Depois da Ostentação: o que aprendemos de junho de 2013 a outubro de 2014
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Depois da Ostentação: o que aprendemos de junho de 2013 a outubro de 2014

Bruno Paes Manso

29 de outubro de 2014 | 13h45

Jogar golf com luvas brancas. Chegar a uma festa de helicóptero abraçado por mulheres de biquíni segurando taças de champanhe. Andar com plaquês de cem no bolso (o que significa plaquê eu só aprendi depois de ver o funk do MC Guimê), fumar charuto e beber uísque com Red Bull para se divertir. Se divertir muito. Nenhum movimento cultural e musical poderia representar melhor o espírito desta década do que o Funk Ostentação.

Nos anos 2000, o Brasil mudou muito com a transferência de renda dos programas sociais e pela ampliação do crédito. Entre 2002 e 2009, o total de pessoas da chamada classe C (com renda entre R$ 1 mil e R$ 4,5 mil) passou de 45,4% para 54%, ao passo que a Classe E (com renda até R$ 768) que representava 26% da população brasileira, corresponde hoje a 16%. Ao que parece, o tênis, as roupas, os celulares e os parelhos de televisão transcenderam os limites das classes sociais. Para adquirir esses bens de consumo, bastaria se endividar e dividir o valor da compra em infinitas prestações. A Teologia da Prosperidade dos neopentecostais já batia insistentemente na tecla do consumo como caminho para a inclusão e inserção social nos anos 1980 e 1990.

É nesse contexto de boas notícias que junho de 2013 rompe no Brasil como um asteroide vindo do espaço. Ok, vamos tentar melhorar a metáfora. Junho não veio do céu. A imagem pode ser a de um montinho de areia em aparente equilíbrio na praia (imagem que eu peguei emprestada de Eduardo Giannetti, que por sua vez pegou emprestada do físico Per Bak). Esse castelinho de areia era a nossa sociedade. Cai mais um grãozinho e o monte desaba.

A cena simboliza a capacidade do mundo em nos causar surpresas cotidianas. Existem na natureza estruturas em aparente equilíbrio, mas que estão, na verdade, a um pequeno detalhe do rompimento. Depois de desabar, o monte busca uma nova forma. São mudanças que se revelam de maneira explosiva, causadas por uma força aparentemente tão leve como o ar que se move com o bater das asas da borboleta.

Se em junho de 2013 a sociedade aparentemente seguia seu rumo de crescimento consistente de renda, havia uma vazio a ser preenchido. Como os trabalhos de Celi Scalon vêm mostrando, junho de 2013 simboliza a demanda pela etapa seguinte ao processo de crescimento da renda dos anos 2000. É o momento em que a presença e a qualidade dos serviços prestados pelo Estado começam a ser cobradas. Não adianta nada ter mais dinheiro e bens de consumo e seguir se sentindo vulnerável, com a vida solta no ar, sem nenhum apoio consistente.

A violência policial na quarta manifestação de junho de 2013 foi o grãozinho que faltava para desestabilizar o monte de areia. Não se tratava apenas dos 20 centavos, mas da reivindicação de um Estado mais presente e competente. Mais ou menos como a família que cobra a presença de um pai que saiu de casa e manda dinheiro para sustentar a família. Só dinheiro não basta. É preciso participar da educação e garantir o apoio moral e emocional para os filhos se sentirem mais seguros.

Muito já se discutiu sobre essas eleições. Creio que, se tentarmos juntar as peças do quebra-cabeça, poderemos ver como as urnas forneceram informações valiosas para refletirmos sobre esse processo político pelo qual estamos passando agora. Em um primeiro momento, os votos pareceram paradoxais. Afinal, se o Brasil clamava por mudanças, como explicar a reeleição de Dilma?

Dilma, no entanto, parece ter conseguido de alguma forma passar para mais da metade da população a imagem da mudança segura que se pedia. A renda e o crédito continuariam sendo garantidos aos brasileiros de baixa renda, mas haveria a necessidade de aumentar a qualidade e a eficiência dos serviços prestados pelo Estado. Essa transformação-conservadora aparentemente contraditória era, no final das contas, o principal desejo dos eleitores. Dilma simbolizou a mutação com estabilidade principalmente entre os brasileiros mais pobres. Aécio representava a mudança-segura principalmente para aqueles que viam no PT o principal empecilho para essas transformações.

Talvez eu seja otimista. Mas o Brasil não me parece dividido porque as duas metades do eleitorado parecem demandar essa tal de mudança-conservadora. A melhor qualidade e presença dos serviços do Estado para garantir uma sociedade mais igualitária é a demanda que me parece consensual. Algo como “A gente não quer só dinheiro, mas comida, diversão, arte, transporte, saúde e educação”. Esse movimento pós-ostentação pede mais igualdade, que depende de um Estado mais justo e competente. Só acho que, infelizmente, essa fase mais madura vai inspirar menos a criatividade dos músicos.

Abaixo, o Funk Ostentação Plaquê de Cem, de MC Guimê.

Depois, a música Comida, estilo Desostentação dos Titãs.

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