O sobrenatural e o suicídio dos índios do Alto Rio Negro e Guarani Kayowá
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O sobrenatural e o suicídio dos índios do Alto Rio Negro e Guarani Kayowá

Bruno Paes Manso

17 Julho 2014 | 11h24

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Com Felipe Nassar

Novos dados foram apresentados hoje pelo Conselho Indigenista Missionário sobre a violência que atinge os povos indígenas do Brasil. O suicídio, novamente, é um dos destaques negativos do balanço do ano passado. Segundo dados da Secretaria Especial de Saúde Indígena, no estado do Mato Grosso do Sul houve 73 casos em 2013, o pior resultado em 28 anos. Dos 73 indígenas que se mataram, 72 eram do povo Guarani-Kaiowá. De 2000 a 2013, foram 684 ocorrências, total quase três vezes maior que o da década anterior (entre 1986 e 1997, morreram 244 pessoas).

Na semana passada, publiquei neste blog notícia sobre o tema. Partia do Mapa da Violência 2014, que colocava São Gabriel da Cachoeira no primeiro lugar do ranking de suicídios entre os mais de 5 mil municípios brasileiros. Localizada no noroeste do Amazonas, São Gabriel é a cidade dos índios, entrecortada pelo Rio Negro, com 23 etnias espalhadas por mais de 750 povoados/aldeias.

Segundo os dados do Ministério da Saúde, a taxa de suicídio em São Gabriel é de 50 por 100 mil habitantes. O total é dez vezes maior que a média nacional e quase o dobro de países como Coreia e Lituânia, os dois campeões mundiais em suicídios, com média de 30 por 100 mil. Como mostram os dados da dinâmica vigente entre os Guarani-Kaiowá do Mato Grosso do Sul, não se trata de um fenômeno isolado.

Eu estive em São Gabriel da Cachoeira em 1998. Queria voltar agora para saber mais sobre o fenômeno. O assunto do suicídio indígena é um tema ao mesmo tempo atual e perturbador. Mas não havia como viajar. Para buscar respostas, tive que apelar para o celular e pesquisar em algumas fontes bem informadas.

Eu estava cético de que seria capaz de absorver informações sobre a selva e as aldeias indígenas via satélite. Liguei, mesmo assim, para lideranças indígenas. Não sabia o que esperar, mas o resultado foi excelente. Porque ouvi explicações sinceras e que sobreviveram a séculos de colonização cultural.

Maximiliano Correa, índio tukano nascido na comunidade Ananás de São Gabriel, tem mais de 30 anos no movimento indígena do Rio Negro. Hoje é coordenador das Organizações Indígenas do Amazônia. O telefone começa a chamar. Ele atende do outro lado e a conversa se inicia protocolar.

– Alô, seu Maximiliano, quem fala é o Bruno, sou pesquisador e jornalista. Queria falar sobre o caso de suicídios em São Gabriel.

– Olá. Acho bom você falar com outras lideranças do Rio Negro, que devem ser prestigiadas e conhecem bem o tema.

O diálogo não fluía, estava muito formal. Até que começamos a jogar papo fora. Antes de eu desligar, ele me deu uma colher de chá:

– Vou falar minha visão sobre o caso. O problema é sobrenatural.

Existem momentos mágicos na profissão. Um deles é quando o entrevistado sente confiança e se revela transparente ao interlocutor. Maximiliano seguiu falando sobre os suicídios:

– Como assim sobrenatural, seu Max?

– Vou contar o que ocorreu em 2005. Tinha muito jovem se matando. Eu estava descendo o rio. Naquela noite o tempo tinha fechado e decidimos parar o barco num povoado a seis horas do centro de São Gabriel. Eram 7 horas da noite. O lugar tinha um quintal grande, com mulheres e crianças brincando. Eu estava com minha filha que tinha 11 anos na época. Ela de repente caiu no chão. Quando levantou, disse que tinha visto um vulto preto, de alguém que ela não soube reconhecer. Depois, ela sonhou por semanas com esse vulto. Nos sonhos, ele disse para ela: ‘não vou te levar porque você ainda é criança. Vou partir de São Gabriel em 40 dias’. Quando o prazo venceu, as mortes pararam na cidade. Ainda deixou um bilhete na porta. Sou Satanás… Ou melhor, Satanás não, ele disse diabo.

O famigerado vulto negro, que anda flutuando e vestindo um capuz, foi uma personagem recorrente nas explicações sobre casos de suicídios em São Gabriel e na vizinha Santa Isabel do Rio Negro entre os anos 2000 e 2010, quando o Ministério Público Federal abriu um procedimento administrativo a pedido da Fundação Estadual dos Povos Indígenas para investigar o fenômeno. O processo resultou em uma investigação documentada em 78 páginas, a que este blog teve acesso, onde foram entrevistados familiares de mortos e sobreviventes de tentativas de suicídio.

A preocupação com os suicídios na região cresceu entre 2005 e 2006, quando São Gabriel da Cachoeira passou por um momento delicado. Houve 13 suicídios e 16 tentativas, quase todas registradas entre adolescentes da Escola Estadual Irmã Inês Penha. Meses antes, o filho do prefeito, Quinzinho, morreu em um acidente. Ele era bastante popular: andava de skate, tocava em uma banda de música e caiu da moto durante um racha. A comoção na cidade foi grande. Segundo o MPF apurou, depois do evento, iniciaram-se visitas e rituais em cemitérios por parte dos amigos do garoto. Dois jovens da banda se mataram. Quinzinho aparecia em sonhos e dizia que estava bem.

