Acusado de integrar esquema que desviou um R$ 1 BI, Waldez deve ser eleito no Amapá
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Acusado de integrar esquema que desviou um R$ 1 BI, Waldez deve ser eleito no Amapá

Bruno Paes Manso

23 de outubro de 2014 | 09h16

 

O mundo dá voltas. Só que no Amapá os giros ocorrem em velocidade tão alta que me deixam tonto. Parece que foi ontem que estive no Estado para testemunhar a prisão do político que atualmente é o candidato favorito na eleição para governador. Entre setembro de 2010 e outubro de 2011, fui algumas vezes a Macapá acompanhar a Operação Mãos Limpas e seus desdobramentos. A operação foi deflagrada na véspera das eleições estaduais de 2010. Malas de dinheiro e carros luxuosos como Ferrari e Maserati estavam entre os bens apreendidos com os suspeitos.  O inquérito era um show de horrores com casos de prostituição infantil e suspeitas de assassinatos.

Para fazer 18 prisões temporárias e oito preventivas, a Polícia Federal recrutou 700 homens que viajaram 22 horas pelo Rio Amazonas numa operação que custou R$ 1 milhão. O uso de um navio  buscava garantir o sigilo da ação que prendeu alguns peixes graúdos da elite local, como o então ex-governador Waldez Góes, que havia renunciado para concorrer ao senado, e seu sucessor, Pedro Paulo. Também foram para trás das grades a ex-primeira dama Marília Góes e o presidente do Tribunal de Contas do Estado, José Júlio de Miranda. O inquérito analisou duas toneladas de materiais e documentos. Chegou à conclusão, um ano depois, que a suposta quadrilha havia desviado R$ 1 bilhão em recursos públicos ao longo de dez anos.  Você é capaz de imaginar, caro leitor, o que R$ 1 bilhão representa para um Estado como o Amapá?

Waldez, que havia governado entre 2003 e 2010, era apontado como peça-chave no esquema. Fiz mais de dez matérias detalhando os absurdos administrativos a partir dos vídeos e provas colhidas pela PF. Falei com a população, fui a hospitais e escolas. Faltava pessoal, merendas e remédios. Quase não há esgoto no Estado, o que é temerário para o Rio Amazonas, que banha a capital, imenso como um oceano. Em períodos de maré seca, grande parte do rio desaparece e surge uma lama, na qual são realizados torneios de futlama.

O escândalo revelado pela Mãos Limpas fez parte da sociedade amapaense se mobilizar. Movimentos contra a corrupção foram criados. Randolfe Rodrigues, o jovem senador do PSOL, ganhou a eleição daquele ano e foi representar os amapaenses em Brasília. Parecia que finalmente as lideranças locais haviam se envergonhado depois de tamanha exposição. Mas não, acho que entendi tudo errado. Waldez é o favorito para ganhar as eleições de domingo, de acordo com as pesquisas. Sua mulher, Marília Góes, foi a deputada estadual mais votada. Na campanha, os dois disseram que eram inocentes.

Minha opinião é de um forasteiro, que enxerga tudo com enorme frustração. Também não sou de julgar 0u de achar que a corrupção é o único assunto a ser discutido na política. Só que esse caso é um soco no estômago. Ficam apenas perguntas e mais perguntas. A população amapaense é tolerante com a corrupção e com os desvios bilionários? As acusações da Polícia Federal foram injustas? O trabalho da imprensa e a publicidade do escândalo não adiantaram de nada? Waldez, Marília e a suposta quadrilha eram inocentes ou menos culpados do que pareciam? Mesmo com todos os desvios, eles foram políticos competentes? O que eles representam ou simbolizam para os eleitores que os escolhem? O governo de Camilo Capiberibe, que tenta a reeleição, foi desastroso a ponto de trazer Waldez de volta ao palco? O que Camilo fez (ou não fez) para ser preterido?

Gostaria muito de obter respostas. Elas certamente me ajudariam a conhecer mais o Brasil e a compreender uma infinidade de coisas que eu nem sequer imagino.

Abaixo segue o vídeo que eu e o fotógrafo Thiago Queiroz fizemos a partir de imagens exclusivas da operação.

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