“Is it always like this in Brazil? Always so violent demostrations?” (CNN) “Sabía que iba a haber tensión pero esto…Brutal” (El Mundo)
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“Is it always like this in Brazil? Always so violent demostrations?” (CNN) “Sabía que iba a haber tensión pero esto…Brutal” (El Mundo)

Bruno Paes Manso

13 de junho de 2014 | 09h18

Abaixo seguem os relatos dos professores Esther Solano e Pablo Ortellado sobre os protestos do dia da estreia da Copa. Eu não estive presente e por isso não vou escrever sobre o que não vi. Só queria fazer um comentário sobre a foto tirada ontem pelo parceiro Robson Fernandes, fotógrafo do Estadão. Não sei o contexto, mas há imagens absolutas, que dispensam palavras. Esta é a foto da covardia, do despreparo, do sadismo, da violência, do excesso, que deveria envergonhar a todos os policiais militares de São Paulo. Mas que infelizmente parece que não envergonha. A foto flagra um crime. Uma agressão desnecessária que não será punida. A Corregedoria vai deixar barato. Como fez com as agressões que ocorreram um ano atrás, do dia 13 de junho. Para que mesmo serve a Corregedoria da PM?

Hoje é o aniversário de um ano da pancadaria ocorrida na Avenida Paulista. A imagem da covardia policial naquele dia provocou o levante nas ruas de todo o país. Desde então, nenhum policial foi punido. Talvez estejamos mais anestesiados, dada a repetição de imagens que não parecem mais chocar como antigamente.  Talvez estejamos eufóricos com o jogo do Brasil e com a Copa. Sei lá.

DOIS TESTEMUNHOS SOBRE O DIA DE ONTEM

Vitória no gramado. Derrota nas ruas.

Esther Solano (professora da Unifesp)

Ontem Brasil ganhou o primeiro jogo da Copa.  Uma vitoria dentro do estádio, mas o que acontece dentro dele é, simplesmente, futebol. Do lado de fora está o verdadeiramente relevante. As grandes vitórias ou as grandes derrotas. No gramado se joga uma taça. Nas ruas se joga a democracia que se constrói ou se destrói a cada dia.

Protesto em São Paulo. A protagonista indiscutível, de novo, um ano depois, a violência. Dezenas de jornalistas estrangeiros presenciando, com rostos de medo, as cenas de guerra.

“Is it always like this in Brazil? Always so violent demostrations?” (CNN, EUA)

“Sabía que iba a haber tensión pero esto…Brutal” (El Mundo, Espanha)

Os adeptos da tática Black Bloc, por outro lado, cientes da visibilidade ímpar nos holofotes do mundo:

“Conseguimos que hoje o mundo, literalmente o mundo inteiro, soubesse a situação real do Brasil”

“Hoje foi uma vitória. Todos os jornais vão noticiar o que está acontecendo aqui. O jogo não é importante, o importante é o que acontece aqui, nas ruas”

Além das barricadas e as bombas de efeito moral, um detalhe, de aqueles que passam despercebidos, que não dão capa, mas que são reflexo cruelmente fiel da realidade de um país me fez pensar muito.

Um grupo de vizinhos vestidos de verde-amarelo, observava o protesto, xingando veementemente os manifestantes, os chamando de vândalos e criminosos e aplaudindo com entusiasmo os homens do Choque. Os manifestantes, respondiam, irados, ao grito de coxinhas, fascistas  e “burguês, a culpa é de você!” .  Raiva, muita raiva entre eles.

Ultimamente, a agressividade, as palavras hostis, a aversão, nos acompanham com insistência.  Parece que a sociedade brasileira não se suporta a se mesma, não sabe conviver com suas divergências, responde a elas só com rancor. Uns e outros, enfrentados hoje como inimigos eram o exemplo de um país que saiu derrotado no primeiro dia de jogo

 

Petistas e tucanos em silêncio

Pablo Ortellado (professor da USP)

Dois protestos haviam sido marcados para  abertura da Copa: uma manifestação contra os impactos da Copa do Mundo no metrô Carrão e uma manifestação organizada pela Conlutas em apoio aos metroviários demitidos. As duas aconteceriam na zona leste, a quinhentos metros uma da outra e mais de dez quilômetros da Arena Corinthians.

