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Manifestação de ontem trouxe de volta para as ruas clima político de junho. Caetano, foi lindo!

Bruno Paes Manso

14 Março 2014 | 08h31

Eu devo admitir que passei a quinta-feira apreensivo e que estava esperando confusão na manifestação de ontem contra a Copa. Mas quando eu subia a escada rolante da Estação Faria Lima do metrô para chegar ao Largo da Batata, ouvi baixinho os batuques da Fanfarra do M.A.L, coletivo que acompanha o Movimento Passe Livre nos protestos. Eu logo percebi como aqueles tambores me passam um sensação positiva e me recordam das lições de política que eu tive em junho.

Na concentração, apesar da grande quantidade de black blocs, com suas máscaras e roupas pretas, o que predominava era a panfletagem de coletivos com cartas de textos longos cheios de pontos de exclamação: “Abaixo a Copa bilionária da burguesia e seus governos!”, da Corrente Proletária Estudantil; “Todo esse sistema é corrupto. A juventude é Revolucionária!”, da União da Juventude Rebelião, “Qual o legado da Copa para o nosso País?”, da Rua Juventude Anticapitalista e o “Não vai ter Copa!”, do Território Livre!. Os panfletos também tinham a data e hora da nova manifestação. Será dia 27 de marços, às 18hs, na Praça do Ciclista.

Independente do que penso sobre essas demandas, se concordo ou não, o fato é que o diálogo e os argumentos pareciam estar de volta na praça. Também havia as camisas amarelas e coloridas da Associação Nacional dos Estudantes (Anel) e do Somo Jovens (ligado ao PSOL), as vermelhas do PSTU e da Une, para mencionar alguns dos coletivos e partidos presentes. Os cerca de 2 mil policiais provocavam mal presságio. Mas apesar do aparente exagero, eles acompanharam o trajeto até a Paulista sem interferir nos protesto. Creio que a mobilização da sociedade civil às vésperas do protestos conseguiu coibir o destempero da PM, visto no último protesto. Que excelente notícia.

Eu reconheci o Marcelo, o primeiro integrante do MPL que entrevistei. Sósia do Messi, com 18 anos, deixou a barba crescer e ainda parece um adolescente. Quando eu falei com ele em junho, ainda no começo dos protestos, não era possível imaginar a dimensão que as jornadas ganhariam. Cheguei arrogantemente, achando que era apenas mais uma entrevista com um garoto recém-saído da adolescência em busca de emoção e adrenalina. Arrogância é um dos maiores defeitos de um jornalista e eu despenquei do meu pedestal depois de ver, incrédulo, aquele garoto e seus colegas do MPL fazendo história na minha frente e me dando lições de política.

Também reconheci no meio da muvuca o ex-presidente do Diretório Central dos Estudantes, que eu vi certa vez na USP comandando votações em assembleia com mais de 2 mil alunos; e a presidente da Anel passando mensagens por jogral, celebrando no vão livre do Masp a mensagem que conseguiram passar ontem, encerrando com o tradicional “Amanhã vai ser maior!”.

Ao longo de duas horas de caminhadas, sem destruições e bombas da PM (uma bomba caseira soltada na passeata foi só um susto), as ruas voltavam a ser o centro das discussões e dos debates, assim como foi em junho. E não falo isso para para fazer média. Sou da geração seguinte à de 1968, a dos meus pais, que também sacudiu as estruturas culturais e políticas da sociedade. Coube à minha geração assentar esses avanços, já totalmente absorvidos. Os meus contemporâneos foram, nesse sentido, conservadores. Já a atual, essa das redes sociais e das pautas voltadas à política nas grandes cidades, precisava novamente chacoalhar os ânimos diante das mudanças no ambiente em que cresceram. E essa geração, sem dúvida, me provocou, me incomodou, fez com que eu resistisse e só aos poucos a compreendesse. Acredito que é dessa forma que as mudanças ocorrem, fruto do desconforto de jovens dispostos a apontar outros caminhos que já não mais enxergávamos.

O grito do Não Vai ter Copa!, nesse sentido, é profundo porque contesta justamente a forma atual de se fazer conchavos e política. Eu adoro futebol e talvez por isso demorei pra entender. Hoje acho uma pauta ousada e criativa. Claro que não concordo com tudo. Mas subindo a Avenida Rebouças, inevitavelmente, aqueles garotos e garoto me lembravam dos meus filhos. Nossas brigas atuais e as futuras. Eu sou cabeça dura. Mas eles são mais. E fiquei emocionado diversas vezes, amando estar ali. Mas é melhor eu parar por aqui antes que meu lado de jornalista holístico assuma de vez essas mal traçadas.

Enfim, Caetano, foi lindo. E tem mais do dia 27 de março, às 18hs, na Praça do Ciclista.