As ameaças da Irmandade Homofóbica no Piauí. Comunidade LGBT em risco
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As ameaças da Irmandade Homofóbica no Piauí. Comunidade LGBT em risco

Bruno Paes Manso

26 de junho de 2014 | 09h10

A cidade de Teresina, capital do Piauí, tem cerca de 800 mil habitantes. Em agosto do ano passado, 100 mil pessoas foram às ruas durante a Marcha da Diversidade. A cantora Daniela Mercury, que havia recentemente assumido seu amor por outra mulher, encerrou a festa de forma épica. Sair do armário em Teresina não parecia ter o mesmo peso que em 2002, primeiro ano da marcha, quando 1 mil militantes corajosos mostraram suas caras no evento. Dar visibilidade a causa na luta por identidade tem sido uma das grandes conquistas políticas do movimento LGBT.

Só que, assim como acontece em outras capitais brasileiras, a tolerância festiva e popular esconde o mal estar de uma minoria raivosa. Os sintomas começaram a despontar no primeiro semestre deste ano. Ainda em março, quando algumas mulheres preparavam a terceira edição da Marcha das Vadias (que este ano foi batizada no Piauí como Batuque Feminista), elas passaram a receber ameaças pelas redes sociais (Foto abaixo). Cometários impublicáveis de incentivo à violência sexual foram feitos por internautas, levando a polícia a aumentar a segurança na manifestação. Não houve agressões.

 

Com o susto, algumas peças do quebra-cabeças começaram a se juntar. No mês anterior, cartazes espalhados por alguns pontos da cidade já convidavam interessados a ingressarem na Irmandade Homofóbica, organização virtual que prega ódio aos gays, lésbicas e travestis. Até um telefone de contato foi colocado no cartaz. A ativista Marinalva Santana, uma das coordenadoras do Grupo Matizes, que desde 2002 milita na área, foi à imprensa local denunciar o perigo. Também passou a ser ameaçada nas redes sociais.

O perfil falso que fazia as acusações em nome da tal Irmandade Homofóbica usava o pseudônimo Van Pelth com a foto de um blogueiro que havia sido preso pela Polícia Federal em Curitiba em 2012 sob acusação de incitar crimes contra negros, gays, mulheres e comunistas, mas que atualmente se diz arrependido e que não estava ligado às ações.

No começo deste mês, outra ameaça foi enviada por mensagem de celular ao presidente do Conselho Municipal LGBT de Teresina dizendo que todos os integrantes seriam eliminados.

A polícia civil vem acompanhando o caso de perto. Chegou a colher depoimentos de jovens que fizeram comentários na página da Irmandade Homofóbica contra os ativistas. Foram quebrados sigilos telefônico e do IP para identificar os autores das mensagens e houve autorização da Justiça para apreensão ne computadores de suspeitos. Mas ainda faltam chegar dados complementares  da perícia para se chegar a convicções mais firmes. Desde 2006, há no Piauí uma delegacia especializada em crime contra os Direitos Humanos.

O titular da delegacia, Francisco Sebastião Escórcio, afirma que este ano a violência contra a população LGBT no estado aumentou. Foram feitos no primeiro semestre 40 boletins de ocorrência de injúria, agressões e notificações de chantagens. “Estamos acompanhando de perto essas ameaças”, diz.

Os militantes, no entanto, estão com receio. Alegam demora na obtenção de resultados, em casos que vem se repetindo com mais frequência. Entre agosto e outubro do ano passado, houve uma sequência de agressões contra travestis em Teresina. O receio de muitos deles em depor prejudicou a investigação. O culpado permanece solto.

Comparado a outros estados brasileiros, o Piauí fica em quinto lugar no ranking entre os com maior número de denúncias de agressões de todo tipo contra a população LGBT, segundo Relatório sobre a Violência Homofóbica no Brasil em 2012 (relatório completo está aqui).

Segundo o mesmo relatório, o Estado também é um dos que mais registrou assassinatos contra a população LGBT relacionados a supostas motivações de discriminação. Também fica entre os cinco primeiros, atrás de Paraíba e Alagoas. No primeiro semestre deste ano, foram seis ocorrências no Estado. A crueldade costuma ser uma das características desses assassinatos. Em dois deles, os órgãos genitais das vítimas foram cortados. Em outro caso, um travesti teve o crânio esmagado antes de ser jogado numa vala.

Marinalva afirma que esse histórico de truculência a leva a ficar bastante preocupada com a sua segurança e com a dos demais militantes. Ela atualmente está com licença não remunerada das aulas que dava à noite. Também mudou o lugar das reuniões do grupo que coordena e evita sair à noite. Definitivamente, não é um bom ano para a causa LGBT no Piauí, que ainda enfrenta outros desafios. A Marcha da Diversidade deste ano, prevista para agosto, pelo primeiro ano pode deixar de ocorrer por falta de recursos. “Vamos tentar fazer uma feira cultural para discutir o tema. É importante manter o assunto em pauta”, diz.

PS: Eu não me canso de postar esse vídeo quando o assunto é diversidade sexual e violência. O vídeo foi feito por funcionários da Pixar em uma campanha para desestimular o bullyng e o suicídio nos grupos LGBT na adolescência. Por ignorância e incompreensão, muitos parecem não perceber que a diversidade não é uma discussão moral, como esse pequeno documentário ajuda a enxergar. Trata-se daquilo que a pessoa é, que aparece ao longo de uma profunda jornada de autodescoberta. Conforme as pessoas se descobrem e se aceitam, a vida fica muito melhor, como mostram os depoimentos abaixo. Como um pichador não cansa de escrever pelos muros de SP: O amor é importante, porra!

No caso dos autores da violência, só há a pergunta: o que esses atos dizem a respeito deles próprios?

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