Jornalismo não deve erguer muros, mas criar pontes. Os desafios depois de junho de 2013
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Jornalismo não deve erguer muros, mas criar pontes. Os desafios depois de junho de 2013

Bruno Paes Manso

17 de junho de 2014 | 10h39

Cada jornalista tem uma história pessoal para explicar o motivo de ter escolhido a profissão. A ingênua pretensão de mudar o mundo atrai boa parte daqueles que, como eu, perto dos 20 anos, mergulham na carreira. Dentro das redações, contudo, conforme os anos passam, algumas ilusões vão ficando pelo caminho. Para os que persistem, é comum construir uma couraça de cinismo a fim de suportar as tragédias cotidianas. A originalidade do olhar do profissional, privilegiado por estar mais próximo dos acontecimentos, vai se perdendo até ser moldado pela fórmula padronizada da engrenagem da indústria que produz notícias.

É assim que a complexa realidade do mundo dá lugar aos estereótipos e ao lugar comum, muitas vezes reforçados pelos jornais. Na falta de tempo, revela-se aquilo que leitor espera que seja escrito. Notas para serem comentadas no elevador, platitudes consumidas superficialmente. São informações que podem até estar corretas objetivamente, mas que desinformam por serem descritas fora de contexto. Junho de 2013 foi um caso emblemático. As manifestações, que foram apontadas pela imprensa como passeatas de rebeldes sem causa, se tornaram um dos mais importantes eventos políticos da década e obrigaram muitas linhas e falas a serem refeitas. Um bando de jornalista derrapou no decorrer da cobertura e depois pagou a língua. Inclusive eu.

Mais do que nunca, porém, a profissão foi colocada em xeque, com os profissionais tendo que responder perguntas sobre o futuro que demandam respostas urgentes: Qual a diferença entre o bom e o mau jornalismo? Qual o papel do jornalismo em uma democracia? Por que o bom jornalismo não pode morrer?

Os cinco meses de trabalho no blog SP no Divã aqui no Estadão tem me ajudado muito nessa busca pessoal por respostas sobre minha profissão. Nunca tive tanto retorno e satisfação profissional, principalmente por ser uma tarefa complementar às pesquisas que venho desenvolvendo no Núcleo de Estudos de Violência da USP. Como se isso tudo já não bastasse, a partir da semana que vem terei o privilégio de integrar a equipe de um novo canal de jornalismo que vai tratar de segurança pública, justiça e direitos humanos. Chama-se Ponte e nesse endereço é possível conhecer a equipe, os apoiadores, missão, etc.

Não é fácil cobrir esse tema e meu trabalho blog acaba sendo uma jornada solitária. Quem trabalha com o assunto precisa de apoio, fazer parte de redes, compartilhar pautas para assumir a abordagem de correta assuntos tão polêmicos e importantes. E qual, afinal, deve ser o caminho editorial a  seguido por um jornalismo compromissado com os valores democráticos na cobertura dessa área? ?

Como jornalista e pesquisador de segurança pública, justiça e direitos humanos, faz tempo que venho participando de diversas palestras para discutir o assunto. Quase sempre, os profissionais de redação são malhados e acusados de contribuir com a violência vigente. No geral, as críticas são direcionadas ao jornalismo sensacionalista, ao estilo dos programas de José Luiz Datena e Marcelo Rezende que, aliás, sempre foram modelos inversos daquilo que acredito.

Arrisco algumas respostas ao que buscaremos enfrentar no dia a dia do novo canal:

1) O jornalismo não deve erguer muros. Deve construir pontes. Essa frase eu ouvi nos debates com meus colegas da Ponte, dita, se não me engano, pela amiga Laura Capriglione, que faz parte do grupo. Na minha interpretação, isso significa que devemos atuar no sentido de desfazer as visões estereotipadas existentes na sociedade. A incompreensão sobre as diferenças levanta muros. O jornalismo deve levar informação e ajudar os lados a se compreenderem pelo que de fato são. As visões simplistas e os estereótipos em relação aos diferentes provocam relações falsas e escolhas erradas.

