A ‘IdeologiaTelhada’ é hoje o maior veneno para as polícias e para a população de SP.
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A ‘IdeologiaTelhada’ é hoje o maior veneno para as polícias e para a população de SP.

Bruno Paes Manso

02 Julho 2014 | 09h48

Entre os policiais, sensação de abandono, medo de morrer e casos de homens sendo cruelmente torturados por criminosos. Situação que faz crescer o desejo de vingança, os crimes em caixa dois (quando o policial mata sem farda e fora do horário do trabalho) e os riscos da multiplicação de grupos de extermínio e do aparecimento das milícias. A descrição desse quadro não é minha, mas do deputado Major Olímpio, em entrevista ao repórter William Cardoso, do canal Ponte.

Já entre a população, aumenta o número de pessoas descrentes das autoridades, principalmente nas periferias, temendo que seus filhos sejam vítimas de policiais revoltados. Em meio a essa tensão, que veio à tona nos últimos dias, os casos de roubo batem recordes sucessivos em São Paulo. O crescimento foi de 42% em maio.

As notícias relativas à segurança pública, muitas vezes, chegam aos montes e se espalham diante de nós como peças soltas de um quebra-cabeças. Isoladas, não fazem sentido e parecem o retrato de uma imensa confusão. Mais exemplos desse caldeirão caótico de informações? Na semana passada, foram anunciados dois produtos que só prosperam em ambientes de medo, quando a sensação de insegurança contribui para manter a população mal informada.

Um deles é a saga do coronel Telhada em quadrinhos, falando de algumas de suas ações  na Rota. Outro é o filme A Verdadeira História da Rota, cujas sessões cinematográficas foram descritas por Fausto Salvadori, no site da Ponte. No trailer do filme da Rota, o ex-capitão Conte Lopes declara: “Nessa guerra, quem pode mais chora menos”. “Vamos atrás do bandido até mesmo se ele estiver com um canhão”, diz outro integrante da Rota.

Prepara-se para um entediante passeio por este “museu de grandes novidades”. Em 1980, era Conte Lopes que se vangloriava no papel de super-herói contra o crime. Hoje, ele divide o palco com o coronel Telhada. As frases de efeito são as mesmas que se repetem por quatro décadas, criticando direitos humanos, afirmando que seus militantes defendem bandidos e blá, blá, blá, blá, blá, blá.

Há momentos, no entanto, em que juntar as peças isoladas se torna um exercício fundamental para que a figura do quebra-cabeças tenha algum significado. Não é nada muito complicado. Para compreender, basta deixar o medo e a raiva de lado.

Conforme as peças se encaixam, fica cada vez mais evidente como o personalismo e o voluntarismo dos policiais militares que se vendem como super-heróis serviram apenas para fazes rodar a engrenagem de mortes que fazem vítimas desde os anos 1970, inclusive integrantes da própria corporação. Em 19 anos, foram mais de 10 mil. Prega-se a “caça aos marginais”, como se o extermínio ajudasse a diminuir o total de criminosos nas ruas. Só que ocorre o inverso. O Estado, as leis e a Justiça ficam enfraquecidos. Aumenta a raiva contra essas instituições. A carreira criminal e a insubmissão à lei, a disposição para o tudo ou nada, acaba se tornando também uma forma de extravasar a raiva. Crescem as fileiras do crime.

A maioria dos PMs também acaba sendo prejudicada. A guerra incentivada por esse pequeno grupo voluntarista cria uma animosidade que atinge muitos policiais e civis que não estão envolvidos diretamente com os conflitos. Foi o que vimos em 2012, quando as disputas entre PCC e PM, motivadas principalmente por ações da Rota a partir do segundo semestre daquele ano, provocaram o assassinato de mais de 100 policiais e fez crescer o número de homicídios no Estado. O alerta e o receio de uma nova crise seguem vigentes.

Qual seria a alternativa? Em vez de pregar o confronto, o que fazem s boas polícias do mundo ao se deparar com um suspeito de praticar um crime? Ele é visto como um elo da ampla corrente criminal a ser desvendada. O que exige investigação. Nos dias de hoje, existem estruturas criminais complexas que fazem os crimes crescerem e se tornarem mais lucrativos – receptadores de mercadoria, atravessadores, lavadores de dinheiro, financiadores de ações criminosas, proprietários de armamentos, etc.

Os tiroteios ou assassinatos, normalmente, afetam os “linhas de frente” dessa rede, peças facilmente substituíveis. Sem falar dos casos em que as vítimas são inocentes. A mão de obra barata do crime morre no flagrante, enquanto a engrenagem criminal segue funcionando, recrutando outros jovens dispostos a arriscar a vida por nada. A polícia civil abre inquérito para um em cada dez casos de roubo ocorridos no Estado. O resultado é que as estruturas criminais continuam em plena atividade. Já a atividade policial, conforme os próprios policiais reclamam, restringe-se a um constante enxugamento de gelo.

Em 1999, entrevistei um garoto com menos de 20 anos que já havia matado gente o suficiente para perder a conta. São Paulo batia recordes consecutivos de homicídios e chacinas. Como não podia identificá-lo, pedi que me dissesse um apelido que ninguém conhecesse. “Wolverine”, ele sugeriu, numa época em que os episódios dos X-Men estavam longe de ter o sucesso de hoje.

A disposição para matar também o fazia se sentir um super-herói. Decidindo pela vida e morte de outras pessoas, ele assumia um superpoder que o diferenciava dos seres humanos comuns. Era um ex-humano, que se via um degrau acima na cadeia evolutiva. Um X-Man, que inspirou o nome do livro que publiquei em 2005, chamado O Homem X – Uma reportagem sobre a alma do assassino em SP (editora Record). O mundo para ele se dividia entre bons e maus. Para os inimigos, não havia perdão. Aqueles que não matavam e não participavam da guerra eram chamados pejorativamente de Zé Povinho, meros coadjuvantes no cotidiano violentos que viviam. Ainda fico assombrado com a semelhança no discurso com o dos policiais super-heróis.

Não precisamos desses super-heróis. Deixem que eles enganem a si próprios e inflem seus egos. Mas essa falácia não pode nortear as políticas públicas. Todos os especialistas concordam. São necessárias polícias que cumpram o ciclo completo. Precisamos de reformas, instituições que façam o patrulhamento ostensivo, mas também investiguem e colham provas. Em vez da guerra, teremos Justiça.