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Clima sinistro na véspera da manifestação contra a Copa

Bruno Paes Manso

21 Fevereiro 2014 | 10h03

Um clima sinistro voltou a impregnar o ar às vésperas da segunda manifestação do ano contra a Copa do Mundo em São Paulo. Já não bastasse a morte de Santiago Andrade no Rio, há duas semanas, a temperatura parece esquentar conforme o evento se aproxima. Manifestantes e advogados reclamam que as próprias autoridades paulistas estão contribuindo para tensionar o ambiente. Parte dos manifestantes, por sua vez, parece não desapegar da tática da depredação, como se a estratégia fosse mais relevante do que o próprio objetivo político a ser alcançado.

Esse clima de tensão é preocupante. Já vimos em junho os riscos para uma manifestação quando policiais agem emocionalmente. O mesmo vale para o outro lado. É melhor quando o protesto sabe aonde se quer chegar, como aprendemos no ano passado com o Movimento Passe Livre (MPL). Mas parece que a gente não aprende. Espero estar enganado e torço para que as manifestações deste sábado sirvam fundamentalmente  para expressar a indignação de parte da população diante de um evento em que milhões de reais serão torrados, reforçando a imagem de que nossas prioridades seguem equivocadas. Confirmaram presença no Face book mais de 12 mil pessoas para o ato das 17 horas na Praça da República. O efetivo da PM também será caprichado.

Dois fatos contribuem para piorar o clima antes dos protestos. Hoje, a Secretaria de Segurança Pública avisou que a PM vai explodir no Barro Branco a bomba que estava na mala de Fabrício Chaves, o jovem baleado por policiais depois de fugir de uma abordagem na primeira manifestação, no dia 25 de janeiro. O teste ocorrerá diante das câmeras de televisão. Fabrício foi atingido por dois tiros por PMs que disseram ter reagido em legítima defesa a um ataque de estilete. O estoquista, que chegou a ter alta do hospital depois de ficar entre a vida e a morte, voltou a ser internado esta semana com infecção urinária.

“Explodir a bomba será obstrução à Justiça. Eu não tive acesso às provas. Liguei para o delegado do caso, que também não está sabendo do teste. É um linchamento que estão fazendo contra o Fabrício, típico da época da Ditadura” diz o defensor público Carlos Weis, que atua no caso. O defensor levanta uma questão legítima: por que armar o circo justamente antes do segundo ato contra a Copa?

Em outra frente, a Polícia Civil enviou uma série de intimações para manifestantes detidos em protestos anteriores sob suspeita de depredação (e também pessoas que nunca foram detidas, identificadas a partir de redes sociais) para comparecerem às 16 horas na Delegacia Geral de Polícia (Deic) prestar depoimentos. Assim como os policiais ingleses faziam com os hooligans em dias de jogos de futebol, a medida busca tirar das ruas os acusados de usarem táticas black blocs em protestos anteriores.

Defensores e advogados reclamam da postura das autoridades, que estariam cerceando o direito deles de se manifestar. “Por que chamar bem na hora do manifesto, em um bairro distante? O DEIC tem outros crimes para investigar. Não havia a necessidade de marcar as intimações para o sábado à tarde. A não ser que a ordem tenha vindo de cima”, afirma o advogado Brenno Tardelli, integrante do coletivo Advogados Ativistas.

A situação não parece mais amena entre aqueles que vão protestar. No site do evento de sábado, foi colocado o nome, a foto, os telefones e o endereço de uma mulher acusada por internautas de ter passado dados de suspeitos de integrarem os black blocs à polícia. Uma atitude temerária, de dar arrepios.

Nesses momentos, pelo menos essa é minha crença, o papel do jornalismo não é se posicionar. Mas tentar descortinar o conflito e compreender cada um dos lados envolvidos. Como se fosse um drone sobrevoando por cima da confusão para descrever afastadamente o cenário visto de cima.

Montando esse quebra cabeça, no atual momento, de um lado, estão os policiais, responsáveis por manter a ordem. Apesar de quase sempre decepcionar nossas expectativas, a PM pode provar no sábado que, oito meses depois das primeiras passeatas, aprendeu a agir com profissionalismo e inteligência diante de eventuais depredações. Ninguém pede aos policiais para prevaricar. Espera-se o básico. Por exemplo: caso haja detenções, que sejam indiciadas pessoas que de fato estejam desrespeitando a lei. Caso as prisões ocorram, que não se jogue gás de pimenta dentro do camburão para sufocar os presos; que não sejam dados chutes em pessoas imobilizadas e no chão, como se pode testemunhar em outros protestos. Que se use, enfim, o uso legítimo da força se necessário. Legítimo em uma democracia.

Para coibir esses arroubos emocionais das autoridades, aliás, os manifestantes estão convocando os demais a tirarem fotos de PMs sem identificação no uniforme para serem postadas na internet. A identificação é uma exigência legal.

Já do lado dos manifestantes, será a hora de vermos se eles ainda persistem nas táticas black blocs, altamente desgastada frente à opinião pública. O problema não é a bandeira levantada por aqueles que vão para as ruas. Pelo contrário. Os protestos contra a Copa parecem ter apoio do público. Na semana passada, pesquisa da Confederação Nacional dos Transportes apontou que  75,8% discordam dos gastos realizados para viabilizar o evento. Já 51% disseram que seriam contra a candidatura brasileira se a Copa fosse hoje. Raras contestações conseguem ir politicamente fundo. É como se a Copa representasse nossa eterna fuga da realidade.

O questionamento, no entanto, diz respeito fundamentalmente aos meios usados para propagar essa ideia. Parece que só a tática black bock presta. Mais violência para que, nesse momento em que estamos saturados? Qual a mensagem simbólica que a depredação das vidraças de um banco podem passar? Será que é a mensagem que de fato interessa aos que estão nos protestos? Não deixa de ser interessante o debate sobre o valor simbólico desse tipo de ação. Mas a violência parece cada vez mais se revelar como o sintoma de Brasil paralisado, que não amadurece. Para que reforça-la? Talvez tenha chegado a hora de se encontrar outros caminhos. E avançarmos politicamente.