2) Jornalismo é uma coisa. Entretenimento, é outra bem diferente. No debate sobre segurança pública, o programa do Datena, por exemplo, pode ser considerado de entretenimento. Como depende do Ibope, busca mostrar o que a sociedade quer ver. Explora, assim, de forma sensacionalista, as notícias relacionadas a violência.  Isso não significa que aqueles que o assistem queiram se divertir. O programa acaba cumprindo um papel mórbido, uma demanda social que existe em sociedades sem Justiça desde muitos séculos atrás. Na Idade Média, por exemplo, torturavam-se e matavam-se pessoas em praça pública. Dessa forma, os bodes expiatórios saciavam o  desejo de vingança contra os crimes impunes ao mesmo tempo em que ensinavam o que não devia ser feito. Os programas policiais de entretenimento hoje em dia parecem substituir esses rituais macabros de antigamente. Em um País em que o Estado foi incapaz de construir instituições de controle eficientes e justas, as televisões precisam fingir de forma simbólica que a Justiça está sendo feita. Para atrair a audiência dos desavisados.

3) Cabe ao jornalismo, nesse contexto, atuar em benefício daqueles que estão desprovidos de poder e que são prejudicados por ações desviantes dos poderosos. O jornalismo deve revelar esses desvios, torná-los públicos, forçando os poderosos a corrigirem seus erros. Uma matéria é mais relevante quanto mais grave é a injustiça denunciada e quanto maior a quantidade de pessoas afetadas. O poder não é exercido apenas pelo Estado, mas também por empresas e pessoas. Um exemplo do que se busca foi a  a história de José, contada no blog no fim de maio. Ele tinha provas de sua inocência e mesmo assim foi preso e a Justiça o manteve preso. A publicação da notícia com as provas foi fundamental para soltá-lo

4) Isso não significa que somos contra às instituições sobre as quais escrevemos de forma crítica. Cabe ao jornalismo, contudo, esse papel de ouvidoria dos poderes. Como já dizia Millôr Fernandes: “jornalismo é oposição. O resto é armazém de secos e molhados”.  Já George Owell afirmava: “jornalismo é publicar aquilo que alguém não quer que se publique. Todo o resto é publicidade”. O objetivo, no entanto, é ajuda-los a identificar os desvios. Assim como nenhuma redação deseja um jornalista como Jason Blair escrevendo notícias mentirosas, o Estado não quer funcionários desviantes no sistema de justiça. 

5) Gosto de usar a imagem do psicanalista para explicar nossa tarefa jornalística. Quando queremos ajuda profissional para refletirmos sobre nós mesmos, tentamos um mergulho no divã buscar nossos conflitos e podres. Devemos refletir sobre eles para compreendê-los e superá-los. Não interessam tanto as nossas qualidades. O jornalismo também deve agir assim. Cabe aos jornalista buscar compreender os conflitos e os podres da sociedade e relatá-los. A sociedade deve sentar no divã e ser abastecida pelas informações dos repórteres.

Esses cinco pontos são um norte. Conseguir implementá-lo é algo bem diferente. E estamos o tempo todo sujeito a erros de avaliação. Quando escrevo sobre a polícia, por exemplo, eu me pergunto até que ponto eu critico em excesso ou se há de fato a necessidade da contundência, já que a covardia contra as vítimas é desproporcional e urgente. Tenho ficado com a segunda opção. Esse debate varou a noite ontem, às vésperas da divulgação do vídeo. As cenas de violência policial não são excessivas? Ou a gravidade da situação e a tolerância da população justificam as cenas? A maioria optou pela importância do vídeo sair como saiu, mas o debate jornalístico em torno da decisão continua vivo no grupo.

Jornalismo é um diálogo permanente, com os outros e consigo mesmo. Na Ponte, a credibilidade das informações publicadas e a missão pela qual estamos compromissados são nosso maior trunfo. O desafio será permanente,  mas ter um norte já é um excelente começo. Esperamos contribuição e parceiros. Encerro com o meu mantra de todas as noites, antes de dormir: que Deus nos ajude e nos ilumine em nossas escolhas.

 

 

 

 

 

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