O ritual de visitas ao cemitério era organizado por alunos da Escola Maria Inês Penha. Um professor liderava o grupo e chegou a ser indiciado pela polícia. Fugiu para não ser preso. Meninas de 12 a 16 anos passaram a se matar. A história do vulto negro flutuante aparecia nos depoimentos, assim como as histórias de colegas mortas que chamavam em sonhos suas amigas, que se depois matavam para se juntar a elas. Bilhetinhos ameaçadores se espalharam na cidade. Quem os pegassem, seriam os próximos a morrer. Alguns desses bilhetinhos foram entregues aos investigadores.

No geral, as iniciativas suicidas envolveram quadros de depressão em famílias desestruturadas, com histórico de abuso de caxiri (pinga indígena) e de violência. Mas essa não era a regra. Havia trajetórias diversas. Outro achado dos pesquisadores foi identificar que a prática estava mais concentrada em determinados grupos. No levantamento de 95 suicídios no Rio Negro, 18 casos envolviam vítimas da etnia Hupda. Os Tukanos, com 15 ocorrências, vinham em segundo, seguido pelas Barés, com 6 mortes.

Li todo o material e ainda fiz outra ligação para o advogado Adelson Lima Gonçalves, do povo Tariano. Quando Adelson se formou em Direito, em 2010, ele prestou o juramento profissional em língua Tukano. Atualmente, o advogado faz mestrado em antropologia na Universidade Federal do Amazonas. Seu nome tariano é Yawi, que significa onça. O começo da conversa novamente não conseguiu se desvencilhar das formalidades.

– Olá Adelson. Quem fala é Bruno, estou escrevendo sobre suicídios em São Gabriel, etc, etc.

– Oi. Preciso antes conversar na OAB para vermos o posicionamento. Sou da Comissão de Defesa dos Povos Indígenas. Ligue daqui a cinco dias e eu passo o posicionamento.

– Combinado, Adelson. Mas eu falei com o seu Max. Ele me falou sobre causas sobrenaturais que explicariam os suicídios.

Falei o que seu Max havia me dito. Acho que foi o suficiente para nos aproximar, mesmo via celular.

– Ah, sim. Esse é um problema sério. É o que meu pai tem me falado. Ele é idoso e conversou com outras pessoas mais velhas. Eles estão preocupados. Os jovens estão aprendendo rezas indígenas, mas fazem essas rezas de forma errada, sem o devido preparo, como se fosse brincadeira. Isso libera os espíritos e afeta a comunidade. Cria um excesso de emoção. A adolescência deixa as pessoas mais vulneráveis, troca de voz, menstruação.

Albert Camus já dizia que só existe uma questão filosófica importante: o suicídio, ou seja, julgar se a vida vale ou não a pena ser vivida. Como essas questões existenciais aparecem no cotidiano de uma menina que se mata enforcada? Algumas hipóteses são levantadas pela investigação do MPF: passam pela desestruturação das novas famílias citadinas, vindas das aldeias do interior, provocando o afastamento dos rituais coletivistas e familiares tradicionais do Alto Rio Negro; pelo uso excessivo de álcool; pelo choque cultural com as crenças que valorizam o consumo, entre outros aspectos. A forma com que os índios do Rio Negro enxergam a morte, como uma continuidade da vida, incluindo a possibilidade de desfrutar o convívio com os antepassados queridos no mundo dos mortos, é outra hipótese discutida na investigação.

O fato é que as taxas desproporcionais de suicídio revelam um incômodo desconhecido dos brasileiros. Ironicamente, sempre que pretendemos criar nossa identidade original perante o mundo, é à cultura indígena que recorremos. Pode ser idealizada, como nos poemas românticos Gonçalves Dias com seu herói Juca Pirama, no século XIX. Décadas depois, seria a vez de José de Alencar com a trilogia que começa antes do descobrimento do Brasil, com Ubirajara passando por Iracema e por Peri em o Guarani. O movimento antropofágico modernista deu à cultura indígena um papel de protagonismo na explicação sobre a construção de nossa alma nacional, como um canibal que devorasse a tradição ocidental, para criar uma cultura original. Macunaíma, de Mario de Andrade, é o grande herói dessa escola – o herói sem caráter, ou melhor, com caráter em formação.

Só que agora os índios estão se matando e me vem a pergunta: qual o papel da cultura indígena no debate contemporâneo?  Será que o tema se esgotou? Ou ainda precisamos compreendê-la para sabermos sobre nós mesmos? O assunto não parece ser uma preocupação prioritária nos dias de hoje. Às vezes, acho que relegamos o debate sobre os índios e sua cultura para um lado escuro de nossa cabeça. Fica lá na sombra, esquecido, no inconsciente. Até que emerge, como um vulto negro, flutuando para nos assombrar.

* Foto de 1988 durante a Constituição tirada por Beto Ricardo do Instituto Socioambiental