A Polícia tinha orientação para não deixar a manifestação acontecer. Mais de trinta policiais recebiam os manifestantes ainda na catraca do metrô e os revistava ou já detinha. Do lado de fora, pelo menos duzentos policiais da tática esperavam os que conseguiam passar. Na concentração, sem que nada tivesse acontecido e quando apenas algumas centenas de manifestantes tinham conseguido chegar, a tropa atacou com bombas de confusão e gás lacrimogêneo. Quando o ataque acabava e as pessoas respiravam, ela, sem motivo algum, atacava de novo. Havia mais de uma centena de jornalistas estrangeiros e isso não parecia inibir a arbitrariedade da polícia. Umas dez pessoas devem ter se ferido neste momento, quatro deles jornalistas.

Não havia nenhuma possibilidade de sequer reunir os manifestantes e as pessoas que tinham conseguido chegar no protesto se deslocaram para o sindicato dos metroviários onde cerca de duas mil pessoas apoiavam os demitidos na greve. O ato dos metroviários só foi permitido pela polícia com a condição de que não se movesse. A tropa de choque que já estava bloqueando a saída para a Radial Leste, logo cercou as demais saídas.

A polícia começou a atacar os manifestantes que tinham se unido aos metroviários e os dois grupos se misturaram na correria, o que gerou muitos conflitos entre os metroviários e partidos que queriam respeitar o acordo com a polícia e os manifestantes anti-Copa que queriam exercer o seu direito de livre manifestação.

Por cerca de uma hora a manifestação que, somada, deve ter reunido 3 mil pessoas foi atacada com bombas de confusão e gás lacrimogêneo. A maior parte dos manifestantes se protegeu no prédio do sindicato, mas muitos ficaram de fora. Acredito que tenhamos tido outros vinte feridos neste momento.

Depois de muitas idas e vindas a polícia “autorizou” que a manifestação se dispersasse e os manifestantes se dirigissem de volta ao metrô. Enquanto as pessoas se dirigiam a estação, muitas bombas eram jogadas para acelerar a dispersão. Tivemos vários feridos novamente.

Com a chegada de muitos manifestantes no metrô Tatuapé, os protestos retomaram por lá, assim como a ação repressiva da polícia. Não consigo estimar os feridos, mas deve ter havido algumas dezenas, talvez tenham passado de cem. A polícia atacou gratuitamente e com muita violência — não há duvida que as garantias dadas pelo Governador Geraldo Alckmin e a presidenta Dilma Rousseff de que o direito de manifestação seria respeitado não foram cumpridos.

Foi uma das manifestações mais violentamente reprimidas que já vi. E como a ação repressiva foi articulada pelo governo estadual e federal, podemos esperar aquele silêncio político que uniu petistas e tucanos na repressão ao MPL durante a luta contra o aumento das passagens em 2013.

Boa Copa a todos e todas.

BALANÇO DOS OBSERVADORES LEGAIS

Segundo atendimento realizados pelo grupo de socorristas, GAPP, durante o dia foram realizados ao menos 37 socorros a manifestantes, decorrentes de diversos tipos de lesões, como ferimentos por estilhaços de bombas, balas de borracha, asfixia por gás lacrimogênio e mecânica decorrentes de esganadura, bem como de reiterados golpes de cassetetes.

Foram realizadas ao menos 47 detenções, sendo que diversas prisões sequer eram informadas aos advogados, ou permitido o acompanhamento visual da atuação policial.

Íntegra: http://advogadosativistas.com/advogados-ativistas-e-observadores-legais-registram-o-primeiro-dia-da-copa-do-caos/

 

Abaixo seguem as fotos tiradas ontem pelo colega Willian Novaes. A primeira retrata o momento da confusão. A segunda mostra como os olhos estão atentos. É fácil pro Governo mandar a polícia bater. E deslegitimar a instituição. Creio (quem sou eu pra isso?) que seja o momento da polícia se abrir para o diálogo com a sociedade civil para que haja um avanço conjunto. Os políticos só querem se eleger, com suas pequenas cabeças no calendário eleitoral. Nós e as instituições ficamos. Sofreremos juntos. Somos mais relevantes para a democracia do que esses sujeitos engravatados de cabelos engomados.

 

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