Para que os brasileiros matem menos, não vote nos políticos financiados por armas
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Para que os brasileiros matem menos, não vote nos políticos financiados por armas

Bruno Paes Manso

03 de outubro de 2014 | 12h32

Uma pistola 380 havia sido comprada por uma família em São Paulo para garantir a segurança de sua casa. Foi roubada por assaltantes. O proprietário, é claro, não teve tempo de reagir e levaram sua arma. No ano de 2005, em uma reportagem para o Estadão, acompanhei o caminho que a pistola havia percorrido depois do assalto. Antes de ser apreendida pela polícia, foi usada para matar mais três pessoas em seis assaltos.

Primeira conclusão: Mais armas em circulação produzem assaltos mais violentos e abastecem o crime.

O Estatuto do Desarmamento foi aprovado em 2003 e entrou em vigor no ano seguinte. Em São Paulo, leis mais duras que tornaram o porte de arma um crime inafiançável estiveram associadas a estratégias inteligentes da polícia. Desde o final dos anos 1990, para reduzir os homicídios, blitze da PM priorizaram o recolhimento de armas frias em lugares com maior número de assassinatos – os chamados hot spots. Essa medida ajudou a mudar o hábito de pessoas que saíam armadas nas ruas.

No auge dos assassinatos em São Paulo, cheguei a entrevistar homicidas confessos que me contaram que só andavam na rua com a camisa para fora da calça. Isso porque, mesmo quando eles não portavam armas, precisavam dar a impressão de que os equipamentos estavam na cinta. O ambiente era de alta tensão. Entreveros fatais e escolhas precipitadas provocavam homicídios banais, ciclos de vinganças e rixas que causavam dezenas de mortes.

Armas para defesa se tornavam instrumentos de ataque. Estudos como o do economista Daniel Cerqueira já têm mostrado que a política de recolhimento de armas frias esteve fortemente associada a drástica queda dos homicídios em São Paulo. O receio de ser pego com arma fria pela PM mudou o comportamento e diminuiu a violência dos conflitos.

Segunda conclusão: menos armas nas ruas, menos assassinatos.

Os ganhos com a restrição ao porte e à circulação de armas são concretos, como demonstra a queda de mais de 80%dos homicídios na capital paulista desde os anos 2000. Não se trata mais de um debate abstrato. A população sabe disso. Pesquisa da ACT (Aliança contra o Tabagismo) realizada pelo Datafolha revela que a indústria que causa mais repulsa na população é a de armas. 92% não votariam em determinados candidatos se soubessem que esses recebem da indústria de armas, contra 87% de indústria de bebida e cigarro, por exemplo.

Só que ainda existe um lobby forte da indústria nacional de armas e munições que financia a eleição de deputados e senadores no Congresso. Eles apelam para o medo para vender a ilusão de que a arma pode deixar o proprietário mais seguro. A eficiência do lobby é medida pela grande quantidade de projetos que existe hoje no Congresso com o objetivo de flexibilizar o Estatuto do Desarmamento.

Segundo levantamentos do Instituto Sou da Paz no Tribunal Superior Eleitoral, em 2006, 17 deputados e senadores foram eleitos com a ajuda de R$ 1,3 milhão vindos do setor de armas de fogo. Quatro anos depois, o total de deputados e senadores eleitos quase dobrou, chegando a 32 congressistas que receberam R$ 1,5 milhão.

O financiamento continuou nestas eleições. Um levantamento prévio feito pelo Instituo Sou da Paz identificou que nas atuais eleições a indústria de armas e munição já contribuiu com R$ 445 mil. O candidato ao governo pelo PMDB, Paulo Skaf, que é apoiado pelo ex-governador Luiz Antônio Fleury Filho, é por enquanto o político que mais recebeu verbas do setor: R$ 100 mil. O grosso do dinheiro, no entanto, deve começar a aparecer somente depois das eleições.

Entre os que foram financiados pelo setor, o deputado Guilherme Campos infringiu o regulamento da câmara por relatar projeto da indústria que o financia. Há projetos que legalizam o porte civil (hoje proibido), dispensam a renovação do registro de posse da arma (algo temerário, pois neste procedimento garante-se que as pessoas renovem os testes técnicos, psicológicos, atestados de antecedentes, etc), libera a compra de até nove armas por cidadão e até 5.400 munições (50 por arma /  mês), além de praticamente inviabilizar a realização da campanha de entrega voluntária de armas.

É por esses motivos que o eleitor deve buscar saber a relação de seu candidato com as empresas que o financiam. Retrocessos importantes podem estar em jogo. Abaixo, lista dos candidatos que este ano receberam dinheiro do setor de armas. Mais informações, no site do Instituto Sou da Paz.

Tudo o que sabemos sobre:

ArmasEleiçõesestatuto do desarmamento

publicidade

publicidade

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.