Assassinato de morador de rua em Rio Preto por PM mostra como ações covardes ameaçam a corporação
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Assassinato de morador de rua em Rio Preto por PM mostra como ações covardes ameaçam a corporação

Bruno Paes Manso

05 Março 2014 | 09h42

Um morador de rua foi assassinado por um Policial Militar que estava de folga em São José do Rio Preto na quinta-feira antes do carnaval. No dia seguinte, outros dois moradores de rua que testemunharam contra o policial disseram que foram ameaçados pelo autor do crime. O PM acusado nega a versão das vítimas e diz que matou um deles em legítima defesa. Nos próximos parágrafos, segue mais uma história onde provavelmente serei criticado por “defender moradores de rua” e por apontar as falhas e focar os holofotes nos abusos cometidos pela PM.

Pela reação que tenho lido no blog, é como se as críticas prejudicassem a corporação. Acredito no contrário: a PM está em xeque e se fragiliza porque existem pessoas que preferem fechar os olhos e agir de forma corporativista diante de acusações graves como esta.

Neste episódio, tudo começa quando um PM em folga, a serviço dos comerciantes locais (sim, a relação promíscua com o patrão dos bicos se tornou um gravíssimo problema na PM), é chamado para ir à Praça da Figueira, no centro de Rio Preto, para expulsar três moradores de rua que dormem no local – Laércio, Bruno e Rodrigo. Bruno foi morto a tiros. No dia seguinte ao crime, Rodrigo contou na delegacia que eram 2h30 da madrugava quando dois homens abordaram ele e seus dois companheiros sentados no banco da praça. Um dos policiais estava armado com uma pistola e mandou que eles deixassem o local. Segundo Rodrigo, o policial cheirava a álcool. Eles saíram da praça depois de serem ameaçados.

Quando olharam para trás, contudo, viram que os policiais estavam juntando roupas e objetos dos moradores de rua para transformá-los em uma grande fogueira no centro da praça. Bruno passou a bater boca com o policial pedindo suas coisas de volta. Foi novamente ameaçado por eles e saiu correndo para o outro lado da rua. Nervoso e humilhado, ele pegou duas pedras e jogou em direção aos policiais (não acertou, segundo Rodrigo). Logo em seguida, as testemunhas ainda ouviram Bruno reclamando em voz alta: “vai embora capeta!”. Quando Bruno virou de costas, o policial seguia em sua direção e disparou contra a cabeça dele, que caiu no chão, morrendo em frente aos seus colegas de praça.

Na delegacia, o policial militar negou que seja verdadeira a versão dos moradores de rua. Ele diz que reagiu porque teria sido atacado com uma faca. É lamentável, em primeiro lugar, eu ter que desconfiar de antemão do depoimento do policial. Isso não ocorre por causa de eventuais preconceitos meus em relação à corporação. Mas é resultado de mais de 40 anos de história, período em que milhares de falsas versões foram montadas para tentar inocentar policiais envolvidos em casos suspeitos. As farsas se tornaram regra em vez de exceção. Os que trabalham corretamente e são honestos em seus testemunhos, infelizmente, acabam pagando preço. No caso, para piorar, é difícil acreditar que um morador de rua atacaria com uma faca um homem armado de pistola. Por falar em versões fantasiosas, aliás, quantos policiais já foram punidos pela prática desse crime recorrente?

Nos dias que se seguiram ao episódio, Laércio voltou à delegacia e disse que foi ameaçado de morte pelo policial autor do homicídio de Bruno. “Negão, você está falando demais. O próximo vai ser você”, foi o que disse o policial, na sexta-feira, quando Laércio voltava do almoço na Instituição Madre Tereza de Calcutá. Para Bruno, o policial disse: “o que você tem contra mim?”. Uma bala ponto 40 foi levada aos investigadores pelos moradores de rua para ajudar nas investigações.

Menos de um mês depois de começar o blog, chega a ser cansativo ter que tratar novamente de assunto ligado a ações suspeitas da Polícia Militar. Gostaria e tenho o objetivo de abordar outros temas. Mas é impossível não falar deste caso diante da desproporção de forças no conflito em curso. De um lado, policiais e uma corporação que parece aceitar com naturalidade a postura do suspeito de praticar o crime, mesmo sendo acusado depois de ameaçar de morte as testemunhas. A não ser que haja repercussão na imprensa, a  ineficiência do judiciário se encarregará de garantir que nada aconteça e que ninguém seja punido. Se houver repercussão, as esperanças de que se faça Justiça não aumentam muito.

De outro lado, abandonadas à própria sorte, com os dias contados, marcados para morrer, fazendo hora extra na terra, as vítimas, que parecem serem culpadas da própria morte. Se não fosse a  mobilização de grupos de direitos humanos em Rio Preto, o assunto transcorreria nas sombras. As luzes sobre o caso, nesse momento, fazem a diferença. Foi criada uma página no face book para acompanhar o caso. Chama-se Movimento Pelo Sangue de Bruno (https://www.facebook.com/pelosanguedebruno?fref=ts).

Os jornais locais entraram na história e a Ouvidoria passou a se manifestar sobre o caso. Caro comentarista do blog, se você defende a polícia, acredito que vá cobrar apuração rigorosa para saber o tamanho real dessa covardia. Ou você acha que um policial que mata morador de rua deva ser mantido impune trabalhando na corporação? Que a tolerância a esse procedimento melhora a credibilidade e a eficiência da PM?

A vida de Laércio e de Rodrigo, além disso, testemunhas do caso, deveria ser vista dentro da PM como questão de honra para a sobrevivência da própria corporação. Já vimos testemunhas morrerem em outras ocasiões recentes. Cada vez que isso acontece, mesmo que aqueles que aplaudem a violência não percebam, uma pá de terra é jogada sobre o futuro da corporação.