Desmilitarização da Praça Roosevelt: em defesa do urbanismo sem medo
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Desmilitarização da Praça Roosevelt: em defesa do urbanismo sem medo

Bruno Paes Manso

09 Setembro 2014 | 08h30

De um gramado despretensioso da fazenda de Dona Veridiana, no século XIX, até ser batizada nos anos 1960 em homenagem ao presidente herói da II Guerra nos Estados Unidos. Desde que nasceu e se tornou parte da paisagem urbana de São Paulo, a Praça Roosevelt tem vivido momentos de altos e baixos. Nos anos 1970, um projeto arquitetônico de mau gosto a empurrou para a degradação e o abandono. Nas duas décadas seguintes, parecia fadada a se tornar só mais um espaço sem uso nessa cidade mal planejada. Até que começou a encontrar sua verdadeira vocação cultural nos anos 2000, com a chegada dos grupos de teatro Sátiros e Parlapatões e a adoção de suas calçadas por skatistas e boêmios. Começava a ser moldada ali sua aura de espaço da vanguarda paulistana.

Nos últimos dois anos, depois de revitalizada, a Praça Roosevelt vive seu auge, tornando-se uma espécie de Praça da Sé das novas gerações. Virou ponto de encontro dos protestos. No dia 13 de junho de 2013, foi rota de fuga dos jovens que tentavam escapar da pancadaria na Rua Maria Antônia. Continuou a receber os grupos de teatro e os boêmios, além de tornar-se um pico internacional de skate e um ponto de encontro para manifestações artísticas e debates ao ar livre. A vizinhança com a Rua Augusta ajudou a consolidar seu perfil alternativo.

Ver um espaço central ressuscitar e se tornar um símbolo positivo da São Paulo contemporânea deveria ser motivo de orgulho e de festa para as autoridades, políticos e para a população em geral, ainda mais depois de junho de 2013. Só que não. A praça, que já tem uma base da Guarda Civil Metropolitana, deve receber também uma base para a Polícia Militar. A reivindicação é de alguns comerciantes e moradores do entorno. Mais informações aqui. Já os coletivos de jovens querem que o prédio se torne um Centro de Arte de Rua, abrindo espaço para experimentações e ações educativas. Veja calendário e abaixo assinado aqui.

O debate iniciado pelos coletivos é de grande relevância política, num momento em que a discussão sobre segurança e a cidade que queremos está cada vez mais sendo mediado pela visão de mundo das corporações policiais. Como se tudo girasse em torno de combater o crime. Em primeiro lugar, vamos desmilitarizar a discussão. E afinal, qual o papel da Praça Roosevelt na cidade que queremos?

Arte, cultura e segurança pública não são demandas excludentes e poderiam conviver tranquilamente. Mas o interessante é como o embate parece colocar em oposição as duas visões de mundo que se chocaram quando junho eclodiu. De um lado, uma visão defensiva e medrosa que marcou a relação da minha geração com a cidade. Aquela que se assustou com as grandes transformações de São Paulo desde a metade do século passado e que construiu uma cidade repleta de muros, condomínios fechados, shoppings centers, carros e segurança privada. Eu faço parte desse processo e sou testemunha de como essa solução equivocada serviu para criar uma cidade segregada, com ilhas isoladas que pouco se comunicam, formando grupos que seguiram se estranhando e se agredindo, como mostram as taxas crescentes de criminalidade crescentes ao longo dos anos. As polícias, nessa visão, tornam-se protagonistas.

A geração que liderou as passeatas de junho e que insiste em permanecer nas ruas cresceu nesse ambiente inviável e sufocante da São Paulo segregada. São jovens que talvez tenham escapado do isolamento com a ajuda das redes sociais, quando conheceram um mundo mais diverso e misturado. Pelas redes sociais, passaram a se encontrar nas ruas para fugir de seus mundinhos. Vieram os churrascões, as passeatas, as apresentações culturais em praças e metrôs, as bicicletadas, as festas em viadutos, festivais artísticos sob o minhocão, as ocupações e os grafites. A polícia é colocada em seu lugar: de mero coadjuvante em uma cidade.

No fim de semana passada, as ruas do centro bombaram de madrugada com o festival da cultura independente SP na Rua. Veja mais informações aqui. No domingo, coletivos se mobilizaram para pedir que a Avenida Paulista se torne uma rua de lazer nesse dia da semana. Veja mais aqui. Amanhã, uma audiência pública vai discutir o papel do Minhocão no Plano Diretor da cidade. Mais informações aqui.

Pode parecer irrelevante a mensagem que essa geração pós-shopping tenta nos passar, mas se trata de um diálogo profundo e cheio de sabedoria. As autoridades deveriam prestar mais atenção nos jovens que, intuitivamente, já perceberam o fracasso do modelo de segurança que construímos e que só serviu para segregar. Uma cidade mais segura é também uma cidade em que as pessoas não sintam medo. Uma cidade sem medo é aquela em que as pessoas se encontram nas ruas, nas praças e no transporte público. As manifestações culturais ajudam a promover esse diálogo, que diminui as estranhezas.

Em vez de muros, São Paulo precisa de pontes. O papel do Estado é estimular esse convívio, em vez de ajudar a segregar ou a criminalizar fatias da população. A polícia e a segurança pública servem para preservar os direitos dos que estão nas ruas. É por isso que São Paulo precisa de uma Roosevelt livre, assim como praças e ruas cheias, para que as pessoas se encontrem e assim se sintam mais seguras. A PM precisa compreender que não deve sufocar a alma vanguardista que nasceu naquela praça, sob pena de matar o espírito dinâmico que faz de São Paulo uma das cidades mais efervescentes do mundo.

Coletivos pedem que Paulista vire rua de lazer no domingo (foto Ivson Miranda)

No dia 11, quinta-feira, ocorrerá mais um evento na Praça Roosevelt em favor do centro cultural no lugar da base da PM. Trata-se de um baile de máscaras, contra a legislação estadual que proíbe o uso de máscara nos protestos. Na Alemanha, lei semelhante não chegou a dar grandes resultados. Depois da legislação, os manifestantes que queriam se esconder passaram a ir aos protestos de capuz, óculos escuros e cachecóis.

Na última quinta-feira, ocorreu um protesto na Praça Roosevelt. O oficial apresentou seus argumentos técnicos para impedir a manifestação. O vídeo, produzido por Alex Demian, foi uma dica da minha colega Vanessa Bárbara, que esteve por lá. Eu vejo as imagens e me vem a pergunta. Cabe aos policiais militares o papel de mediar as discussões políticas e urbanas em São Paulo? Quando isso ocorre, o debate inevitavelmente acaba com bombas e balas de borracha. Para que então servem os políticos? Ok. Não respondam.