou acusando sem provas. Mas não sou hipócrita nem idiota. Os policiais também tiveram acesso aos celulares das vítimas. Se houvesse interesse das autoridades em resolver o caso, por que policiais estariam se sentido à vontade para ameaçar a população local? O que esperar de uma instituição que tolera esse tipo de comportamento?

O comando geral da PM vem prometendo coibir e punir policiais envolvidos com a divulgação de violência nas ocorrências. A quantidade de fotos e vídeos nos blogs policiais mostram que a ameaça não é levada a sério. Nenhum policial responsável por essas indecências que destroem a credibilidade da corporação foi punido.

A violência contra os jovens é um sério problema no Brasil. Conforme mostra o Mapa da Violência, o País fica em quarto lugar entre os países mais violentos para criança e adolescente (de 0 a 19 anos). Entre 1981 e 2010, morreram assassinadas 176 mil crianças e adolescentes. A taxa de jovens de 17 anos assassinados em 2010 foi de 52 por 100 mil habitantes, mais do que o dobro da média nacional.

As crianças e adolescentes são vítimas da violência brasileira. De forma bizarra, nas políticas públicas, vêm sendo apontados como predadores a serem trancados e abatidos.

Segundo nota da Secretaria de Segurança Pública, o caso envolvendo os quatro jovens está sendo investigado pela Polícia Civil e também por um inquérito policial militar (IPM). Em relação ao blog, conforme o comunicado, não cabe à Polícia Militar ou ao seu Comandante Geral proibi-lo.

PS: Abaixo seguem algumas das fortes imagens publicadas no WhatsApp. A primeira traz o colar de tiros. As outras duas mostram as fotos dos jovens abatidos dentro dos carros.

 

 

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