Sentado com os Black Blocs no divã. Um ano depois, aonde essa raiva vai nos levar?
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Sentado com os Black Blocs no divã. Um ano depois, aonde essa raiva vai nos levar?

Bruno Paes Manso

23 de junho de 2014 | 10h18

Na quinta-feira, o MPL foi às ruas para celebrar um ano da redução das tarifas. A passeata era para ser festiva e foi animada, com cerca de 2 mil pessoas em marcha. Mas o balanço das conquistas não fez parte das pauta dos jornais, televisões e internet. Ainda estamos longe de compreender o significado das jornadas de junho no Brasil. No dia seguinte, os carros e os vidros quebrados no fim dos protestos pelos adeptos da tática black bloc ganharam destaque. Mesmo sem que tivessem muito para dizer, os black blocs acabaram monopolizando os debates.

Na segunda semana de junho, eu mediei um debate na Livraria da Vila sobre o livro Black Blocs, do escritor canadense Francis Dupuis-Dèri (editora Veneta). A capa do livro é a da foto abaixo. Estavam na mesa os professores Pablo Ortellado (filósofo da USP), Esther Solano (socióloga da Unifesp) e Henrique Carneiro (historiador da USP). Pelo que pude interpretar, todos admitiam que o recado passado atualmente pelas depredações e pela ação direta trazia prejuízo político para as demandas dos movimentos sociais.

O professor Henrique Carneiro foi o mais contundente, argumentando que a tática black bloc abria espaço para o fortalecimento de ideologias fascistas, que passaram a ganhar força no debate político nacional. Segundo ele, a ação dos black bloc também ajudava a criminalizar esses movimentos, cujos integrantes passaram a ser perseguidos e processados pela polícia e pelo ministério publico.”Qual a mensagem que está sendo passada pela violência nas manifestações?”, questionou professor.

Ficou no ar a pergunta que faz meses vem quicando em nossa frente, inclusive entre os próprios coletivos. Será que o individualismo exacerbado das decisões dos adeptos da tática black bloc está atrapalhando a luta coletiva dos movimentos sociais? Até que ponto o anonimato permite egotrips de todo o tipo, descoladas de qualquer significado político?

Quando os jovens de preto agem por si próprios, o que ocorreu diversas vezes no decorrer do último ano, é como se o ódio ao sistema passasse a se justificar como um fim em si mesmo. A raiva se torna um sentimento estéril, que acende e apaga como um palito de fósforo que queima o dedo de quem o segura. É diferente quando a raiva é usada como um meio para se alcançar um fim, como ocorreu na parceria com o MPL nas jornadas de junho. Naquele momento, foi a depredação dos mascarados misturados aos coletivos que provocou a reação exagerada dos policiais. O excesso da PM insuflou as passeatas seguintes e catalisou o processo de redução das tarifas.

No decorrer do tempo, esse ódio se perdeu e foi se esvaziando de sentido. A estética do quebra-quebra e dos homens de preto mascarados acabou, inclusive, abrindo espaço para situações estranhas. Na manifestação de quinta-feira, houve reclamações entre os próprios depredadores pelos rojões disparados no meio da multidão. Não foi justamente um rojão que provocou a morte de um cineasta no Rio de Janeiro? Na visão dos críticos, o anonimato estimula a falta de compromisso com os ideais do grupo (que, em tese, condena a violência contra o indivíduo), dando margem a esse tipo de comportamento inconsequente.

Outra cena bizarra ocorreu no dia da abertura da Copa. Em meio à adrelalina dos black blocs, um jovem cheio de testosterona, que defende ideias fascistas em seu perfil no facebook, decidiu brilhar na ribalta. Foi para frente das câmeras para provocar a Tropa de Choque da PM, em um exibicionismo vazio (veja abaixo). O mais impressionante é o circo armado de jornalistas em volta dele. Era inevitável. É lá que eu também estaria se estivesse cobrindo os protestos. À espera de revelar, a partir daquela ação isolada, o resumo distorcido dos protestos ocorridos durante o dia. Resumo que deixaria de fora as discussões levantadas pelo Comitê Popular da Copa e pelos Metroviários, protagonistas dos protestos.

Não deixa de ser irônico como a própria imprensa, uma das instituições que critica o excesso nas manifestações, acaba estimulando a estética do confronto e do quebra-quebra, mesmo que involuntariamente. Afinal, desde sempre, quanto mais violentos os atos, maior o destaque nas televisões e nos jornais. Veja que coisa: atos violentos são notícia. Atos pacíficos, não.

Como resultado, a depredação acaba se justificando como uma estratégia para dar visibilidade às demandas políticas de certos grupos. Meu colega Daniel Piza do Estadão tinha uma frase sobre o dilema dessas escolhas editoriais cotidianas: “O jornalista cria o monstro, depois é engolido por ele”. Como escapar dessa lógica? Não sei. A violência e sua estética são a notícia mais fácil e óbvia. A impressão é que nunca vamos nos livrar dessa simplificação.

Para finalizar, falando em Daniel Piza, me lembro de Machado de Assis. Mais precisamente do livro Memória Póstumas de Brás Cubas, no capítulo o Vergalho. Nele, Brás Cubas se encontra com Prudêncio, seu antigo escravo. Depois de livre, Prudêncio também comprou um escravo, a quem dispensava os mesmos maus tratos que recebeu quando cativo.

Prudêncio não conseguiu escapar da lógica violenta do sistema. Quando ficou livre, em vez de criar algo novo, apenas reproduziu a ação da qual era vítima. Prudêncio me lembra os black blocs. E assim reafirmamos nossa condição de sociedade sadomasoquista. Formada por classes que há mais de 400 anos vivem em função dessa relação que divide o mundo entre os que batem e os que apanham.

 

 

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