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O jornalismo não pode morrer

Bruno Paes Manso

12 Fevereiro 2014 | 14h02

A morte de Santiago durante os protestos pareceu anuviar ainda mais os céus nesses tempos sombrios vividos pelo jornalismo. Tudo acaba sendo muito simbólico. Se já não bastasse a crise mundial da indústria, que vem provocando cortes nas redações e fechamentos de jornais, as Jornadas de Junho colocaram na berlinda nós, os jornalistas brasileiros que trabalhamos na grande imprensa. Fomos ameaçados, apanhamos nas ruas e compreendemos na marra que também éramos alvo dos protestos, acusados por manifestantes de distorcermos a realidade. Creio que a forte reação da categoria à morte de Santiago deva ser compreendida nesse contexto de decadência contínua e sofrida pela qual passamos.

Claro, no entanto, que muitas críticas procedem, caso contrário elas não viriam com tal intensidade. Mas creio que o fato essencial do debate ainda foi pouco abordado. Para melhorar a qualidade de nossa democracia, devemos discutir e encontrar formas para que o bom jornalismo sobreviva. Essa questão levanta outras: qual a diferença entre o bom e o mau jornalismo? Qual o papel do bom jornalismo em uma democracia?

Cada vez mais vemos que bobagens podem ser escritas pela grande imprensa e pela imprensa alternativa, por veículos governistas e contra o governo. Isso para não falarmos o que vemos no Face book, que acabou se tornando uma fonte importante de informação.

Diante disso, tento humildemente arriscar as respostas que, por sinal, devem orientar os rumos a serem seguidos por este blog. O papel do bom jornalismo no aprimoramento de uma democracia são pelo menos dois:

1) Deve servir para contrabalancear e corrigir qualquer tipo de poder que esteja sendo exercido de forma distorcida. Pode ser o poder do Estado, de uma empresa privada ou de um indivíduo. Nesse sentido, cabe à imprensa apontar a distorção que está sendo praticada para que a conduta seja corrigida. Quanto mais grave os males causados pelos desvios do poderoso e quanto maior a quantidade de pessoas atingidas, mais urgente é a necessidade de uma reportagem para buscar a correção dos erros.

Exemplo dessa batalha inglória foi a trajetória do jornalista André Caramante na Folha de S. Paulo. Ele infelizmente foi demitido na segunda-feira. Não falei com ele e não quero entrar no mérito das decisões da empresa. Mas a sua cobertura permanente ao longo de mais de sete anos das denúncias de abusos policiais cumpriram esse papel na tentativa de controlar o poder desviante do Estado. Digo isso porque também cubro a área. E é recorrente vermos mães, cujos filhos foram criminalmente executados por policiais, correrem riscos de vida por saberem que a versão oficial é fantasiosa. Além do luto da perda, vivem a humilhação de se resignarem diante da injustiça e o risco real de serem assassinadas. Não vejo distorção mais grave do que essa.

2) A segunda tarefa é proporcionar o autoconhecimento aos leitores sobre a sociedade em que vive. Costumo usar a imagem do analista como exemplo. Quando sentamos no divã, o objetivo é buscarmos nossas verdades. Falar sobre nossos medos, frustrações, conflitos e traumas. Essa é a solução para tentarmos nos compreender, aceitar e superar os defeitos que nos incomodam. Creio que as reportagens devam fazer seus mergulhos na cidade com esse olhar afastado. Buscar compreender os conflitos existentes, os ódios, frustrações e mazelas, como se toda a sociedade estivesse no analista, deitada em um divã, para falar de si mesmo. Quanto maior o autoconhecimento dos moradores sobre sua cidade, melhores as condições que a sociedade terá para enfrenta-lo.

O nome do blog, aliás, faz alusão a isso. Claro. É como se eu buscasse, a partir do meu trabalho como jornalista e pesquisador, ao longo dessa jornada virtual, mergulhar nas entranhas dessa cidade de alma perturbada. E tentar racionalizar a respeito do que vivemos e do que somos, na busca de pensar em como conseguir transformar o que nos incomoda. Essa busca deve ser objetiva e isenta. Os julgamentos devem ficar de lado. O objetivo é garimpar ao longo desse processo as pedras preciosas capaz de revelarem a cidade em que vivemos. A pergunta de fundo, a ser respondida diariamente pelo blog é: o que as notícias revelam sobre a cidade e sobre nós?

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