A prova irrefutável de que o Brasil tolera o assassinato de pobres e negros. Veja e assuma
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A prova irrefutável de que o Brasil tolera o assassinato de pobres e negros. Veja e assuma

Bruno Paes Manso

10 de novembro de 2014 | 09h02

 

Ainda não consegui me esquecer do depoimento de Vera Lucia dos Santos no documentário À Queima Roupa, de Thereza Jessouron, que estreia na quinta-feira, dia 13, nos cinemas de São Paulo. Para falar a verdade, não vou me esquecer nunca mais. Vera está toda vestida de preto e sua figura tem a sobriedade das matriarcas evangélicas dos bairros pobres brasileiros. Ela tem uma mistura de negro com índio. Morava em Vigário Geral quando, em agosto de 1993, 21 moradores do bairro foram assassinados por policiais. Oito vítimas eram de sua família.

Seu pai, sua mãe, cinco irmãos e a cunhada haviam acabado de chegar em casa depois do culto. Foram executados a sangue frio pelos policiais. Apenas três crianças de menos de cinco anos foram poupadas. Com seus pijaminhas de ursinhos e palhacinhos, eles vão pedir socorro na casa vizinha à da tia. No filme, Vera conta como encontrou os corpos de seus parentes depois da chacina. A mãe estava com a bíblia na mão. O irmão morreu de joelhos, segurando os documentos que tentou mostrar para a polícia. Uma das irmãs iria se casar em alguns dias. Outra, lançaria um CD evangélico. Teve os dedos quebrados pelos policiais a irmã que tentou defender os pais.

Peço ao leitor, com todo o respeito, um esforço de abstração. Imagine uma vingança com tal crueldade praticada pela polícia contra moradores de Pinheiros, em São Paulo, do Leblon, no Rio, ou Stella Maris, em Salvador. Pais formados em universidades públicas, com seus filhos em colégios privados, todos brancos, sete corpos estendidos na sala de jantar para saciar a vingança e o ódio dos policiais marginais. Não sejamos hipócritas. Isso seria inconcebível. É inimaginável. O Estado não toleraria as consequências.
Só toleramos as cenas do documentário À Queima Roupa, que se repetem com absurda frequência no Brasil, porque as vítimas são negras e pobres das periferias brasileiras. Assista ao documentário e assuma a realidade para si mesmo. É a prova irrefutável. Apenas um cínico ou mentiroso seria capaz de negar.
Ainda na cena de Vigário Geral, conforme Vera descreve detalhadamente a posição dos corpos de seus familiares, o documentário mostra as fotografias feitas na época pela perícia policial. A sobreposição de imagens e narrativa é um soco no estômago: por onde escorria o sangue da irmã, qual a parte do corpo do irmão estava ferida, etc. As cenas ficaram intactas na memória de Vera. Bem como, a maneira como estava o céu, o período da lua, as últimas palavras ditas ao pai. Vera foi condenada pelo sistema a carregar nos ombros por toda a vida uma cruz maciça que pesa toneladas. Só conseguiu aliviar o peso graças à grandeza de seu espírito, que perdoou os assassinos.
As 21 pessoas foram assassinadas em Vigário Geral em vingança pela morte de quatro soldados que tinham sido executados por traficantes na noite anterior. Homens, mulheres e crianças foram mortos em Vigário Geral apenas por viverem no mesmo bairro onde o policial foi atacado. Na época, houve indignação. O Rio era governado por Leonel Brizola e Nilo Batista era o Secretário de Segurança. Ambos reagiram com firmeza, pressionando para que os identificados fossem encontrados e punidos.
Só que os anos se passaram. E as vinganças e assassinatos aleatórios de pobres voltaram a ocorrer. Em janeiro de 2005, 30 pessoas foram assassinadas por policiais na Baixada Fluminense. No ano anterior, cinco adolescentes tinham sido mortos no Caju. Em 2007, subi o morro no Complexo do Alemão e testemunhei o dia seguinte da execução de 19 moradores locais. Casas de mulheres e idosos invadidas pela polícia para servir de trincheira. Rádios de carros roubados, comerciantes extorquidos, crimes rasteiros praticados contra os pobres do Alemão por policiais com carta branca da sociedade para matar.
Em São Paulo, houve o Carandiru, em 1992, com 111 mortos. Mais recentemente, depois dos ataques do PCC em 2006, 493 pessoas morreram por disparos de arma de fogo no começo de maio. Trabalhadores, pegos no meio das ruas de bairros pobres. Policiais jogando roleta russa com o destino para assassinar aqueles que por infelicidade estavam nas ruas das periferias. As Mães de Maio são o resultado da mobilização contra essa covardia, que continua se repetindo.
Assistir ao filme foi especialmente cruel porque no dia anterior nove pessoas haviam sido assassinadas em bairros pobres do Belém do Pará.
À Queima Roupa deveria ser debatido em todas as faculdades de direito e academias de polícia do Brasil. Nossos promotores, policiais e juízes estão sendo formados em uma bolha de plástico. Precisamos conversar com eles sobre a realidade das chagas brasileiras.
Veja abaixo o trailer do filme.