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Um ano depois, perícia começa a derrubar versão de que jovem algemado se matou

Bruno Paes Manso

30 Setembro 2014 | 08h56

Um ano depois, novas análises periciais começam a jogar luz sobre a história de José Guilherme da Silva, que morreu aos 20 anos dentro de uma viatura da PM com um tiro na cabeça. O caso aconteceu há um ano, quando ele estava a caminho de uma delegacia de Limeira.

Esta semana, mais um importante capítulo do CSI brazuca veio à tona. O blog SP no Divã teve acesso ao novo laudo, que informa que o tiro que atingiu a cabeça do jovem não foi dado à curta distância. Além disso, corpo da vítima, roupas, armas e local do crime foram alterados e prejudicaram a coleta de provas.

José Guilherme foi preso em 14 de setembro do ano passado por suspeita de assalto e tentativa de latrocínio. Os policiais o pegaram em uma moto, nos arredores onde o assalto havia ocorrido. Antes de entrar na viatura, foi revistado na frente de dezenas de pessoas, incluindo seus familiares. Depois, segundo as testemunhas, ele entrou desarmado e algemado no carro da Força Tática.

Os policiais que o transportavam disseram que, mesmo com as mãos presas atrás do corpo, o jovem se matou. Os familiares contestaram a versão oficial e disseram que José Guilherme  foi executado com um tiro na cabeça.

O primeiro laudo dos peritos pouco acrescentou para elucidar o crime. Na verdade, a impressão é de que o documento força as tintas para inocentar os policiais. O técnico do Instituto de Criminalística de Limeira preferiu se concentrar na descrição do modelo da algema, que seria mais flexível e até permitiria ladrões hábeis atirarem em si próprios. Ele também calculou a distância do disparo em cerca de 50 centímetros, que corresponderia mais ou menos à distância de alguém que atira na cabeça com as mãos algemadas para trás.

Um novo laudo foi pedido pelo Instituto de Criminalística, depois que este blog mostrou as contradições e falhas que envolviam o caso. Seguem dois trechos do novo laudo:

“Ou seja, além do quadro inidôneo que se manifesta no local (…) encontrava-se despreservado por se tratar da hipótese de suspeição que recai sobre os policiais militares. A vítima encontrava-se removida da viatura a pretexto de ação de socorro, despida e sem algemas e a arma relacionada com a corrrência encontrava-se no banco de passageiros. A viatura encontrava-se deslocada do local imediato do disparo. A conformação das manchas de sangue examinadas na viatura podem  ter sido modificadas em razão da ação de socorro ou por qualquer outra que a descaracterize. As algemas foram disponibilizadas pelo próprio policial militar que a portava”.

Em relação à distância do disparo, o novo laudo necroscópico que corrige o primeiro afirma:

“o ferimento da entrada do projeto na cabeça da vítima encontrado não apresentava os sinais secundários indicando que o disparo não foi efetuado a curta distância ou que foi efetuado com algum tipo de anteparo entre a arma e a vítima”.

Tão chocante quanto o ato em si, caso a execução seja comprovada, foi o esforço de todo o sistema de segurança pública para que a verdade não aparecesse. Guardada as devidas proporções, a situação lembra a discussão que envolveu o episódio do Massacre do Carandiru, ocorrido no dia 2 de outubro de 1992. O absurdo não ficou restrito aos 111 mortos pela polícia militar dentro do presídio. Outro absurdo foi a tolerância ao fato de que todos os policiais envolvidos passaram horas dentro do presídio lavando o chão, recolhendo as cápsulas e tirando os corpos dos lugares onde morreram.

O tradicional arredondamento da cena do crime, que na gíria de policiais significa apagar e forjar as evidências para que não haja punição. Ao mesmo tempo, a prática permite os envolvidos a afirmarem que agem dentro da lei, para que seus superiores e a opinião pública possam fingir que está tudo bem. É assim que estamos nos tornando um dos povos mais cínicos do mundo.