A proibição do anúncio do livro Mascarados no Metrô – o povo tá ficando histérico
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A proibição do anúncio do livro Mascarados no Metrô – o povo tá ficando histérico

Bruno Paes Manso

27 de novembro de 2014 | 08h06

mascarados

Não entendo nada de marketing nem de vendas, mas me parece que a proibição pelo Metrô do anúncio do livro Mascarados, da Geração Editorial, ajudou na divulgação da obra (Para quem não sabe, escrevi o livro com a Esther Solano e o Willian Novaes). O veto, que os editores do livro chamaram de censura, repercutiu e foi discutido em espaços nobres do Estadão e da Folha. Muita gente ficou sabendo do lançamento do livro depois de ler essas notícias e me escreveu para dar um alô. Prefiro não chamar a medida de censura, já que se trata de um mero contrato de publicidade que não se fechou. Proibir publicidade é bem diferente de proibir reportagens, opiniões ou obras de ficção. Mas achei a decisão do pessoal da comunicação do Metrô estapafúrdia e sem sentido.

Não que eu esperasse muito dessa turma que, aliás, já tomou outras decisões esquisitas. Corria o mês de março e uma série de denúncias de assédio sexual nos vagões vinha sendo feita por mulheres. Foi quando os marqueteiros do Metrô autorizaram comediantes da Rádio Transamérica a veicular uma peça publicitária que dizia para os passageiros que “vagões lotados eram bons para xavecar a mulherada”.

Agora, bom, vamos raciocinar, se esses marqueteiros vetaram um livro sobre os black blocs, imagina se alguma editora tentar veicular anúncios de livros sobre serial killer, guerras ou corrupção? Consigo até visualizar a reunião entre o povo da comunicação: “Gente, sei lá, vai saber, publicidade sobre livros com temas tão polêmicos, né?, quem garante as reações que pode provocar. Publicidade do livro do Armagedom? Veta! Vai que o povo decide acabar com o mundo?”

Voltando ao Mascarados, o livro é um trabalho jornalístico e busca, acima de tudo, compreender o que pensavam e defendiam esses jovens a partir do depoimento e da vivência que tivemos no ano que passou. A etnografia feita por Esther Solano é o material principal. Willian Novaes fez entrevistas com alguns jovens e policiais e eu falei sobre a minha experiência como jornalista durante as Jornadas de Junho. Ouvir e compreender o que eles dizem não significa que concordamos com essas ideias. Digo isso com tranquilidade já que, há mais de uma década, penso e escrevo sobre os homicídios em São Paulo. Foi tema de minha tese de doutorado. Algumas das fontes principais foram os próprios homicidas, matadores comuns e integrantes da polícia, que me ajudaram respondendo à pergunta “por que vocês matam?”. Isso não significa, companheiros comunicadores do Metrô, que sou a favor dos homicídios, certo?

Outro lado positivo da proibição é que tive motivos para tratar sobre o tema no blog. A Esther e o Willian já haviam sugerido, mas sempre achei que faltava gancho. Tenho uma relação ambígua com o assunto, por sinal. Na minha avaliação, a importância dado ao grupo adepto dessa tática de depredação foi superdimensionada pela imprensa e pela sociedade. Lançar um livro sobre o tema sempre me pareceu meio paradoxal. Mas, no final, creio que a publicação valeu a pena para tentar desestereotipar a turma. Muitos os enxergaram como espécies de subversivos perigosos, talvez revolucionários gramscianos, dispostos a implementar o anarquismo ou comunismo na América Latina financiados por instituições comunistas internacionais e articulados no Foro de São Paulo. Não creio que seja por aí. É menos.

O lançamento do livro, inclusive, deu uma ideia do fosso existente entre percepção e realidade. Muitos adeptos da tática estiveram presentes na noite de lançamento. Também passaram por lá oficiais da PM. Todos aguardaram na fila, muito simpáticos e gentis. Uma menina de cabelos alisados e cores berrantes, unhas bem feitas; garotos  de terno, gravata e roupas sociais que haviam saído do trabalho e outros de tatuagens, bombeta e alargadores de orelha. Um grupo de jovens entre deslumbrados e orgulhosos. A certa altura, eles anunciaram na livraria que era “Hora de Morfar!”. O termo foi criado no seriado Power Ranger e usado nas ruas pelos adeptos da tática black bloc no ano passado. Funciona como uma espécie de palavra de ordem para que todos coloquem suas máscaras e se transformem nos super-heróis que atacam os alvos opressores do sistema. Fotos e selfies foram tirados na livraria. Depois disso, o grupo foi beber cerveja num bar ao lado. Acabaram sendo perseguidos por homens da PM e tomaram um gigantesco enquadro, sendo revistados diante do público, para serem liberados porque obviamente não tinham feito nada demais. E a vida seguiu.

Existe uma ironia nessa reação desproporcional, talvez o que mais tenha me interessa na ação do grupo – eu, um pacifista convicto, que  acredita que a violência destrói o diálogo e produz sempre mais violência. Mas quando vejo essas cenas ridículas, admito que percebo a sagacidade de algumas das provocações feitas pelos black blocs. Sobre quebrar vidraças de banco, alguns adeptos dizem se tratar de violência simbólica, que ajuda a escancarar a hipocrisia da sociedade contemporânea. O teatro do quebra-quebra é feito nas ruas. Ganha manchetes de jornal e espaços nas TV. A PM os persegue e o anúncio do livro é proibido no Metrô. Ao mesmo tempo, jovens pobres são mortos nas periferias diariamente. Alguns deles são executados por maus policiais que defendem o extermínio como forma de diminuir o crime. É um tema recorrente deste blog e do canal Ponte.org. Mas essas histórias são cada vez menos debatidas. O silêncio é ensurdecedor.

É quando o arriscado teatro da ação direta arremessa uma pergunta em nossas vidraças. Afinal, por que falamos tanto sobre as pedras nos vidros dos bancos e tão pouco sobre o extermínio dos jovens que moram nas periferias? Qual a lógica do espaço para as notícias? Quais os valores que priorizamos e que sociedade estamos criando? Muitas e muitas perguntas para respostas que teremos a vida toda para tentar encontrar.

Ah, e antes que eu me esqueça, compre o livro Mascarados nas boas livrarias comunistas do ramo. Se não quiser comprar, pode pedir que empresto o meu.

 

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