Civilização X Barbárie: sem os holofotes da Copa, em Sergipe a barbárie segue favorita
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Civilização X Barbárie: sem os holofotes da Copa, em Sergipe a barbárie segue favorita

Bruno Paes Manso

09 de junho de 2014 | 12h50

Casas coloniais, ruas de pedra, igrejas do século XVIII e XIX, em um município marcado pela história brasileira e tombado pelo patrimônio histórico nacional. Laranjeiras, em Sergipe, foi um dos centros nordestinos de produção de açúcar no período colonial e herdou a tradição das festas populares com uma mescla da tradição dos escravos, índios e portugueses. A cidade abrigou o primeiro museu Afro Brasileiro do Brasil. Esse espírito sincrético é retratado em prédios como a Igreja Matriz do Sagrado Coração de Jesus e o terreiro Filho de Obá, ambos patrimônios tombados. O campus de Laranjeiras da Universidade Federal de Sergipe (UFS) foi levado à cidade para aproveitar a riqueza cultural da região. Foi fundado com cursos de arqueologia, museologia, arquitetura, dança e teatro para mil alunos, que buscaram se embrenhar nas tradições locais, entre prédios de trapiche do século XIX.

Nos últimos dois anos, contudo, a instituição, que deveria levar a cidade e o Estado a se fortalecerem pela cultura e pelas luzes, começou a falhar. Uma série de ataques violentos ao campus ocorridos nas últimas semanas levou alunos e professores a decretarem greve por falta de segurança. Uma estudante foi sequestrada e voltou com uma lista com o nome de oito estudantes ameaçados de morte. Os jovens ameaçados tiveram que deixar a cidade. Segundo professores, que conversaram com o blog, esses jovens ameaçados foram inicialmente recebidos por religiosos e atualmente estão vivendo em acampamentos de movimentos sociais. O museu Afro Brasileiro também foi invadido (foto abaixo). As guias dos Orixás foram levadas. As repúblicas dos estudantes passaram a ser constantemente invadidas. É como se de repente a cidade fosse ameaçada pelas trevas.

 

Em vez de receber apoio de todos da comunidade local, algumas autoridades atacaram a comunidade universitária nos jornais da cidade, afirmando que os próprios estudantes e professores contribuem para o crescimento da criminalidade, insinuando que o consumo de drogas no campus era o fator principal da violência. Triste ver a situação chegar a esse ponto. A surrada tentativa de atacar aqueles que tentam chacoalhar a tradição secular, onde as rédeas do poder municipal se mantém sob o comando da oligarquia local. Os estudantes e professores vinham cobrando atitudes, como melhoria nos transportes, maior eficiência nos gastos públicos, etc. A comunicação, infelizmente, ainda não fluiu como deveria. E na disputa entre civilização e barbárie, a segunda tem levado vantagem.

No dia 30 de maio, a Universidade Federal de Sergipe (UFS) publicou uma nota para explicar a decisão de paralisar as atividades naquele dia: “Diante das situações de insegurança e medo a que os estudantes do campus de Laranjeiras têm sido expostos nos últimos meses, a UFS decide suspender temporariamente as atividades deste campus até que medidas efetivas sejam tomadas pelo poder público para o combate à criminalidade que assola a região. A administração da UFS avalia que a manutenção dos seus estudantes no município de Laranjeiras depende de ações firmes dos órgãos responsáveis pela segurança pública, já que os alunos têm sido ameaçados e agredidos de diversas maneiras por delinquentes que agem na cidade. A Universidade, neste momento, não vê outra saída a não ser proteger a sua comunidade acadêmica, retirando-a da situação de risco. Ações de Assistência Estudantil e apoio psicológico têm sido providenciados para os alunos com a intenção de minimizar os danos gerados por essa conjuntura”.

A ideia é que a paralisação dure um mês. Mas o clima é de ceticismo com a volta, já que não se percebe uma reação capaz de por um ponto final nessa crise. Recentemente, o enteado do secretário de segurança pública de Sergipe foi acusado em rede nacional de ter participado de um roubo. Apesar do flagrante, a denúncia é de que foi solto na delegacia pelo delegado de plantão. A sensação de vulnerabilidade é geral, conforme os professores. Apesar de ser uma cidade média, com 30 mil habitantes, Laranjeiras hoje tem uma taxa de homicídios alta: 48 casos por 100 mil habitantes. Nas últimas três décadas, a violência não para de crescer no Sergipe. Passou do patamar dos 10 casos por 100 mil habitantes para 20 nos anos 1990 e 30 nos anos 2000.

A solução para isso não passa apenas pela segurança. E o pior não é isso. Aqueles que poderiam ajudar a fortalecer os laços sociais dessas comunidades por meio da cultura estão sendo expulsos da cidade. Quem e quais os valores vão assumir no lugar dos que forem embora?

 

 

 

 

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