O medo infantiliza e ajuda a eleger Telhada. O “helicoca” amadurece o debate
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O medo infantiliza e ajuda a eleger Telhada. O “helicoca” amadurece o debate

Bruno Paes Manso

07 de outubro de 2014 | 08h18

Segunda-feira, baixo astral, dia seguinte às eleições, sensação de ressaca. Coronel Telhada, que simboliza o policial voluntarista, PM de Cristo com dezenas de “derrubadas” e que se enxerga como a solução para o mal no mundo, foi o segundo deputado estadual paulista mais votado. Entre os federais, Eduardo Bolsonaro, filho de Jair Bolsonaro, também se elegeu em São Paulo.

Admito que bateu um desânimo ao levantar da cama. Dos nove candidatos financiados pela bancada da bala, só Paulo Skaf não foi eleito. Ontem (segunda-feira), um dos porta-vozes da indústria de armas me ironizou no Twitter. Será que estamos perdendo o debate? Trinta anos depois do reestabelecimento da Democracia, por que esses candidatos histriônicos continuam se elegendo?

O amadurecimento no debate, contudo, é visível. Nos anos 1960, o esquadrão da morte pregava que o “extermínio de bandidos” tornaria o mundo mais seguro, crença compartilhada pelos grupos de extermínio e justiceiros nas décadas seguintes. O medo é um instinto que nos torna vulneráveis e nos infantiliza, a ponto de apelarmos para super-heróis. Só que as taxas crescentes de criminalidade comprovam a ineficácia desse modelo.

É inegável que ainda há espaço para o medo nas escolhas eleitorais. Mas veja bem. O voto nesses candidatos, apesar de chamar a atenção da imprensa, fica na casa dos 2% do eleitorado. O amadurecimento decorre do acúmulo de histórias que ao longo das décadas demonstraram que, irrefutavelmente, o descontrole das polícias e os modelos de segurança truculentos ajudaram a alimentar a engrenagem da violência e a piorar as taxas de criminalidade. Não são discussões abstratas. Os erros do modelo são concretos.

No Rio de Janeiro, a popularidade do deputado Marcelo Freixo, o segundo deputado federal mais votado, é fruto dessa experiência que revelou de forma clara como a tolerância à truculência policial pode se tornar um veneno social. Os fluminenses, como nenhum outro povo no Brasil, foram testemunhas da ação predadora das milícias, formadas por policiais da ativa e da reserva que se tornaram integrantes de uma organização criminosa que concorre com as outras três facções criminais do Estado.

Outro episódio que elevou o nível da discussão foi a história do “Helicoca”, investigada pelo meu amigo Joaquim de Carvalho, em um minidocumentário no Diário do Centro do Mundo. A aeronave, que pertencia à família de José Perrella, político influente de Minas Gerais, transportava 445 quilos de pasta base de cocaína e foi apreendida pela Polícia Federal. As investigações avançaram pouco e quase nada se descobriu sobre os responsáveis pela carga.

Como repórter competente e responsável que é, Joaquim de Carvalho não fez acusações que não poderia provar. Mas teve o mérito de levantar questões altamente relevantes sobre as prioridades da segurança pública. A PF avaliou a carga do helicóptero em R$ 10 milhões. Depois de refinada, poderia render dez vezes mais. O lucro, apenas com essa carga, é o mesmo de quase um ano de arrecadação do Primeiro Comando da Capital, segundo dados da contabilidade apreendidos pela polícia paulista.

No documentário, Joaquim de Carvalho pergunta: por que essa investigação foi abandonada já que, pela primeira vez, seria possível chegarmos a alguns dos cabeças do tráfico de drogas no Brasil? Será que perseguir jovens pobres, que andam de chinelo e sem camisa nas favelas e que superlotam as prisões brasileiras, é a melhor estratégia para a segurança pública? Quem assistiu Breaking Bad conhece muito bem a meta da polícia: buscar Heisenberg, o capo. Apontar jovens de 16 anos como bode expiatório da criminalidade é covardia.

Mas sempre haverá eleitores com medo em busca de super-heróis que os protejam. Só que, trinta anos depois, com a redemocratização do País, a estratégia da truculência e de caça aos pobres se revela cada vez mais anacrônica e ineficiente. Com o tempo, esse modelo não vai enganar mais ninguém.

Abaixo, veja o excelente documentário Helicoca, que já tem mais de 130 mil pageviews no Youtube:

 

 

 

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