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Entre 2006 e 2013, ocorreram 843 protestos no mundo. Só 8,9% usaram violência

Bruno Paes Manso

13 Fevereiro 2014 | 12h51

Entre 2006 e 2013, ocorreram 843 protestos no mundo, espalhados por 87 países que abrangem 92% da população mundial. O período foi um dos mais agitados da história mundial e a efervescência política dos últimos oito anos pode ser comparada a 1848 (época da Primavera dos Povos e da onda de protestos na Europa central e oriental), a 1917 (período da Revolução Russa) e a 1968 (ano lendário marcado pelas lutas dos direitos civis dos Estados Unidos pelos movimentos pacifistas e de contracultura).

A conclusão foi de quatro pesquisadores da Friedrich Ebert Stiftung – New York Office, que coordenaram um levantamento recém-publicado para medir o nível da temperatura política nas ruas mundiais (o estudo completo está no link ao pé da página).

Em junho do ano passado, enquanto o Movimento Passe Livre liderava as manifestações contra o aumento das passagens de ônibus em São Paulo, partidos de oposição marchavam na Índia contra o preço dos combustíveis. Os sul-coreanos defendiam nas ruas a liberdade de expressão. Na Etiópia, manifestantes clamavam um basta à corrupção e à liberdade política.
Um mês antes, na Turquia, protestos que começaram de maneira pacífica contra a derrubada de árvores, se disseminaram pelo país depois da ação truculenta da polícia, dinâmica semelhante à verificada no Brasil. O mundo, como poucas vezes na história, se agitava em busca de se transformar.

Algumas informações importantes aparecem nesse retrato e permitem discutir diferentes aspectos das manifestações:

1) Os países de alta renda foram os que mais se rebelaram, com 304 manifestações, o que representa 36% dos protestos. Na sequência, aparecem a América Latina e Caribe (141 casos), leste da Ásia / Pacífico (83), África Subsaariana (78), leste e norte da África (77), protestos globais (70), Europa Central e Ásia (43) e sul da Ásia.

Nesse sentido, fica a pergunta: educação e renda estimulam a crítica política? O ex-presidente Lula chegou a justificar as Jornadas de Junho como efeito da melhora das condições sociais no Brasil, um aparente contrassenso. A pesquisa não permite nenhuma conclusão a respeito, mesmo porque a Europa e os Estados Unidos foram epicentros de crises econômicas nos anos da pesquisa. Mas indica que a relação pode fazer sentido.

2) A violência foi uma tática pouco usada nos protestos. Ficou concentrada em 75 (8,9%), o que indica que a chamada tática black bloc não chega a ser popular. Em outros 33 eventos, os manifestantes fizeram greve de fome ou praticaram agressões contra si próprios – exemplos são manifestantes que ateiam fogo no próprio corpo. Apesar de a forma tradicional de protestos ainda predominar, com 437 eventos sendo levados a cabo por marchas e comícios, existem novidades nas manifestações. As chamadas ações diretas, com ocupação de ruas, praças e prédios ocorreram em 219 protestos. Alguns dos mais famosos foram os do Brasil, Egito, Espanha e Nova York, com Ocuppy Wall Street. Nessas ações diretas também são contabilizadas as ações de hackers e as invasões nos computadores e sistemas normalmente dos alvos dos protestos.

Em São Paulo, tanto a ação direta, a desobediência civil e a violência contra o patrimônio foram táticas usadas pelos movimentos populares em junho. A ponto de desnortear a polícia, que acabou perdendo o controle diante das câmeras ao espancar manifestantes rendidos, causando comoção nacional. Nesse sentido, a depredação e as táticas black blocs, se hoje estão altamente desgastadas, foram estratégicas para incendiar as ruas do Brasil em junho.

3) Houve sucesso em 37% das reivindicações. Talvez uma das vitórias mais retumbantes foi a redução das tarifas de ônibus em diversas cidades brasileiras, conquista do MPL em junho. A proporção de resultados positivos é alta, já que muitas das demandas são questões políticas de médio e longo prazo e ainda seguem em discussão.

4) Mais da metade dos protestos (488 ou 57%) foi por justiça econômica e contra medidas de austeridade para diminuir os gastos do governo, como as manifestações ocorridas basicamente depois da crise europeia. O fracasso da representação política ou dos sistemas políticos aparecem em seguida (376 ou 44%). Também houve demandas voltadas à justiça global, com críticas ao FMI e Banco Mundial (311 ou 36%) e pelos direitos de pessoas ou de grupos, com questões relacionadas a terra, cultura, legislação digital, minorias, etc (302 ou 35%).

Cada um que faça a sua própria leitura dos dados no link abaixo para o trabalho. Eu arrisco uma. A atual geração parece que vem chegando de fato para mudar o mundo. São jovens que nasceram e cresceram em grandes cidades, rodeados pelas culturas de rede social. Essa aliança por meio de contatos virtuais, aliás, é a ferramenta para potencializar essas mudanças ou pelo menos as reivindicações. Resta agora lutarmos para que as transformações sejam no sentido de aprimorar a democracia, garantindo direitos individuais e diminuindo as injustiças.