O que é a cracolândia para você? O mundo se divide em dois. A vida e o exílio
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O que é a cracolândia para você? O mundo se divide em dois. A vida e o exílio

Bruno Paes Manso

12 Agosto 2014 | 09h44

O mundo se divide em dois from Garapa on Vimeo.

A palavra cracolândia é uma “denominação abjeta, forjada para nos dar a impressão de que se trata de uma excrecência incrustada na cidade sem fazer parte dela”. Gostei muito desse trecho do texto que o médico Drauzio Varella escreveu neste fim de semana na Folha de S. Paulo, criticando o uso do termo para definir a região da rua Helvetia onde o consumo de crack ocorre diante de todos. Ele toca em uma tema fundamental: como explicar o fenômeno que chamamos de cracolândia em São Paulo?

Concordo que não deve ser definido como um lugar, mesmo estando há mais de 20 anos na região do Centro Velho. Nesse período, o fluxo dos usuários mudou de área de acordo com a intensidade da abordagem policial, se movendo intensamente como o facho de um canhão de luz no céu. Também acho, como afirmou Karl Hart ao Fluxo (ver abaixo), que a palavra reforça estigmas e o senso comum. Como podemos descrevê-la então? Eu a vejo como um exílio à vida na cidade, com todas as vantagens e sofrimentos que essa escolha acarreta.

Quando eu voltava de lá, impressionado depois de conversar com os frequentadores para reportagens sobre o tema, me vinha à cabeça a música Space Oddity, gravada em 1969 por David Bowie. A melancólica canção (ver abaixo) conta a história do astronauta que entrou em órbita e preferiu não voltar do espaço. Em contato com a Terra, Major Tom informa que desistiu. “Fiquem com Deus. Digam à minha mulher que eu a amo”, entoa Bowie, antes de Tom se perder no Cosmos. Um cara meio desajustado, provavelmente depressivo, que preferiu ficar no espaço.

A cracolândia é esse limbo, uma opção provisória ao suicídio. Salta-se para o escuro infinito.  Sempre havendo a chance de regressar ao solo firme. Se acharmos que vale a pena, se tivermos força, se formos aceitos e perdoados.  Há muitas barreiras para o retorno. Antes disso, os laços sociais vão sendo rompidos. Pais, esposas, maridos e filhos que ficaram para trás. A nave vai perdendo contato com a torre. Até que finalmente a pessoa está solta no espaço. No começo pode aparentar desprendimento, provocado por uma falsa sensação de liberdade. Mas se trata da mais pura solidão.

Usar a droga e ter picos fugazes de prazer é apenas o combustível que permite acordar todo o dia e continuar vivendo. O crack não é o mais importante. Entenda isso, leitor. Mesmo que a nova vida com a droga não tenha muito sentido, nesse espaço há regras, valores, horários, rotina. Não se rouba na vizinhança para evitar polícia. O tipo de cachimbo pode representar mais ou menos status. Há uma feirinha de produtos quebrados. O fluxo no meio da rua dá a impressão de que a festa não para. Assistentes sociais, ONGs, integrantes de igreja, consumidores, vendedores, policiais também são personagens dessa sociedade autossustentável, que encontrou um estranho equilíbrio para ser tolerada no cotidiano da cidade.

O sentimento de profunda solidão é comum entre todos, já que os novos laços são frágeis, forjados em decorrência do uso da droga. A volta à Terra exige a costura de laços antigos e novos, amarrados a partir da reconstrução da trajetória, com base em amor e respeito. Como se perdoar e ser perdoado pelo abandono? A resposta vai permitir a ressurreição.

Isso tudo me veio à cabeça quando assisti ao documentário O mundo se divide em dois (Ver acima), que acompanha a montagem do show Cabaret do Triunfo, na Virada Cultural deste ano, composto por participantes do programa De Braços Abertos e de artistas profissionais.

O show foi organizado pelo médico Flávio Falcone, que em setembro do ano passado eu conheci nas ruas do Centro Velho vestido como palhaço Fanfarrone. Ele definiu a região como a “sombra da cidade”, o fenômeno que preferimos fingir que não existe, escondendo em um canto escuro da mente. Mas o problema é real, mal resolvido, e sempre volta para nos assombrar.

No filme há um pouco dessas tristes histórias, um poucos das trajetórias dos astronautas que preferiram não voltar para terra ou que estão em processo de retorno. Longe de serem hedonistas, egoístas, vemos figuras fragilizadas. “Fui nóia. De rua. Consegui sair. Essa é minha música e esse é o meu povo. Eu sou mãe, sou velha, sou avó”, diz uma senhora no filme, que eu já conhecia da rua, de outras entrevistas. Assista para conhecer um pouco mais dessa cidade de alma atormentada a partir dos personagens de lá.

Não sei dos últimos resultados do programa. No mesmo artigo, Drauzio Varella escreveu que as ruas voltaram a ficar cheias, em níveis semelhantes aos de antigamente. Não estive lá nas últimas semanas. Não é isso o que mais me interessa nesse post. Mesmo passando por dificuldades, a ideia do programa não pode se perder. Porque propõe a reconstrução de identidades e  histórias a partir da participação daqueles que vivem nesse exílio. Estão se criando conexões no espaço que antes se preenchia de vazio, sem a existência de laços ou com frágeis ligações com a Terra.

Do diálogo, surgirá a possibilidade de acordos. Se quiserem voltar, haverá oportunidades aos astronautas. Que seja aos poucos, se for o caso. Mas que o consumo deixe de ocorrer no espaço público, que precisa ficar livre para os demais habitantes da cidade. Os acordos devem prosseguir, assim como o respeito mútuo.

É pelo diálogo que o mundo vai deixar de se dividir em dois, podendo voltar a ser um só.

Sapce Oddity

Karl Hart e o termo cracolândia

Como surgiu a cracolândia?