Em vez de roqueiros com overdose, quem morre hoje são os astros das periferias. Lucas morreu por assassinos com inveja
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Em vez de roqueiros com overdose, quem morre hoje são os astros das periferias. Lucas morreu por assassinos com inveja

Bruno Paes Manso

08 Abril 2014 | 10h42

 

Nos anos 1960 e 1970, os roqueiros viraram representantes daqueles que mergulham a fundo em sua arte, a ponto de pagarem com a própria vida. Se tornaram espécies de heróis de uma geração, mártires da contracultura que formaram o chamado Clube dos 27, integrado por ídolos mortos nessa idade, como Jimi Hendrix (1970), Janis Joplin (1970), Jim Morrison (1971), e depois Kurt Cobain (1994) e Amy Winehouse (2011). No Brasil, Cazuza e Renato Russo, mortos em decorrência da aids, também ganharam o status de ídolos imortais e românticos inveterados.

A morte de Lucas Lima  (3º na 1ª fila na galeria de fotos), aos 18 anos, linchado na madrugada de sábado em um baile funk, merece ser analisada também pela imagem que passou a representar para a sua geração. Não foi por acaso que ele integra uma lista de outros astros e celebridades da periferia que morreram jovens. Também não é à toa que essa lista de finados periféricos não para de crescer.

Lucas não era um artista, mas poderia ser chamado de um web celebrity ou de um agitador cultural. Tinha 60 mil seguidores no facebook, a maioria meninas bonitas de sua faixa etária. Era amigo de DJs de funk ostentação, dava conselhos em sua timeline e ficou conhecido na cidade como uma das lideranças dos chamados rolezinhos, fenômeno que Caetano Veloso definiu precisamente como algo que simboliza a “sociedade em movimento”. Lucas parecia festejado na web pela sua atitude e carisma virtual, o que me parece algo realmente novo (para não dizer estranho e assim revelar meu lado tiozinho).

O suposto motivo do conflito fatal foi um inocente galanteio a uma mulher que “já tinha dono”. É a mesma justificativa para o assassinato de Mc Daleste (o 2º da 1ª fila galeria de fotos), baleado em cima do palco em julho passado. Ouvir isso me incomoda. É como se eles tivessem culpa do crime do qual foram vítimas. O absurdo é a persistência dessa cultural surreal que legitima entre homens jovens das periferias certas ações violentas. Trata-se de uma visão de mundo altamente machista, fomentada nas prisões, onde certos desvios de proceder justificariam a punição com a vida. O talarico, aquele que cobiça a mulher do próximo, estaria dentro dessas categorias odiadas.

É como se as mulheres andassem com um carimbo na testa e fossem propriedades dos homens locais. Estes, claro, podem pular de galho em galho, desde que respeitem aquela que já tem seu dono. O feminismo precisa urgentemente levantar as bandeiras pelas bandas de lá.

Mas muito provavelmente foi a inveja que matou o garoto. Imagina o burburinho que a presença de Lucas causava em um baile funk. Sua timelime mostra que era comum belas meninas pedirem fotos com ele. Lucas e Daleste representavam outro tipo de masculinidade, relacionado a uma estética e comportamento alternativos, desassociado da violência, que deve ter despertado muita inveja. Depois que o primeiro soco o atingiu, outros homens invejosos e covardes partiram para cima dele. E o lincharam. Triste. Lamentável.

Os casos dos demais DJs de funk mortos se enquadram em outra categoria de assassinatos. Não são brigas de jovens se digladiando no próprio ambiente, mas conflitos entre representantes de classes diferentes. Em abril de 2010, dois suspeitos de moto mataram MC Felipe Boladão (o 1º da 1ª fila), quando ele se preparava para pegar um carro na Baixada e fazer um baile funk na cidade de Guarulhos. Um ano depois, MC Duda do Marapé (o 1º da 3ª fila) foi morto com nove tiros ao lado da rodoviária de Santos, local barra-pesada da cidade. Mais uma vez, homens armados passaram de moto e atiraram.

MC Primo (o 1º da 2ª fila) morreu em abril do ano passado em São Vicente. Dez dias depois, o MC Careca (o 3º da 2ª fila), foi morto a tiros no conjunto habitacional Dale Coutinho, em Santos, em frente ao salão de cabeleireiro do qual era sócio. Assim como Daleste, todos tinham menos de 30 anos. Em nenhum dos casos, os autores do crime foram descobertos. Nos anos desses assassinatos, a Baixada Santista havia se tornado cenário de disputas entre criminosos e policiais militares integrantes de grupos de extermínio. A suspeita, nunca confirmada, era de que policiais poderiam estar por trás dos crimes contra os músicos.

O único assassino punido foi o assassino do rapper Sabotage (2º da ª fila), morto no auge da carreira e da criatividade em 2003, crime que abalou a cena do hip-hop em São Paulo. O culpado foi um desafeto da época em que o rapper vendia drogas no Canão, condenado a 14 anos. A inveja, nesse caso, também foi a motivação principal, claro.

Essa mudança no cenário de ídolos significa alguma coisa? Eu acredito que sim e que reforça algo que eu já suspeito faz tempo. O rock, naturalmente, que explodiu e revolucionou nos anos 1960, provoca hoje a quem? A ninguém. O Lolapalloza, festival de rock ocorrido nesse fim de semana, foi mostra isso. Reuniu 130 mil jovens, cobrando preço para gente diferenciada, atraindo a ‘beautiful people’ que foi ver e ser vista. Claro que tinha bandas e músicas boas. Mas 40 anos depois de Woodstock, essa cena envelheceu e virou mainstream.

Não é o caso do pancadão, que ainda me incomoda e que me provoca. É o que eu, como pai, prefiro que meu filho evite. Ao contrário da estética coxipster (mistura de coxinha com hipster) do Lolapalooza eu até seria capaz de incentivar. O rock é a arte conservadora, não a que coloca a sociedade em movimento por confrontar. Essas partem das periferias. É lá onde a juventude parece ter mais sede de mudanças e de transformação. O mundo para eles é muito mais injusto e suas revoluções estão sendo feitas pela cultura. É tudo verdadeiro e por isso eles colocam a própria vida em jogo, se for preciso, para se expressar.

Para encerrar o post, vídeo do Mc Zóio de Gato (8º), morto em um acidente de carro aos 16 anos em 2009, quando voltava de um show na zona sul. Usava pandeiro em certas músicas, o que lembrava as emboladas. Na era pré-redes sociais e funk ostentação, tinha  milhões e milhões de pageviwes em seus clipes, sendo um completo desconhecido nas regiões centrais de São Paulo. Adoro essa música em que ele fala da mãe, o que me lembra o post que escrevi sobre a morte de Claudia. Mas MC Zóio de Gato cantava também proibidões, que ficavam muito estranhos na voz de uma criança.

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