O que os bastidores das crises de segurança em SP dizem sobre Alckmin e Skaf
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O que os bastidores das crises de segurança em SP dizem sobre Alckmin e Skaf

Bruno Paes Manso

26 Setembro 2014 | 09h53

Geraldo Alckmin X Paulo Skaf. Qual o programa deles para a segurança? Não. O tema deste post não são as promessas vazias feitas por marqueteiros. Chega uma hora que cansa. O foco é o passado das duas candidaturas ao Governo de São Paulo e suas peculiaridades na área da segurança.

Comecemos pelos fatos mais conhecidos. O principal articulador do tema na candidatura Paulo Skaf foi o homem forte da política de segurança pública dos tucanos entre 2006 e 2012. Antônio Ferreira Pinto entrou para o primeiro escalão do governo assumindo a Secretaria de Administração Penitenciária logo depois dos ataques do Primeiro Comando da Capital, em 2006. Três anos depois, em 2009, ele tornou-se Secretário de Segurança no governo de José Serra e foi mantido no cargo por Geraldo Alckmin até final de 2012.

Ninguém acha estranho que o principal mentor da pasta de segurança tucana pós-ataques do PCC tenha embarcado na chapa de oposição? Pouco mais de um ano depois de ser posto para fora do barco dos tucanos? Por que Ferreira é tão crítico ao governo que pertenceu, no qual atuou como linha de frente e foi peça chave?

Eu acho esquisito. Mas vamos desenrolar o fio da meada, juntando as peças do quebra-cabeça dessa história.

Capítulos fundamentais da novela começaram em 2005, antes mesmo dos ataques do PCC. Em março de 2005, Rodrigo, enteado de Marcola, líder da facção, foi sequestrado por policiais civis de Suzano, na Grande São Paulo. Rodrigo só foi solto depois que Marcola pagou o resgate de R$ 300 mil. O chefe do PCC ficou indignado com o achaque.  “Não vai ficar barato“, disse Marcola aos policiais no Departamento Especial de Investigações Criminais (DEIC). 

A história só foi descoberta em 2008. As informações constaram em inquérito e o sequestro foi apontado como uma das principais motivações dos ataques do PCC no ano seguinte. Nessa época, em 2008, a Secretaria de Administração Penitenciária (SAP), junto com promotores, vinha fazendo escutas nos presídios para obter informações sobre o PCC. Além da história do sequestro, descobriram-se planos de atentados contra autoridades do governo e ligação de outros policiais civis com a facção.

Em 2009, quando Ferreira Pinto deixou a SAP e assumiu a Secretaria de Segurança no governo Serra, começou a dar as cartas retirando diversos policiais civis de seus postos. Deslocou a corregedoria da Polícia Civil (encarregada das investigações internas) para o seu gabinete e iniciou uma grande reforma nas delegacias.

Para enfrentar a facção, a Rota assumiria o controle das principais ações, sob o comando do coronel Paulo Telhada, que tinha mais de 30 casos de resistência seguida de morte no currículo. Em 2012, Telhada seria sucedido pelo coronel Salvador Madia, que um ano depois foi condenado a 624 anos por ter participado do Massacre do Carandiru.

Essa cartada se revelaria desastrosa e causaria a queda do homem forte da segurança tucana. Os comandantes da Rota lançaram mão de iniciativas que causaram uma série de mortes em 2012. Só três dos maiores episódios envolvendo a Rota provocaram a morte de 18 suspeitos. “Muito bem, os bandidos mereciam!”, vão clamar alguns leitores. Só que a situação começou a fugir ao controle das autoridades.

Houve resposta do crime organizado, que ordenou a morte de dois policiais para cada morto da facção. E uma batalha teve início no estado de São Paulo ao longo de 2012. Suspeita de grupo de extermínio, execuções covardes de uma centena de policiais, chacinas de jovens nas periferias, revolta da população. Os conflitos envolvendo a PM e a facção fizeram a tensão aumentar e os homicídios crescerem 34% na capital, depois de onze anos de quedas consecutivas.

Ferreira Pinto achou que estava domando o monstro. Mas foi engolido por ele. A truculência, mais uma vez, mostrou-se um remédio ineficaz. A demissão veio em novembro de 2012.

E depois? Por que o ex-secretário continuou bravo? Por que se aliou à oposição? Em conversas com apoiadores da candidatura, foram relatadas queixas de que as mudanças implementadas por ele ao longo de seis anos não se concretizaram e a situação voltou ao estágio inicial. Alguns policiais vilões voltaram a dar as cartas, na visão deste grupo.

Mas na gestão que o sucedeu as justificativas para as mudanças também são relevantes. O secretário Fernando Grella, que entrou no lugar de Ferreira, tentou segurar a truculência policial para controlar o crescimento dos homicídios. A proibição de socorro por parte da PM foi uma dessas iniciativas – já que havia fortes suspeitas de que durante o socorro ocorressem as execuções. No começo deu certo. Hoje a violência policial voltou a crescer.

Qual gestão tinha razão? A de Grella, ao tentar coibir a matança, ou a de Ferreira, na luta contra a corrupção? Ou será que as duas estão erradas e o sistema precisa de reformas urgentes? Fico com a última opção.

O mais incrível é que esses antagonismos aconteceram na gestão do mesmo governador.  A impressão é que, para Alckmin, o assunto não lhe diz respeito. É como se ele flutuasse sobre esses “pequenos conflitos” dos seus subordinados. Conflitos que geram crises e centenas de mortes. Como se as decisões da segurança fossem técnicas e não políticas. Pobre eleitor. No dia da eleição, diante da péssima qualidade do debate sobre segurança pública na campanha, uma frase me vem à cabeça: “Se correr o bicho pega. Se ficar, o bicho come”.
PS: Na quinta-feira, durante uma cerimônia na Rota, o ex-secretário Ferreira Pinto ofendeu o atual Fernando Grella na fila dos cumprimentos (quando eu escrevi, ainda não sabia do fato). Segue o vídeo gravado pela TV Folha.